sábado, março 12, 2005

A QUINTA DOS AL-TAHNI OU A IDADE MÉDIA DE CADILLAC

Tudo aponta para que, a relativamente breve trecho, o Qatar deixe de ser a quinta dos Al-Tahni. E deixe de ser um dos muitos exemplos do que, com grande perspicácia e propriedade, um amigo meu de há muito – mas que há muito não vejo – classificou, em finais dos anos 70, como o acabado modelo da “Idade Média de Cadillac”.

Que acutilância demonstrou o Chico Paiva Boléo! Estávamos em Jeddah (bem perto de Meca), na Arábia Saudita: o cenário, de uma imponente grandiosidade, o parque automóvel, dominado pelos topo de gama, não tinham qualquer correspondência com a vida dos cidadãos comuns (mormente das cidadãs) dessa “amostra”. O contraste entre esse sumptuoso cenário, e outros bem degradantes e ainda com o mais comum factor humano – era impressionante. Chocante.

O Chico Boléo observa, rumina e diz de si para si: “não há dúvida, isto é mesmo a Idade Média, de Cadillac!”

É que era isso mesmo: a idade média de cadillac! Espantosa a justeza da definição!

O PÚBLICO da passada Terça, 8 de Março, trazia uma interessante reportagem de Maria João Guimarães (MJG) acerca do tema “democratização do mundo árabe”.

Sob o sugestivo título “Algo se move no Médio Oriente mas ainda não são revoluções”, a autora afirma que “alguma coisa se move na direcção da democracia” para logo de seguida avisar: “mas esta mudança pode não ser a panaceia para muitos dos problemas, especialmente do ponto de vista dos EUA”. E transcreve: “Governos democráticos no Médio Oriente vão ser muito mais difíceis para os americanos lidarem, porque vai haver uma expressão muito mais directa de sentimento, muito do qual é hostil”.

Por fim, MJG alinha, em seis colunas, o ponto da situação em outros tantos desses países, com o respectivo subtítulo, como a seguir se pode ler:

Jordânia: Reformas para “estreitar laços”.
Marrocos: Repressão investigada.
Egipto: Na rua contra Mubarak.
Arábia Saudita: Eleições só para homens.
Líbia: Sem sinais de mudança interna.
Qatar: O país da Al-jazira.

Vejamos o Qatar.

“Os imigrantes excedem em número os nativos neste pequeno reino árabe” (de 11 437 Km2).

Antes de 1949, este pequeno emirato, situado a meio da costa ocidental do Golfo Pérsico, “era uma sociedade tribal que vivia das pérolas apanhadas por mergulhadores, da pesca e da criação de camelos.

Em 1982, já tinha alcançado o segundo rendimento per capita mais elevado do Mundo (16 000 dólares americanos) depois dos Emiratos Árabes Unidos (23 000 dólares).

Os árabes desta terra de deserto e pedra têm um provérbio: “primeiro prende o teu camelo e depois confia em Deus.” Fizeram da sua pátria um dos Estados mais desenvolvidos do mundo árabe, embora se tenham mantido e respeitado os valores muçulmanos tradicionais.”

Foi a exploração do petróleo e do gás natural que levou à transformação do Qatar.

Ora é acerca dessa pequena monarquia que MJG escreve:
«O Qatar é liderado pela família Al-Tahni há quase 150 anos; a última transição fez-se em 1995, quando o comandante das forças armadas e ministro da Defesa, o príncipe Hamad bin Khalifa, depôs os eu pai, enquanto este estava ausente do país, e se tornou emir (havia de escapar ele próprio a uma tentativa de golpe um ano depois).

Desde que tomou o poder, Hamad bin Khalifa começou a pôr em prática reformas liberais. Uma das primeiras foi a dos meios de comunicação; a censura foi abolida em 1995. dois anos depois, o lançamento da estação de televisão Al- Jazira trouxe um canal disposto a abordar assuntos polémicos, tornando-se conhecida a nível mundial depois de ser o canal a transmitir as primeiras gravações atribuídas a Osama bin Laden depois do início dos ataques contra o Afeganistão em Outubro de 2001.

As primeiras eleições do país decorreram em 1999 e destinaram-se a eleger um conselho municipal de 29 membros. As mulheres puderam votar e ser candidatas (podem ainda conduzir e trabalhar depois da chegada do actual emir ao poder). Este ano, espera-se a realização de uma votação para um organismo legislativo e a entrada em vigor da Constituição, aprovada em 2003, que cria um parlamento de 45 deputados, dos quais 30 serão eleitos e os restantes seleccionados pelo emir.

O Qatar foi ainda o centro nevrálgico das operações militares norte-americanas contra o Iraque, sendo a base para o Comando Central.

Fala-se ainda da influência da mulher do príncipe nas medidas progressistas do emir. Sheikha Mouza bin Nasser al-Misnad chegou a aparecer de cara descoberta na televisão.»

Parece claro que começam a ver-se alguns sinais positivos na evolução do Qatar.

Já se nota uma ou outra importante diferença – para melhor – neste emirato, relativamente aos mais e a outros países árabes.

É isso: como disse a repórter “algo se move… Mas ainda não são revoluções.”


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