terça-feira, maio 10, 2011

MEMÓRIA DO TEMPO QUE PASSA

Este é o espaço em que,
habitualmente,
faço algumas incursões pelo mundo da História.
Recordo factos, revejo acontecimentos,
visito ou revisito lugares,
encontro ou reencontro personalidades.
Datas que são de boa recordação, umas;
outras, de má memória.
Mas é de todos estes eventos e personagens que a História é feita.
Aqui,
as datas são o pretexto para este mergulho no passado.
Que, por vezes,
ajudam a melhor entender o presente
e a prevenir o futuro.


ESTAMOS NA QUARTA-FEIRA DIA 04 DE MAIO DE 2011 (MMXI) DO CALENDÁRIO GREGORIANO

Que corresponde ao
Ano de 2764 Ab Urbe Condita (da fundação de Roma)
Ano 4707 a 4708 do calendário chinês
Ano 5771 a 5772 do calendário hebraico
Ano 1432 a 1433 do calendário islâmico

Mais:
DE ACORDO COM A TRADIÇÃO, COM O CALENDÁRIO DA ONU OU COM A AGENDA DA UNESCO:
De 2003 a 2012 - Década da Alfabetização: Educação para Todos.
de 2005 a 2014 - Década das Nações Unidas para a Educação do Desenvolvimento Sustentável.
de 2005 a 2015 - Década Internacional "Água para a Vida".

Por outro lado
2011 é o ANO EUROPEU DO VOLUNTARIADO
e
é, também, o ANO INTERNACIONAL DA QUÍMICA

Além disso
hoje é DIA MUNDIAL DO DOENTE DE LÚPUS


Trago hoje a memória de dois eventos que perturbaram o regime da feroz ditadura salazarista e com que se escreveu, também, o proémio da História do Dia da Liberdade e da moderna História de Portugal.



Completam-se hoje 105 anos (1906), foi numa QI: nasceu D. António Ferreira Gomes, em São Martinho de Milhundos, Penafiel. Reinava, ainda, D. Carlos (33º). No Vaticano pontificava Pio X (257º).

D. António Ferreira Gomes
numa obra cujo autor desconheço

O bispo que teve a ousadia de afrontar a ditadura do Estado Novo e o seu líder, Salazar, doutorou-se em Filosofia na Universidade Gregoriana de Roma.
Foi nomeado bispo de Portalegre, em 1949, e bispo do Porto em 1952.

“A 13 de Julho de 1958 (conquanto a notícia, por manifesto lapsus calami referisse 13 de Agosto) D. António escreveu uma carta a Salazar, na qual, mantendo-se fiel à doutrina da Igreja, exprimia a sua preocupação acerca de alguns aspectos negativos do regime então vigente, principalmente por razões sociais.


Por pressão de Salazar, o bispo viu-se constrangido ao exílio, em 1959, em Roma, só regressando a Portugal dez anos depois, altura em que retomou as suas funções clericais, das quais resignou em 1982, ao atingir o limite de idade” – noticiava o PÚBLICO na sua edição de 05.05.05.

Estão associados ao seu nome o Instituto Cultural D. António Ferreira Gomes e a Fundação SPES

O ex-bispo do Porto, que teve coragem de se opor ao regime de Salazar – o que lhe custou 10 anos de exílio - faleceu a 13 de Abril de 1989, perto de perfazer os 83 anos.

Por mim continuo a pensar que mais grave do que as palavras e a consequente defesa da doutrina social da Igreja, foi a atitude contestatária do bispo face às teses e á ideologia do todo-poderoso mentor e líder da situação.

Foi assim que pouco mais de um mês depois das eleições presidenciais de 1958 (que se realizaram no Domingo 8 de Junho de 1958), mais precisamente no dia 13 de Julho, D. António Ferreira Gomes escreveu uma longuíssima e (atendendo às circunstâncias) corajosa carta a Salazar, que lhe valeu dez anos de exílio em Espanha, França e Alemanha (entre 1959 e 1969).
”Essa carta foi um marco na resistência dos católicos (então ainda relativamente incipiente) contra a ditadura.”

Do texto, constante de vários sítios da rede, deixo aqui uma parte - digamos que o seu prólogo - não sem remeter, por fim, para o seu completo conteúdo, para os que nele estiverem interessados, que se encontra num sítio da blogosfera intitulado “Entre os Textos da Memória”.

«AO EX.mo PRESIDENTE DO CONSELHO

Porto, 13 de Julho de 1958

Excelência,

Cumpre-me, antes de mais, agradecer a V. Ex.ª o ter manifestado a boa disposição de me ouvir.
Na verdade, estando eu, na ocasião das eleições, legitimamente ausente em Barcelona, a deslocação a Portugal, que se me pedia, por forma tão extraordinária e pública, não poderia deixar de considerar-se propaganda da Situação, visto que, nas condições das duas candidaturas, sem falar sequer da posição ideológica de quem me pedia, era praticamente voto aberto. Isto tinha talvez menos importância; o que a tinha máxima era o carácter plebiscitário que se tem dado às nossas eleições, carácter que eu procurei fazer compreender ao grupo de pessoas que se me dirigiu e que depois V. Ex.ª publicamente reconheceu.

Em tais condições e forçado a ser, diametralmente ao contrário do meu desejo, uma bandeira, eu não podia deixar de fazer uma declaração de voto. Como a não deveria fazer em público, requeri fazê-lo a V. Excelência.

Acho porém preferível enviar primeiro, por escrito, os pontos fundamentais desta minha declaração a fim de poder ser útil à nossa conferência.

Quero, sobretudo e antes de tudo, acentuar que aquilo que se me põe à minha consciência é um problema directamente da Igreja.

A grande e trágica realidade, que já se conhecia mas que a campanha eleitoral revelou de forma irrefragável e escandalosa, é que a Igreja em Portugal está perdendo a confiança dos seus melhores. Não direi se este processo está, em princípio, no meio ou perto do fim; o que é evidente é que tal processo está em curso, por mim penso que muito e muito adiantado.»

Ler o texto completo aqui.

O cinquentenário da carta foi largamente recordado.

Assim, por exemplo, na imprensa laica:

Jornal de NotíciasDomingo 2008-07-13

Faz 50 anos que o bispo do Porto enviou o "pró-memória" a Salazar, uma "carta-aberta" que questionava o ditador e as ligações do regime à Igreja

A "carta" que sacudiu o salazarismo
Alfredo Maia

Há 50 anos, um bispo sacudiu o salazarismo e a cumplicidade católica. Um memorando enviado ao ditador apontou mazelas e requereu mudanças. D. António Ferreira Gomes foi para o exílio, mas nada ficou como dantes.


Mas já nada era como dantes. Estávamos em 1958, o ano do sismo eleitoral que abalou a ditadura. Na campanha para a Presidência da República, centenas de milhar de pessoas ousaram apoiar nas ruas Humberto Delgado, opositor ao candidato do regime, Américo Thomaz.


A resistência ganha uma nova frente. Militantes da Acção Católica (AC) reclamavam mudanças, questionando o Estado Novo e a aliança com a Igreja Católica que o incensava. E o bispo do Porto já incomodava.


Voz dissonante na Igreja, com preocupações sociais desde o seu primeiro magistério, em Portalegre (1948) e aprofundado no Porto (1952), D. António Ferreira Gomes era ouvido entre os militantes da AC e os jovens das novas elites e mantinha contactos com católicos progressistas como António Alçada Baptista, Nuno Teotónio Pereira e Francisco Lino Neto e Manuela Silva.


A partir de 1956, questiona, em conferências e homílias, a organização corporativa, a falta de liberdade de expressão e de associação, a exploração dos operários e a miséria rural. Salazar suspeita que pretende transformar a AC em partido (democrata cristão) elege-o como inimigo.


Na altura das eleições, conferências afastam D. António do país. Salazar não gosta e estende a garra sobre a presa. Envia três senhoras de sua confiança a Barcelona para persuadirem o bispo a vir votar, prometendo-lhe um encontro com o ditador, para discutirem os assuntos que entender.


D. António regressa, vota e prepara o encontro. A 13 de Julho de 1958, envia um "pró-memória" a Salazar, com as matérias a abordar. E descobre-lhe o jogo: a deslocação "não poderia deixar de considerar-se propaganda da Situação, visto que, nas condições das duas candidaturas, sem falar sequer na posição ideológica de quem mo pedia, era praticamente voto aberto", escreve.


A reunião nunca se realizou. O documento, apesar de confidencial ("A cópia que me enviou era acompanhada de um cartão pessoal no qual pedia absolutamente reserva", conta Manuela Silva) escapou com "fugas" da Presidência do Conselho e descuido no círculo do bispo. Distribuído pelo aparelho fascista, apodando-o de comunista, e pela oposição, que apropriava uma nova voz, mudou muitas consciências.


Salazar exigiu a demissão do bispo, ameaçando romper a Concordata; o episcopado isolou-o; e o clero e os católicos situacionistas vilipendiaram-no. Acabou por aceitar a "sugestão" do enviado do Vaticano e do ditador: férias fora do país "para acalmar as coisas". Partiu a 24 de Julho de 1959, mas o regresso foi barrado pela PIDE na fronteira. Reentrou na sua diocese a 5 de Julho de 1969, com a benevolência da sombria "Primavera marcelista".


Mais explícita e completa (ainda que um pouco longa) é a comemoração do mesmo evento pela (católica) “Agência Ecclesia” no seu próprio site, onde disseca a carta, digamos:

«50 anos da Carta a Salazar

A missiva de D. António Ferreira Gomes dá a conhecer as misérias da época e aponta soluções fundamentadas nos documentos pontifícios

Nunca um «pró-memória» foi objecto de tanta investigação como aquele que D. António Ferreira Gomes escreveu a António de Oliveira Salazar. Redigido a 13 de Julho de 1958, este documento está a celebrar o seu cinquentenário. À carta-denúncia das injustiças sociais, Salazar respondeu, um ano depois, com o exílio do bispo do Porto.


Depois das eleições de 1958, cujo vencedor foi Américo Tomás, o célebre bispo do Porto remeteu a Salazar a missiva que referenciou como «pró-memória» para um seu eventual encontro com o presidente do Conselho. “Cumpre-me, antes do mais, agradecer a V. Exª o ter manifestado a boa disposição de me ouvir” – início do documento de D. António Ferreira Gomes ao Presidente do Conselho.


Depois de explicar as razões da sua vinda a Portugal para votar – estava “legitimamente ausente em Barcelona” -, D. António Ferreira Gomes considera que o pedido que lhe foi feito, “por forma tão extraordinária e pública, não poderia deixar de considerar-se propaganda da Situação” – realça o «Pró-Memória». A «história» dessa carta começou, no exacto momento, em que o bispo do Porto se recusou a servir de bandeira do regime nas eleições para a Presidência da República no mês transacto. “Em tais condições e forçado a ser, diametralmente ao contrário do meu desejo, uma bandeira, eu não podia deixar de fazer uma declaração de voto. Como a não deveria fazer ao público, requeri fazê-la a V. Exª” – escreveu no documento.


Após as explicações iniciais, o prelado natural de Milhundos mostrou-se preocupado pelo facto da Igreja em Portugal, como a “campanha eleitoral revelou de forma irrefragável e escandalosa”, estar “perdendo a confiança dos seus melhores” – sublinha. Com o intuito de esclarecer a sua afirmação, D. António Ferreira Gomes apresenta dois casos ao Presidente do Conselho. No Minho - “coração católico de Portugal” – “mal os padres começavam a falar de eleições, os homens, sem se importarem como sentido que seria dado ao ensino, retiravam-se afrontosamente da igreja”. Nas juventudes da Acção Católica, os dirigentes “mais responsáveis saltam fora dos quadros e da disciplina, para manifestarem a sua inconformidade e desespero, fugindo ao conhecimento dos assistentes (que, apesar de tudo, lhes aconselhariam paciência)”.


Estes dois factos causam preocupação ao bispo do Porto. “Está-se perdendo a causa da Igreja na alma do povo, dos operários e da juventude; se esta se perde, que poderemos esperar da sorte da nação?” – lê-se no «Pró-Memória.


A missiva recorda também alguns pontos caricatos da imagem que Portugal tinha no estrangeiro. “Há trinta anos estava eu, em Roma, sob o esplendor do sol ascendente do fascismo”, e um jornal humorístico mostrava Portugal “mendigando à porta da S. D. N. e obtinha esta resposta: - aqui não se entra «a la portoghesa»”. Como a imagem da Pátria no exterior não era muito abonatória, D. António confessa: “lembro bem a comoção e o entusiasmo, o sobressalto de esperança com que acompanhámos os inícios da carreira” de António Oliveira Salazar. E acrescenta: “mais do que para todos, era para nós, afastados da Pátria, uma espécie de resgate e reabilitação perante o estrangeiro desprezador”.

Crise nacional


Nos primórdios do Estado Novo, D. António Ferreira Gomes guardava “religiosamente” as palavras ou as referências que eram feitas ao Presidente do Conselho. Reconhecia-lhe “competência profissional” e as “actividades no campo católico”. Passados os anos, o Bispo do Porto frisou que “não diminuiu a minha estima e respeito pela personalidade de V. Exª nem a admiração pela sua inteligência”.


A “tremenda crise nacional” que a campanha eleitoral “pôs a nu” merecia umas palavras de António Oliveira Salazar. Depois de ouvir e ler o discurso do Presidente do Conselho, a 31 de Maio de 1958, o bispo do Porto lembra no documento: “enquanto trata das políticas externa e ultramarina e do problema económico, salvas pequenas diferenças, não pude senão admirar a lucidez do raciocínio e o bem fundamentado das posições”. Não deixou, porém, de discordar das suas doutrinas relativamente ao problema social. “Tudo começou a ser difícil” – lê-se na carta.


Após fazer um exercício lógico – “o qual depois segui conscientemente” -, D. António Ferreira Gomes procurou “a exacta contraditória das posições expressas” pelo Presidente do Conselho. Após analisar o discurso de António Oliveira Salazar, o bispo do Porto escreve que crê “bem-estar com a doutrina da Igreja ao discordar de doutrinas que, sendo de V. Exª, são da situação”.


Como gosta de explicar as suas posições e fundamentá-las, D. António Ferreira Gomes alinha algumas dessas oposições “com um mínimo de aclarações”.


Depois de António Salazar referir que “a greve é entre nós um crime”, o bispo do Porto lamenta tal posição do Chefe de Estado. Fazendo referência às reivindicações da campanha de Humberto Delgado – “a reclamação de ser reconhecido o direito à greve” -, o prelado do Douro afirma: “eles estão com a doutrina da Igreja”.

Pulsar da sociedade


D. António sentia o pulsar da sociedade portuguesa e reflecte-o no «pró-memória». Apesar da sua formação filosófica, o «celebre bispo do Porto» olha para os problemas sociais com preocupação. “Não poderei dizer quanto me aflige o já hoje exclusivo privilégio português do mendigo, do pé-descalço, do maltrapilho, do farrapão; nem sequer o nosso triste apanágio das mais altas médias de subalimentados, de crianças enxovalhadas e exangues e de rostos pálidos” – sublinha na missiva.


Um documento que analisa a sociedade da época. As tensões sociais e políticas não paravam de subir. Antes de D. António Ferreira Gomes colocar o dedo nesta ferida social, já o Pe. Abel Varzim, Joaquim Alves Correia e outros tomavam posições críticas em relação ao regime.


O próprio bispo do Porto só avançou com a «carta» ao Presidente do Conselho porque a Conferência Episcopal Portuguesa não publicou, três anos antes, um texto sobre a situação dos trabalhadores no nosso país e, nomeadamente a situação do corporativismo. Como os seus colegas do episcopado não deram o passo fundamental para denunciar os casos, D. António Ferreira Gomes viu-se «obrigado», mas em consciência a escrever o que lhe ia na alma. Com este documento exerceu o seu múnus de pastor.


A missiva dá a conhecer as misérias da época e aponta soluções fundamentadas nos documentos pontifícios.

O exílio


A conversa entre os dois Antónios não chegou a realizar-se devido a vários factores, mas o bispo condensou em quatro questões aquilo que desejaria perguntar a António de Oliveira Salazar. “Tem o Estado qualquer objecção a que a Igreja ensine livremente e por todos os meios, principalmente através das organizações e serviços da Acção Católica e da Imprensa, a sua doutrina Social?”; “Tem o Estado qualquer objecção a que a Igreja autorize, aconselhe e estimule os católicos a que façam a sua formação cívico-política, de forma a tomarem plena consciência dos problemas da comunidade portuguesa, na concreta conjuntura presente, e estarem aptos a assumir as responsabilidades que lhes podem e devem caber, como cidadãos católicos?”; “Tem o Estado qualquer objecção a que os católicos definam, publiquem e propaguem o seu programa ou programas, politicamente situados, em concreto hic et nunc, o que evidentemente não pode ir sem o despertar de esperanças de mutações ousadas e substanciais e do seu clima emocional?” e “Tem o Estado qualquer objecção a que os católicos, se assim o entenderem e quando entenderem, iniciem o mínimo de organização e acção políticas, a fim de estarem aptos, nas próximas eleições legislativas ou quando julgarem oportuno, a concorrer ao sufrágio, com programa definido e com os candidatos que preferirem?”.


As questões chegaram aos nossos dias. Como resposta teve um exílio de dez anos.»




Foi há 53 anos, (no Sábado 10.05.1958): Humberto Delgado proferiu a histórica frase que o celebrizaria: “obviamente, demito-o”.

A quatro semanas da retumbante fraude que viriam a ser as presidenciais do Domingo 8 de Junho seguinte, numa conferência de imprensa no Café Chave d’Ouro, ali mesmo no coração de Lisboa, o “general sem medo” (afinal um conservador que teve um momento de lucidez, nada mais que isso), candidato pela Oposição Democrática à Presidência da República, profere - em resposta a uma pergunta (absolutamente impensável) sobre qual seria o destino do ditador, caso – como tudo fazia garantidamente prever – ganhasse as eleições - a não menos retumbante frase que abanou (um ligeiro abalo, é óbvio) o regime, qual inexplicável, impossível, inacreditável, imperdoável, despudorada, ímpia, sacrílega, inexorável e absurda heresia.  


(Alguns pensarão que estou a carregar nas cores:
enganam-se!
Para os bonzos do salazarismo,
estes eram apenas alguns dos inumeráveis adjectivos com que
- incrédulos, pasmados –
classificariam a ousadia do “traidor” general.

O regime
até às vozes “de dentro”
- raríssimas –
era surdo.
Absolutamente.
E insensível).


Delgado na conferência de imprensa

A pergunta não foi feita – podia lá sê-lo? E as consequências de tal acto suicida? – por nenhum representante de agência ou órgão de informação nacional… “Estavam todos nas encolhas”, comentou a esse respeito o herói que se afoitou, o jornalista da France Press, Lindorfe Pinto Basto, que muito simplesmente quis saber que faria o general a Salazar, caso – como tudo indicava – ganhasse as eleições… Decidida, enérgica e sem a mínima hesitação, a resposta não se fez esperar: a célebre “obviamente, demito-o” ecoou como uma bomba na sala apinhada do Chave d’Ouro, inscrevendo imediatamente na História perguntador e perguntado.

Humberto Delgado entrara no golpe de (Sexta-feira) 28 de Maio de 26 e fora uma destacada figura da situação, mas um dia um lampejo (durante os cinco anos que viveu nos EEUU) fá-lo-ia mudar o sentido do “trajecto” que o traria, nessa data, aqui: em 1958, acedendo a um “desafio” da oposição democrática candidatou-se, como independente, às presidenciais desse ano.
uma imagem da vaga que se seguiu à candidatura do general 
 
 


A enorme vaga que se seguiu possibilitou uma dinâmica nunca antes experimentada de unidade da oposição contra o regime do Estado Novo e o seu condutor.
Mas… E a ousadia do general não pagou por isso nenhum preço?

Claro que sim, e aqui foi o preço máximo: atraído a uma cilada em Badajoz, a pretexto de uma eventual reunião com militares portugueses da oposição, foi morto às mãos da PIDE, cujo grupo de agentes era liderado por Rosa Casaco, próximo da fronteira, em Villanueva del Fresno, no Sábado 13 de Fevereiro de 1965.

quarta-feira, maio 04, 2011

MEMÓRIA DO TEMPO QUE PASSA


Este é o espaço em que,
habitualmente,
faço algumas incursões pelo mundo da História.
Recordo factos, revejo acontecimentos,
visito ou revisito lugares,
encontro ou reencontro personalidades.
Datas que são de boa recordação, umas;
outras, de má memória.
Mas é de todos estes eventos e personagens que a História é feita.
Aqui,
as datas são o pretexto para este mergulho no passado.
Que, por vezes,
ajudam a melhor entender o presente
e a prevenir o futuro.

ESTAMOS NA QUARTA-FEIRA DIA 04 DE MAIO DE 2011 (MMXI) DO CALENDÁRIO GREGORIANO



Que corresponde ao
Ano de 2764 Ab Urbe Condita (da fundação de Roma)
Ano 4707 a 4708 do calendário chinês
Ano 5771 a 5772 do calendário hebraico
Ano 1432 a 1433 do calendário islâmico

Mais:

DE ACORDO COM A TRADIÇÃO, COM O CALENDÁRIO DA ONU OU COM A AGENDA DA UNESCO:

De 2003 a 2012 - Década da Alfabetização: Educação para Todos.
de 2005 a 2014 - Década das Nações Unidas para a Educação do Desenvolvimento Sustentável.
de 2005 a 2015 - Década Internacional "Água para a Vida".

Por outro lado

2011 é o ANO EUROPEU DO VOLUNTARIADO
e
é, também, o ANO INTERNACIONAL DA QUÍMICA

Além disso
hoje é DIA INTERNACIONAL DO BOMBEIRO



Foi no DM 04 de Maio de 1460, completam-se hoje 551 anos: Diogo Gomes “descobre” (já vamos ver o porquê das aspas) o arquipélago de Cabo Verde.Reinava D. Afonso V (12º). Decorria o curto pontificado de Pio II (210º).

Pouco se conhece da vida do explorador e navegador. Mas sabe-se que fora lançado no projecto das descobertas pelo infante D. Henrique (por sinal falecido nesse ano), como fora Almoxarife (colector de receitas das alfândegas reais) em Sintra e aí exerceu, também, funções de magistrado (juiz das cousas e feitorias contadas de Sintra). E a surpresa, para muitos, é que foi também escritor: “escreveu, especialmente para Martin Behaim, “uma crónica em latim de grande valor”, tratando da vida e das descobertas do infante D. Henrique, dividida em três partes: De prima inventione Guineae, De insulis primo inventis in mare Occidentis e De inventione insularum de Acores.”

Martin Behaim, que também dava por Martinho da Boémia
– já que casou e viveu alguns anos na ilha do Faial e morreu em Lisboa, em 1507 –,
nasceu em Nuremberga em 1459 e foi, além de explorador,
um conhecido cosmógrafo, cartógrafo e astrónomo.

Já em idade avançada, Diogo Gomes terá ditado verbalmente as suas memórias Martin Behaim durante a última estada em Portugal, o que terá ocorrido em data incerta entre 1484 (chegada Behaim ao nosso reino) e 1502 (quando é confirmada a morte de Gomes).

Claro que quando se diz que – neste caso – Diogo Gomes (ao serviço de Portugal), ou - noutros casos - Cristóvão Colombo (ao serviço dos reis católicos) e Pedro Álvares Cabral (ao serviço da coroa portuguesa), descobriram, respectivamente Cabo Verde, a América ou o Brasil… Quando se afirma que outros navegadores e exploradores medievais, portugueses, holandeses, britânicos ou espanhóis descobriram continentes, ilhas, arquipélagos, percursos, territórios e comunidades… Efectivamente tudo isso estava mais que descoberto. Só que aqui no Ocidente (e, então, o Ocidente restringia-se à Europa) se desconhecia a sua existência, porque não havia registos de viagens, muito menos mapas; e atlas, então, menos ainda.

“No séc.XV iniciaram-se as grandes navegações marítimas e as “descobertas”. Naquela época, era muito grande a disputa por terras, pois o país que encontrasse novos territórios poderia transformá-los em colónias e explorar suas riquezas Por isso, os europeus, especialmente portugueses e espanhóis, lançaram suas embarcações ao mar em busca de conquistas.

Nesse tempo, Portugal e Espanha eram países muito ricos e influentes Ambos dominavam as técnicas de navegação e possuíam muitas caravelas e naus.”

O que os navegadores europeus fizeram foi, de facto, “descobri-los” mas para o nosso mundo ocidental, ao serviço dos respectivos monarcas, que iniciaram a sua colonização nos moldes da nossa cultura.

(Em muitos casos – muitos? Só? – foi uma monstruosa vileza. Inqualificável violência. Não é possível sossegarmo-nos, com o habitual encolher d’ombros: costumes da época!...)

A América, por exemplo – todo o continente – havia sido descoberto, povoado e colonizado há cerca de 62 mil anos pelos ameríndios que, vindos da Ásia, pelo Norte do continente, numa altura em que o estreito de Bering (de 85 km), por efeito da glaciação ocorrida nessa altura, se transformou no seu negativo, um istmo, ligando as duas enormes massas de terra que eram os dois continentes, e o atravessaram a pé.

Nessa altura,
de estreito que era
– ligando dois oceanos, o Árctico e o Pacífico
(ou mares, respectivamente, Chukchi, no Norte, e Mar de Bering, a Sul), e separando duas massas de terra, Ásia e Américas – passou a istmo,
separando, ao invés, aqueles dois corpos de água
e unindo os dois continentes.

É por demais evidente que o termo mais usual, índios, só pode resultar da confusão – da ignorância, melhor dito, perante os conhecimentos que já havia na época - de Cristóvão Colombo, que supunha ter chegado à Índia quando aportou às Américas.

(Acerca dos dados biobibliográficos – inclusive a referência a Martin Behaim – do navegador-escritor, a fonte foi a WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre)




imagem da wikipédia
Tratado de Tordesilhas


Completam-se, hoje, 518 anos, já que o evento aconteceu no SB 04 de MAIO de 1493: o Novo Mundo é dividido entre Portugal (D. João II) e Castela (Isabel, a católica), através da bula “Inter Caetera”, de Alexandre VI (214º).


O documento do papa – o valenciano Rodrigo Bórgia (pai dos célebres e dissolutos César e Lucrécia Bórgia) – conforme a tradição tomava a designação de certos documentos oficiais da igreja de Roma: Bula.

Ora a bula de Alexandre VI – dividiu o mundo a descobrir em dois hemisférios: o oriental [ou do nascente] para os portugueses e o ocidental [ou do poente] para os espanhóis [aliás, castelhanos]. Pelo Tratado de Tordesilhas [07.06.1494], ficou ajustado entre os dois países que a linha divisória seria um meridiano traçado a 370 léguas [1 850 km] para Oeste da ilha mais ocidental [por sinal também mais setentrional, do grupo do Barlavento, Santo Antão (a 2ª maior ilha do arquipélago, sendo a maior a de Santiago, do Sotavento) do arquipélago de Cabo Verde – o actual meridiano 47º W Gr (cfr Padre Miguel de Oliveira, História Eclesiástica de Portugal, pg 200).

De notar que outras bulas – “bulas alexandrinas” – versaram esta matéria da divisão das possessões portuguesas e espanholas no mundo, como as bulas Eximiae Devotionis e Dudum Siquidem.

O Tratado de Tordesilhas, assinado na povoação castelhana de Tordesilhas (um município da Espanha na província de Valladolid, comunidade autónoma de Castela e Leão) em 7 de Junho de 1494, foi um tratado celebrado entre o Reino de Portugal e o recém-formado Reino da Espanha (formado pelas Coroas de Aragão e Castela) para dividir as terras "descobertas e por descobrir" por ambas as Coroas fora da Europa. Em princípio, o tratado resolvia os conflitos que seguiram à descoberta do Novo Mundo por Cristóvão Colombo, em 1492, mas, atendendo às coordenadas geográficas fornecidas por Cristóvão Colombo, os cosmógrafos portugueses argumentaram que a descoberta, efectivamente, se encontrava em terras portuguesas.

Aliás, sabe-se que a oferta de serviços de Colombo
foi recusada por D. João II porque os cartógrafos da sua corte
tinham diferentes e melhores informações na matéria.

Já antes, na sequência do contorno do cabo da Boa Esperança e descoberta da Costa da Mina, com o consequente comércio de ouro, marfim e escravos, Portugal, buscando proteger o seu investimento, posto em causa por Castela, negociou com este reino o Tratado de Alcáçovas (1479), obtendo em 1481, do Papa Sisto IV, a bula Æterni regis, que dividia as terras descobertas e a descobrir por um paralelo na altura das Canárias, dividindo o mundo em dois hemisférios: a norte, para a Coroa de Castela; e a sul, para a Coroa de Portugal. Somando-se a duas outras bulas anteriores de 1452 (Dum Diversas) e 1455 (Romanus Pontifex), do Papa Nicolau V, Portugal e a Ordem de Cristo haviam recebido todas as terras conquistadas e a conquistar ao sul do cabo Bojador e da Gran Canária.

A assinatura do tratado de Tordesilhas é, pois, o culminar de um longo processo negocial entre Portugal e Castela pela posse das terras descobertas. Este processo, repito, vem já do século XIV, com a disputa pela posse das Canárias, e origina o Tratado de Alcáçovas de 1479. Nele, e explicando melhor, Portugal renunciava às Canárias, enquanto Castela deixava para Portugal todas as outras ilhas atlânticas e o comércio da costa africana.

Em suma, o tratado definia como linha de demarcação o meridiano que passava a 370 léguas a oeste da ilha de Santo Antão no arquipélago de Cabo Verde. Esta linha estava situada a meio-caminho entre estas ilhas (então portuguesas) e as ilhas das Caraíbas descobertas por Colombo, no tratado referidas como "Cipango"( Colombo tomara-as pelo Japão! Tais os conhecimentos de Geografia de Colombo!) e Antília (Cuba e Ilha de São Domingos). Os territórios a leste deste meridiano pertenceriam a Portugal e os territórios a oeste, à Espanha. O tratado foi ratificado pela Espanha a 2 de Julho e por Portugal a 5 de Setembro de 1494.

Algumas décadas mais tarde, na sequência da chamada "questão das Molucas", o outro lado da Terra seria dividido, assumindo como linha de demarcação, a leste, o antimeridiano (na zona das Ilhas Molucas. Sabe-se pela cartografia de hoje, que esse meridiano das Molucas é o 129°32' L, cujo antimeridiano, a 50°28'O, corta o território brasileiro.) correspondente ao meridiano de Tordesilhas, pelo Tratado de Saragoça, a 22 de Abril de 1529.

O papa foi durante todas estas questões que envolviam a atribuição da titularidade das terras descobertas o moderador e o juiz, perante os interessados.
Esta aparente imiscuição ou manifesta intromissão dos papas nestas matérias, não o eram, porém. No que aos recentes tratados sobre a partição do Mundo essa intervenção emerge do contexto das Relações Internacionais, a sua assinatura ocorreu num momento de transição entre a hegemonia do Papado, poder até então universalista, e a afirmação do poder singular e secular dos monarcas nacionais - uma das muitas facetas da transição da Idade Média para a Idade Moderna. Realmente, "(...) subsistia ainda a tradição medieval da supremacia política da Santa Sé, que reconhecia a Roma o direito de dispor das terras e dos povos: Adriano IV, papa inglês (1154-59), havia dado a Irlanda ao rei da Inglaterra e Sisto IV as Canárias ao rei de Castela (1471-84). Baseava-se isso, em parte, sobre o facto de um Édito de Constantino ter conferido ao papa Silvestre a soberania sobre todas as ilhas do globo; ora, isso porque as terras a descobrir eram todas, então, supostas serem exclusivamente ilhas (cfr LIMA, Oliveira. Descobrimento do Brasil. Livro do Centenário (v. III), Rio de Janeiro: 1900 apud: Carvalho, Delgado. História Diplomática do Brasil. Apud Wikipédia)

Os originais de ambos os tratados estão conservados no Archivo General de Indias na Espanha e no Arquivo Nacional da Torre do Tombo em Portugal.



Vejamos como nasceu o Tratado de Tordesilhas.
Entretanto já havia regras estabelecidas entre as duas partes acerca da matéria. Mas assentava em disposições que não agradavam (ou deixaram de interessar) aos Reis Católicos.

Contudo, a diplomacia castelhana apressou-se a obter junto ao Papa Alexandre VI, o célebre valenciano, pai de César e Lucrécia Bórgia, uma nova partição de terras. Assim, em 3 de Maio de 1493, a Bula Inter Coetera estabelecia uma nova linha de marcação, um meridiano que separaria as terras de Portugal e de Castela. O meridiano passava a cem léguas a oeste das ilhas de Cabo Verde. As novas terras descobertas, situadas a Oeste do meridiano a 100 léguas de Cabo Verde, pertenceriam a Castela. As terras a leste, pertenceriam a Portugal. A bula excluía todas as terras conhecidas já sob controle de um estado cristão.

Os termos da bula não agradaram a João II de Portugal, que julgava ter direitos adquiridos que a Bula vinha omitir e pôr em causa. Além disso os seus termos causavam confusão, pois um meridiano vinha a anular o que um paralelo tinha estabelecido. Complementarmente, a execução prática da Bula era impossibilitada por sua imprecisão e pela imperfeição dos meios científicos disponíveis à época para a fixação do meridiano escolhido. Assim sendo, D. João II abriu negociações directas com os Reis Católicos, Fernando II de Aragão e Isabel I de Castela, para mover a linha mais para oeste, argumentando que o meridiano em questão se estendia por todo o globo, limitando assim as pretensões castelhanas na Ásia. D. João II propôs, por uma missão diplomática aos reis católicos, estabelecer um paralelo das Ilhas Canárias como substituto ao meridiano papal. Os castelhanos recusaram a proposta, mas prestaram-se a discutir o caso. Reuniram-se então, os diplomatas, em Tordesilhas.

O Tratado estabelecia a divisão das áreas de influência dos países ibéricos, cabendo a Portugal as terras "descobertas e por descobrir" situadas antes da linha imaginária que demarcava 370 léguas (1 850 Km) a oeste das ilhas de Cabo Verde, e à Espanha as terras que ficassem além dessa linha.

Textualmente: "(...) que se trace e assinale pelo dito mar Oceano uma raia ou linha directa de pólo a pólo; convém a saber, do pólo Árctico ao pólo Antárctico, que é de norte a sul, a qual raia ou linha e sinal se tenha de dar e dê direita, como dito é, a trezentas e setenta léguas das ilhas de Cabo Verde em direcção à parte do poente, por graus ou por outra maneira, que melhor e mais rapidamente se possa efectuar contanto que não seja dado mais. E que tudo o que até aqui tenha achado e descoberto, e daqui em diante se achar e descobrir pelo dito senhor rei de Portugal e por seus navios, tanto ilhas como terra firme desde a dita raia e linha dada na forma supracitada indo pela dita parte do levante dentro da dita raia para a parte do levante ou do norte ou do sul dele, contanto que não seja atravessando a dita raia, que tudo seja, e fique e pertença ao dito senhor rei de Portugal e aos seus sucessores, para sempre. E que todo o mais, assim ilhas como terra firme, conhecidas e por conhecer, descobertas e por descobrir, que estão ou forem encontrados pelos ditos senhores rei e rainha de Castela, de Aragão etc., e por seus navios, desde a dita raia dada na forma supra indicada indo pela dita parte de poente, depois de passada a dita raia em direcção ao poente ou ao norte-sul dela, que tudo seja e fique, e pertença, aos ditos senhores rei e rainha de Castela, de Leão etc. e aos seus sucessores, para sempre."

Como resultado das negociações, os termos do tratado foram ratificados por Castela a 2 de Julho e, por Portugal, a 5 de Setembro do mesmo ano. Contrariando a bula anterior de Alexandre VI, Inter Coetera (1493), que atribuía à Espanha a posse das terras localizadas a partir de uma linha demarcada a 100 léguas de Cabo Verde, o novo tratado foi aprovado pelo Papa Júlio II em 1506.

As dúvidas, porém, acerca da geografia, mostraram-se o grande problema. Difícil de vencer porque qualquer das partes defendia a sua tese – diferente da do outro.

Ou seja, o meridiano foi fixado, mas persistiam as dificuldades de execução de sua demarcação. Os cosmógrafos divergiam sobre as dimensões da Terra, sobre o ponto de partida para a contagem das léguas e sobre a própria extensão das léguas, que diferia entre os reinos de Castela e de Portugal. Já se afirmou ainda que os castelhanos cederam porque esperavam, por meio de sua política de casamentos, estabelecer algum dia a união ibérica, incorporando Portugal. O que é mais provável é que os negociadores portugueses, na expressão de Frei Bartolomé de las Casas, tenham tido "mais perícia e mais experiência" do que os castelhanos.


Entretanto uma certeza se impunha: os termos do tratado nunca foi cumprido. Muito pouco se sabia das novas terras, que passaram a ser exploradas por Castela. De imediato, o tratado garantia a Portugal o domínio das águas do Atlântico Sul, essencial para a manobra náutica então conhecida como volta do mar, empregada para evitar as correntes marítimas que empurravam para o norte as embarcações que navegassem junto à costa sudoeste africana, e permitindo a ultrapassagem do cabo da Boa Esperança. Nos anos que se seguiram Portugal prosseguiu no seu projecto de alcançar a Índia, o que foi finalmente alcançado pela frota de Vasco da Gama, na sua primeira viagem de 1497-1499.


Com a expedição de Pedro Álvares Cabral à Índia (vogando, intencionalmente e não por ignorância como sucedera a Colombo) a costa do Brasil foi atingida (Abril de 1500) pelos Portugueses, o que séculos mais tarde viria a abrir uma polémica historiográfica acerca do "acaso" ou da "intencionalidade" da descoberta. Observe-se que uma das testemunhas que assinaram o Tratado de Tordesilhas, por Portugal, foi Duarte Pacheco Pereira, um dos nomes ligados a um suposto descobrimento a exploração americana (o ouro castelhano e o pau-brasil português), outras potências marítimas europeias (França, Inglaterra, Países Baixos) passaram a questionar a exclusividade da partilha do mundo entre as nações ibéricas. Esse questionamento foi muito apropriadamente expresso por Francisco I de França, que ironicamente pediu para ver a cláusula no testamento de Adão que legitimava essa divisão de terras.

Por essa razão, desde cedo apareceram na costa do Brasil embarcações que promoviam o comércio clandestino, procediam ao saque das naus e promoveram a pirataria.

Posteriormente, durante a Dinastia Filipina (União Ibérica), os portugueses expandiram-se de tal forma na América do Sul que, em 1680, visando o comércio com a bacia do rio da Prata e a região andina, fundaram um estabelecimento à margem esquerda do Prata, em frente a Buenos Aires: a Colónia do Sacramento (já falada nestas páginas: “Colónia do Santíssimo Sacramento”). A fixação portuguesa em território oficialmente espanhol gerou um longo período de conflitos armados, conduzindo à negociação do Tratado de Madrid (1750).


Voltando à posterior (em relação a Tordesilhas) questão das Molucas, João III de Portugal e o imperador Carlos I de Espanha acordaram então não enviar mais ninguém buscar cravo ou outras especiarias às Molucas enquanto não se esclarecesse em que hemisfério elas se encontravam.

Para a realização dos cálculos da posição, cada Coroa nomeou três astrónomos, três pilotos e três matemáticos, que se reuniram entre Badajoz e Elvas. Estes profissionais, entretanto, não chegaram a acordo, uma vez que, devido à insuficiência dos meios da época no tocante ao cálculo da longitude, cada grupo atribuía as ilhas aos respectivos soberanos.

O Tratado de Tordesilhas serviu como base para as negociações da Junta de Badajoz-Elvas (1524), quando Portugal e Espanha negociaram sobre as Molucas e as Filipinas, originalmente situadas na órbita portuguesa, consideradas castelhanas, em troca das pretensões portuguesas sobre a bacia do rio da Prata, no Brasil.

Para solucionar esta nova disputa, celebrou-se o Tratado de Saragoça a 22 de abril de 1529. Este definiu a continuação do meridiano de Tordesilhas no hemisfério oposto, a 297,5 léguas do leste das ilhas Molucas, cedidas pela Espanha mediante o pagamento, por Portugal, de 350.000 ducados de ouro. Ressalvava-se que em todo o seu tempo se o imperador ou sucessores quisessem restituir aquela avultada quantia, ficaria desfeita a venda e cada um "ficará com o direito e a acção que agora tem".

Tal nunca sucedeu, entre outras razões, porque o imperador necessitava do dinheiro português para financiar a luta contra Francisco I de França e a Liga de Cognac, que o suportava.

(fontes: diversas, na Internet, designadamente na Wikipédia. Mas trago notas várias colhidas noutros locais)



 

quarta-feira, abril 20, 2011

MEMÓRIA DO TEMPO QUE PASSA

Recordo:



Este é o espaço em que,

habitualmente,

faço algumas incursões pelo mundo da História.

Recordo factos,
revejo acontecimentos,
visito ou revisito lugares,
encontro ou reencontro personalidades.
Relembro datas que são de boa recordação, umas;
outras, de má memória.
Mas é de todos estes eventos e personagens que a História é feita.
Aqui,
as datas são o pretexto para este mergulho no passado.
Que, por vezes,
ajudam a melhor entender o presente
e a prevenir o futuro.



ESTAMOS NA QUARTA-FEIRA DIA 20 DE ABRIL DE 2011 (MMXI) DO CALENDÁRIO GREGORIANO


Que corresponde ao

Ano de 2764 Ab Urbe Condita (da fundação de Roma)
Ano 4707 a 4708 do calendário chinês
Ano 5771 a 5772 do calendário hebraico
Ano 1432 a 1433 do calendário islâmico

Mais:

DE ACORDO COM A TRADIÇÃO, COM O CALENDÁRIO DA ONU OU COM A AGENDA DA UNESCO:

De 2003 a 2012 - Década da Alfabetização: Educação para Todos.
de 2005 a 2014 - Década das Nações Unidas para a Educação do Desenvolvimento Sustentável.
de 2005 a 2015 - Década Internacional "Água para a Vida".


Por outro lado
2011 é o ANO EUROPEU DO VOLUNTARIADO
e
é, também, o ANO INTERNACIONAL DA QUÍMICA

Além disso

hoje é DIA DO TURISTA
como é DIA DA COMUNIDADE LUSO-BRASILEIRA

.


.
Efeméride cuja comemoração sublinho nesta data:

foi há 505 anos, na Segunda-feira 20.04.1506 (de acordo com o actual calendário): verificou-se o massacre de cristãos-novos de Lisboa. Em Portugal reinava D. Manuel I (14º rei de Portugal) e na Igreja pontificava Júlio II (216º pontífice romano).


O episódio é relatado por essa grande figura do renascimento em Portugal, pelo historiador e humanista Damião de Góis, na Crónica de D. Manuel. A perseguição acaba por atingir “cristãos e não cristãos”. Morrem muitas centenas de pessoas.


Damião de Góis (1502-1574), «de mente enciclopédica, foi um dos espíritos mais críticos da sua época, verdadeiro traço de união entre Portugal e a Europa culta do século XVI.»

De entre as suas obras destaque para “Urbis Olisiponis descriptio” (Évora, 1554; Frankfurt, 1603; Coimbra, 1791), e “Crónica do Felicíssimo Rei D. Manuel” (Lisboa 1566–67) “da qual um crítico disse que é antes um conjunto de excelentes tratados isolados do que uma história com unidade e sentimento das proporções, e obra de um erudito que gosta de narrar os factos da sua experiência própria e directa. Pela parte do estilo bem pouco vale, mas valoriza-se pela atitude crítica, isenta de amplificações patrioteiras, tendo-se celebrizado a sua atitude perante as violências contra os judeus.” E é, ainda, da sua autoria a “Crónica do Principe D. João” (Lisboa, 1567) «narrativa dos factos ocorridos no reinado de D. Afonso V desde o nascimento do seu filho e sucessor, D. João, depois D. João II»


A propósito recordo que «no Inventario dos Livros e Maços e Documentos, elaborado por João Pereira Ramos de Azeredo Coutinho em 1776, são descritos Dezasseis livros de marca grande das Chronicas dos Senhores Reys, todas atribuídas a cronistas régios, nomeadamente Fernão Lopes, Gomes Eanes de Zurara, Rui de Pina, Damião de Góis e Duarte Galvão. (Direcção-Geral dos Arquivos/Torre do Tombo/DGARQ/TT)


No massacre ou "pogrom" de Lisboa de Domingo 19 a Terça 21 de Abril de 1506, «um "cristão-novo" (judeu obrigado a converter-se ao catolicismo sob pena de morte) expressa as suas dúvidas sobre as visões milagrosas na Igreja de S. Domingos em Lisboa. Como consequência, cerca de 4000 judeus, homens, mulheres e crianças, foram massacrados pela população católica, incitados por frades dominicanos. Os judeus foram acusados entre outros "males", de deicídio e de serem a causa da profunda seca que assolava o país. A matança durou três dias.»


A palavra de origem russa Pogrom denomina um ataque violento massivo a pessoas,
com a destruição simultânea do seu ambiente
(casas, negócios, centros religiosos).
Historicamente, o termo tem sido usado para denominar actos massivos
de violência, espontânea ou premeditada,
contra Judeus e outras minorias étnicas da Europa.


«No seguimento deste massacre, do clima de crescente Anti-Semitismo em Portugal e do estabelecimento da Inquisição, (o tribunal da Inquisição entrou em funcionamento em 1540 e perdurou até 1821) muitas famílias judaicas fugiram do país.»


Mas, além de Damião de Góis, também Garcia de Resende e Samuel Usque (este, igualmente judeu) deixaram testemunhos sobre este bárbaro acontecimento.


E, já agora, é altura de recordar que já em 1496 havia sido publicado um Édito de judeus. Aliás, de judeus e mouros.


Assim, « Por pressão dos Reis Católicos, com cuja filha pretendia casar, D. Manuel I publicou, no final do ano de 1496, um decreto que obrigava à expulsão de todos os «hereges», não cristãos (judeus e mouros), num prazo de dez meses, sob pena de lhes serem confiscados os bens e serem condenados à morte.

No entanto, como não pretendia que, de facto, deixassem o reino, permitiu àqueles que quisessem converter-se ao cristianismo permanecer em Portugal. A esses recém-conversos deu-se depois o nome de cristãos-novos. O rei mandou mesmo fazer conversões forçadas, e, desse modo, poucos saíram de Portugal.

A comunidade moura era pouco numerosa e quase toda sujeita à escravatura, mas a comunidade judaica tinha um grande peso económico e cultural no país. Eram um escol de mercadores, banqueiros, médicos, economistas, ourives, entre outras actividades.

A conversão forçada permitiu a D. Manuel I aceder ao pedido dos Reis Católicos, podendo afirmar que já não havia judeus em Portugal. Contudo, a confiscação de bens só seria permitida a partir de 1568. Mas essa integração compulsiva depressa teve resistências: da parte dos judeus, porque muitos mantiveram secretamente a sua antiga crença; da parte dos cristãos, porque os antigos judeus, agora cristãos-novos, concorriam em pé de igualdade com eles e facilmente ocupavam posições cimeiras na sociedade. Geraram-se tensões e ódios que culminaram na introdução do Tribunal da Inquisição.»


Este édito teve como consequência o aumento do número dos criptojudeus (os judeus obrigados a praticarem a sua fé em segredo, por receio de perseguições religiosas, ao mesmo tempo que publicamente praticam outra religião. Na Península Ibérica, onde a cultura judaica é uma cultura autóctone, eram designados por Marranos)

(Fonte:"Góis, Damião de", in Grande enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Lisboa – Rio de Janeiro 1935–60, vol 12, pgs 494–97 e Wikipédia)


Por todos, trago a “memória” deixada, a propósito da passagem do quingentésimo aniversário deste facto e dos que lhe estão associados, pelo historiador e colunista do Público Rui Tavares, na edição desse diário de Sábado 15 de Abril de 2006:

«A matança
RUI TAVARES

Na próxima quarta-feira, dia 19 de Abril, cumprir-se-ão quinhentos anos sobre o dia em que dois frades dominicanos percorreram a Baixa de Lisboa incitando o povo contra os "judeus". Quinta-feira, dia 20 de Abril, terão passado quinhentos anos, quase silenciosos, sobre o massacre de quatro mil lisboetas. Sexta-feira, dia 21 de Abril, fechar-se-ão quinhentos anos sobre a página mais vergonhosa e mais esquecida da história de Lisboa.


Era o ano de 1506 e sofria-se com a seca. O rei Dom Manuel estava em itinerância pelo Ribatejo. Da seca vinha a fome; a fome e a peste matavam; em Lisboa morrera já mais de um cento. O povo devoto reunia-se nas igrejas para pedir o fim daquelas penas. As crónicas relatam pouco mais ou menos o mesmo. Era domingo de Pascoela, uma semana depois da Páscoa. Parece que na Igreja de São Domingos se viu um crucifixo iluminado, que alguns tomaram por milagre. Parece que um homem que ali se encontrava sugeriu que aquela luz era coisa natural, provinda de uma das janelas. Parece que este homem era cristão-novo; foi ali espancado, despedaçado e depois arrastado pelas ruas. Os frades saíram também, proclamando que a culpa da fome e da peste estava em tolerar-se a presença de judaízantes entre os cristãos. Correu a notícia de que quem matasse os "judeus" da cidade teria cem dias de absolvição dos seus pecados.

No blogue do jornalista Nuno Guerreiro
lançou-se a ideia de ir ao Rossio,
no dia 19 de Abril,
acender quatro mil velas
em memória das vítimas.
Eu vou estar lá.
É o mínimo que se pode fazer.
De facto, seria maravilhoso se a nossa história
fosse sobrenaturalmente isenta
de episódios trágicos como este


Nos dias 19, 20 e 21 de Abril de 1506 chacinaram-se mais de quatro mil lisboetas. Não parou a seca, nem a peste.


Oficialmente já não havia judeus em Portugal. Tinham sido convertidos à força uma década antes, dando origem ao nascimento da categoria de "cristãos-novos" de que se suspeitava que "judaízassem" às escondidas, em casa. Eram os "mal baptizados", como lhes chamava o lisboeta Samuel Usque, nascido pouco antes do massacre, judeu português que (ao contrário do que sucedera durante séculos) só pôde continuar a ser judeu e português fugindo para o estrangeiro.


O escritor e cronista Garcia de Resende, que viveu durante os reinados de D. Afonso V, D. João II, D. Manuel e D. João III, foi contemporâneo dessa fase crucial em que Portugal deixou de ser um reino multirreligioso. Conta como no reinado de D. João II os judeus e mouros participavam da vida da comunidade, por exemplo organizando festas quando havia boda real: "Sempre nas festas reais / festa de mouros havia / tão bem feita se fazia / que não podia ser mais." Com palavras de cristão devoto, aprova a conversão forçada dos judeus e a expulsão quase completa dos muçulmanos portugueses: "Os judeus vi cá tornados / todos num tempo cristãos / os mouros então lançados / fora do reino passados / e o reino sem pagãos." E horrorizado descreve a matança de Lisboa, menos de dez anos depois: "Mais de quatro mil mataram / dos que houveram às mãos / uns deles vivos queimaram / meninos despedaçaram."


Para quê comemorar a matança de Lisboa?


Há uma história multiétnica e multirreligiosa de Portugal que os portugueses não conhecem. Para o mal e para o bem: poucos sabem que houve em Lisboa a matança de 1506, como poucos sabem que era em Lisboa o maior bairro negro da Europa, o Mocambo, que se estendia para lá dos olivais de São Bento em direcção aos actuais bairros da Madragoa, da Lapa e de Santos-o-Velho.


Comemorar não é festejar; é "lembrar em conjunto". Há poucos anos acabou o ciclo das comemorações dos Descobrimentos e parece que o país ficou sem história para recordar. Entretanto, já passaram os 250 anos do Grande Terramoto, lamentavelmente desaproveitados no seu potencial pedagógico e preventivo. E agora? Passarão vergonhosamente esquecidos os 500 anos daquela que foi, na história de Lisboa, a pior manifestação de violência colectiva em tempo de paz?


No blogue do jornalista Nuno Guerreiro (http://ruadajudiaria.com, cuja consulta recomendo para mais informações sobre a matança de 1506) lançou-se a ideia de ir ao Rossio, no dia 19 de Abril, acender quatro mil velas em memória das vítimas. Eu vou estar lá. É o mínimo que se pode fazer, e mesmo assim houve na blogosfera quem reagisse com desconforto. De facto, seria maravilhoso se a nossa história fosse sobrenaturalmente isenta de episódios trágicos como este. Não é. Estavam antepassados nossos entre os assassinos e entre as vítimas; isso deveria bastar-nos.


Amanhã é Domingo de Páscoa. Os jornais vão assinalar o facto, o cardeal-patriarca vai rezar missa; as televisões não vão parar de transmitir filmes sobre um homem morto há dois mil anos.


Para sermos inteiros, convinha que não esquecêssemos outros quatro mil, assassinados cruel e estupidamente em seu nome, há quinhentos anos. Historiador

quarta-feira, março 16, 2011

MEMÓRIA DO TEMPO QUE PASSA

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Recordo:

Este é o espaço em que,
habitualmente,
faço algumas incursões pelo mundo da História.
Recordo factos,
revejo acontecimentos,
visito ou revisito lugares,
encontro ou reencontro personalidades.
Relembro datas que são de boa recordação, umas;
outras, de má memória.
Mas é de todos estes eventos e personagens que a História é feita.
Aqui,
as datas são o pretexto para este mergulho no passado.
Que, por vezes,
ajudam a melhor entender o presente
e a prevenir o futuro.
.
.

ESTAMOS NA QUARTA-FEIRA DIA 16 DE MARÇO DE 2011 (MMXI) DO CALENDÁRIO GREGORIANO

Que corresponde ao
Ano de 2764 Ab Urbe Condita (da fundação de Roma)
Ano 4707 a 4708 do calendário chinês
Ano 5771 a 5772 do calendário hebraico
Ano 1432 a 1433 do calendário islâmico

Mais:
DE ACORDO COM A TRADIÇÃO, COM O CALENDÁRIO DA ONU OU COM A AGENDA DA UNESCO:
De 2003 a 2012 - Década da Alfabetização: Educação para Todos.
de 2005 a 2014 - Década das Nações Unidas para a Educação do Desenvolvimento Sustentável.
de 2005 a 2015 - Década Internacional "Água para a Vida".

Por outro lado
2011 é o ANO EUROPEU DO VOLUNTARIADO

e

é, também, o ANO INTERNACIONAL DA QUÍMICA

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Alguns dos eventos que hoje se comemoram

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Foi há 37 anos (1974), um SB: tentativa frustrada de golpe militar, desencadeado por uma coluna que saiu do Regimento de Infantaria das Caldas da Rainha, sob o comando do capitão Armando Marques Ramos, e que foi neutralizada pelas forças governamentais. Américo Tomás era o PR. Marcelo Caetano o PM. Paulo VI (262º), o papa reinante.


A primeira reunião do embrionário movimento que havia de derrubar a ditadura deu-se em Bissau na TR dia 21 de Agosto de 1973.
Menos de três semanas (20 dias) depois, e já em Portugal, numa reunião de oficiais das Forças Armadas, realizada no DM dia 9 de Setembro de 1973, certo que a partir dum pretexto reivindicativo de carácter corporativista, nasceu o Movimento de Capitães, embrião do MFA, com a assinatura de 400 oficiais do quadro no activo.
Ao cabo e ao resto o que se pretendia, mesmo, era dar o safanão final que deitasse por terra um regime em ruínas, contrariando as teses integracionistas da direita radical do que se autodenominou Congresso dos Combatentes do Ultramar. (Passe a blague: a única e mais importante coisa com que aquele congresso se não preocupou foi com as suas vítimas: os “ultramados”, quer entre a população indígena, quer entre a população branca!)

Um toque dos exageros em que a direita mais radical se envolveu e do desnorte cada vez mais evidente do Governo está no ataque da população branca da Beira (Moçambique) aos militares aí estacionados em Janeiro de 1974.

De realçar é o tão curto lapso de tempo decorrido entre o despoletar da magna ideia (o derrube do regime, nos tais idos de Agosto de 73) e a execução do golpe, (na festiva QI 25.04.74): cerca de oito meses, apenas, depois. Mas oito meses de muita discussão, de alguns sacrifícios, de muito risco, de grande e impressionante amadurecimento de tão responsável e histórica decisão.

Passemos uma sintética vista de olhos pelos acontecimentos que, nesse ano de 74, precederam o glorioso dia 25 de Abril, onde se falará, como é evidente, com mais algum desenvolvimento, da data que hoje se comemora:
- SX 22.02.74: ia a gestação do fenómeno com seis meses decorridos e é publicado o livro de Spínola, “Portugal e o Futuro”que, conquanto não envolvesse qualquer arrojado projecto foi o suficiente para abanar o regime, particularmente o seu líder, Marcelo Caetano.
- 12 dias depois, na TR 05.03.74, numa reunião de cerca de 200 oficiais dos três ramos das Forças Armadas, em Cascais, no atelier do arq. Braula Reis, é pela primeira vez abordada a possibilidade do fim da guerra colonial e o estabelecimento de um regime democrático, mediante o derrube da ditadura. Nessa reunião é aprovado o documento programático «O "Movimento" das Forças Armadas e a Nação», apresentado pelo Major Melo Antunes.
Outra novidade dessa reunião de Cascais é a participação, pela primeira vez, de ex-oficiais milicianos que aderiram ao Movimento.
- decorridos três dias, na SX 08.03.74, e na sequência da reunião de Cascais (não esqueçamos que a PIDE já estava a par do que se passava, embora eu creia que não muito profundamente) algumas das figuras de proa do Movimento são transferidas pelo Governo, com o óbvio objectivo de enfraquecer o Movimento: os capitães Vasco Lourenço e Carlos Clemente para os Açores, Antero Ribeiro da Silva para a Madeira e David Martelo para Bragança. Dois apontamentos de curiosidade: o Capitão Clemente é levado à força para o aeroporto, mas elementos do Movimento conseguem raptar e esconder os capitães Vasco Lourenço e Ribeiro da Silva.
No dia imediato,
- SB 09.03.74, os Capitães Vasco Lourenço e Ribeiro da Silva decidem apresentar-se no Quartel-general da Região Militar de Lisboa, na companhia do Capitão Pinto Soares: são os três detidos e enviados para a Casa de Reclusão Militar da Trafaria.
- Dois dias depois, na SG 09.03.74, Marcelo Caetano, num golpe de teatro, pede a demissão em carta dirigida a Américo Tomás, como que assumindo responsabilidade pelo livro de Spínola acabado de sair nas bancas. É claro que teve a manifestação de confiança do Presidente que não aceitou a demissão.
Mais: numa encenação própria de qualquer ditadura, três dias depois, na QI 14.03.74, Marcelo recebe Oficiais-generais dos três ramos das Forças Armadas, acção com que se pretendia mostrar ao Mundo (que tanto o contrariava) lealdade e apoio ao Governo; e que, ao fim e ao cabo, tudo estava sob controlo. Marcelo Caetano afirmou em agradecimento, talvez com pouca convicção: «O país está seguro de que conta com as suas Forças Armadas e em todos os escalões destas não poderão restar dúvidas acerca da atitude dos seus comandos»(!). Foi a chamada manifestação da “Brigada do Reumático”.
Mas a essa “chamada” não responderam os então chefe e vice-chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, respectivamente generais Costa Gomes e Spínola. Donde, obviamente,
- a respectiva demissão, no dia imediato, na SX 15.03.74.
A reacção do Movimento (e agora somos chegados ao evento que hoje se comemora) não se fez esperar, e no dia seguinte, no SB 16.03.74 dá-se uma tentativa de golpe militar contra a situação. Mas a que só respondeu o Regimento de Infantaria 5 das Caldas da Rainha, que marcha sobre Lisboa. Há quem afirme ter sido a ala afecta ao General Spínola que, em reacção às demissões e transferências levadas a cabo, levou por diante esta acção de forma precipitada e sem planificação adequada.
Melhor: há, de facto, duas versões sobre esta acção do 16 de Março: «Numa das versões, terá sido uma tentativa de os seguidores do general Spínola assumirem o controlo do Movimento das Forças Armadas, impedindo os capitães de o liderarem e evitando radicalismos com que não concordavam. Noutra versão, teria sido, pelo contrário, uma manobra para afastar os spinolistas.»
Não sei. E até pode acontecer que tudo se deva a uma terceira hipótese…
A verdade é que os capitães do RI 5 tomaram, nessa madrugada, o comando do quartel e decidiram avançar sobre Lisboa, sob o comando do capitão Armando Ramos.
Mas era evidente que o golpe iria falhar, por falta de coordenação ou por outra razão, conduzindo à prisão de 200 militares, de entre os mais envolvidos no Movimento e no derrube do regime.

Relativamente a este assunto as agências noticiosas distribuíram a seguinte nota: «Na madrugada de sexta-feira para sábado, alguns oficiais em serviço no Regimento de Infantaria 5, aquartelado nas Caldas da Rainha, capitaneados por outros que nele se introduziram, insubordinaram-se, prendendo o comandante, o segundo comandante e três majores e fazendo em seguida sair uma Companhia auto transportada que tomou a direcção de Lisboa.
O Governo tinha já conhecimento de que se preparava um movimento de características e finalidades mal definidas, e fácil foi verificar que as tentativas realizadas por alguns elementos para sublevar outras Unidades não tinham tido êxito.
Para interceptar a marcha da coluna vinda das Caldas foram imediatamente colocadas à entrada de Lisboa forças de Artilharia 1, de Cavalaria 7 e da GNR. Ao chegar perto do local onde estas forças estavam dispostas e verificando que na cidade não tinha qualquer apoio, a coluna rebelde inverteu a marcha e regressou ao quartel das Caldas da Rainha, que foi imediatamente cercado por Unidades da Região Militar de Tomar».
“Após terem recebido a intimação para se entregarem, os oficiais insubordinados renderam-se sem resistência, tendo imediatamente o quartel sido ocupado pelas forças fiéis, e restabelecendo-se logo o comando legítimo. Reina a ordem em todo o País».
“O coronel Ferreira da Silva, na altura do golpe o principal instigador da saída dos militares do Regimento de Infantaria 5 (actualmente, Escola de Sargentos das Caldas da Rainha), admitiu ter telefonado para o R15 (Tomar) informando que a sua unidade iria avançar sobre Lisboa, com ou sem outras adesões, provocando a saída precipitada da unidade em direcção a Lisboa.”
Já em Lisboa, foi mesmo um elemento do MFA, o coronel, digo Capitão Monge, quem, percebendo inequivocamente que o golpe iria fracassar (tal o aparato de forças que a aguardavam), foi ao encontro da coluna militar mandando-a dar meia volta e regressar à base. O que aconteceu.

“Ainda quanto ao 16 de Março, Otelo revelou que o major Casanova Ferreira procurou aliciar unidades militares, sobretudo, os pára-quedistas e a Escola Prática de Cavalaria de Santarém. Contudo, estas recusaram participar face à fragilidade do plano. Casanova Ferreira não desarmou, acreditando que, mesmo sem plano, “basta sair uma unidade para saírem todas as outras atrás.”
O adiamento da revolta proposto por Otelo e aceite por Casanova, seria, contudo, contrariado pelo capitão Virgílio Varela que não acatou a ordem de desmobilização. Os militares do RI 5, apesar das dúvidas que os assaltavam, como foi testemunhado nesta conferência, neutralizaram o seu comandante e saíram em direcção a Lisboa. O 16 de Março estava na rua. Uma aparente derrota, mas um excelente ensaio para a grande vitória do mês seguinte.”
Perante o fracasso desta operação ficaram incumbidos o Major Otelo e os capitães Vasco Lourenço e Vítor Alves (uma das mais proeminentes figuras do MFA) da direcção do Movimento e de uma acção convenientemente planificada.
- Oito dias após, no DM 24.03.74, reúne-se pela derradeira e decisiva vez, clandestinamente, a Comissão Coordenadora do MFA, em casa do Capitão Candeias Valente, onde se decide que o golpe militar derrubador do regime se verificasse entre 22 e 29 de Abril seguinte e que o responsável pelo “Plano Geral das Operações” fosse o Major Otelo Saraiva de Carvalho.
- Quatro dias depois, na QI 28.03.74, e manifestando indisfarçável mal estar, Marcelo aparece na RTP fazendo a última “Conversa em Família”, de que deixo uma nota do seu esclarecimento, de que ele sabia que o Mundo o não aceitava, mas em que esperava (?!) que os portugueses acreditassem:

Derradeira Conversa em Família


- Menos de um mês depois, no DM 21.04.74 é aprovada a versão definitiva do Programa do MFA; e
- no dia seguinte, na SG 22.04.74, concluído o "Plano Geral das Operações: Viragem Histórica", as unidades militares afectas ao MFA ficam à espera do início da operação. Por decisão de Otelo é escolhido o Regimento de Engenharia N.º 1 na Pontinha, para instalar o Posto de Comando das operações.
- No dia imediato, TR 23.04.74, “Otelo Saraiva de Carvalho comunica que as operações militares se iniciariam às 03.00h do dia 25 de Abril e entrega, a capitães mensageiros, sobrescritos fechados contendo as instruções para as acções a desencadear na noite de 24 para 25, com a senha "Coragem" e contra-senha "Pela Vitória" e um exemplar do jornal Época, como identificação, para as Unidades participantes.”
- Enfim, na QA 24.04.74, “o jornal República, em breve notícia, chama a atenção dos seus leitores para a emissão do programa "Limite" dessa noite, na Rádio Renascença.”
Na mesma data Otelo Saraiva de Carvalho faz chegar às mãos do General Spínola a “Proclamação ao País do Movimento das Forças Armadas Portuguesas” para ser lido no dia seguinte.
Ainda na QA dia 24.04, pelas 22 horas começam a reunir-se os elementos do MFA no Posto de Comando, instalado no Regimento de Engenharia N.º 1, na Pontinha: os Tenentes-Coronéis Lopes Pires e Garcia dos Santos, os Majores Otelo Saraiva de Carvalho, Sanches Osório e Hugo dos Santos, o Capitão-Tenente Victor Crespo e o Capitão Luís Macedo.
Quase uma hora depois, às 22:55, Os Emissores Associados de Lisboa transmitem a canção "E Depois do Adeus", de Paulo de Carvalho, primeiro sinal do MFA, confirmando que tudo corria bem.
Por fim, às 00:25 da QI 25 de Abril de 1974, a canção "Grândola, Vila Morena", composta e interpretada por Zeca Afonso, era transmitida na Rádio Renascença, a emissora católica portuguesa, como segunda senha de sinalização da Revolução dos Cravos e como sinal para confirmar o desencadeamento, já verificado, das operações da revolução.

Vítor Alves – uma das mais eminentes figuras do MFA foi quem substituiu Otelo Saraiva de Carvalho no comando das Operações no Quartel da Pontinha, cerca das 16 horas do dia da revolução e foi ainda o redactor do primeiro comunicado do MFA, divulgado à população, no 25 de Abril.

(fontes: diversas, designadamente o blog Aventar, CITI/Centro de Investigação para Tecnologias Interactivas, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e um trabalho de “Mapa das Ideias” para a CM de Odivelas)
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Foi há 18 anos (1993), uma TR: morreu em Lisboa, aos 69 anos, Natália Correia (1923-1993), açoreana, poetisa, romancista, ensaísta e pintora. Era Mário Soares o PR. Pontificava João Paulo II (264º).
Foi directora da revista “Vida Mundial”.
Entre outras, refira-se a sua obra “Dimensão Encontrada”, 1º edição, Edição da Autora, 1957. E também “O Sol nas Noites e o Luar nos Dias”, nºs I e II, Edição Projornal, 1ª edição, 1993.
Foi, também, deputada. Pelo PSD.
Natália Correia era um espírito franco, aberto, alegre, nada conservador, liberal. E a propósito trago à colação uma das suas pertinentes e bem-humoradas “intervenções” na Assembleia da República quando se discutia a legalização do aborto. Numa dessas sessões o infeliz deputado do CDS João Morgado teve uma não menos feliz e polémica intervenção ao afirmar que, em abono da sua tese de proibição do aborto, o acto sexual visava apenas a procriação.
Claro que Natália Correia não ia deixar escapar um momento destes sem o pôr em causa e sem o cobrir de ridículo. E, pouco depois, já circulava pelas bancadas da Assembleia, para gáudio de todos, o seguinte

“«O acto sexual é para ter filhos»
- disse ele
Um poema de Natália Correia
a João Morgado (CDS)


«O acto sexual é para ter filhos – disse com toda a boçalidade, o deputado do CDS no debate anteontem sobre a legalização do aborto. A resposta em poema, que ontem fazia rir todas as bancadas parlamentares, veio de Natália Correia. Aqui fica:

«Já que o coito – diz Morgado –
tem como fim cristalino,
preciso e imaculado
fazer menina ou menino;
e cada vez que o varão
sexual petisco manduca,
temos na procriação
prova de que houve truca-truca.
Sendo pai só de um rebento,
lógica é a conclusão
de que o viril instrumento
só usou – parca ração! –
uma vez. E se a função
faz o órgão – diz o ditado –
consumada essa excepção,
Ficou capado o Morgado.»


In Diário de Lisboa, 5 de Abril de 1982”
(e transcrito no II daqueles volumes de “O Sol nas Noites e o Luar nos Dias”, a págs 195)

quarta-feira, março 09, 2011

MEMÓRIA DO TEMPO QUE PASSA

Recordo:

Este é o espaço em que,
habitualmente,
faço algumas incursões pelo mundo da História.
Recordo factos,
revejo acontecimentos,
visito ou revisito lugares,
encontro ou reencontro personalidades.
Relembro datas que são de boa recordação, umas;
outras, de má memória.
Mas é de todos estes eventos e personagens que a História é feita.
Aqui,
as datas são o pretexto para este mergulho no passado.
Que, por vezes,
ajudam a melhor entender o presente
e a prevenir o futuro.
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ESTAMOS NA QUARTA-FEIRA DIA 09 DE MARÇO DE 2011 (MMXI) DO CALENDÁRIO GREGORIANO

Que corresponde ao
Ano de 2764 Ab Urbe Condita (da fundação de Roma)
Ano 4707 a 4708 do calendário chinês
Ano 5771 a 5772 do calendário hebraico
Ano 1432 a 1433 do calendário islâmico

Mais:
DE ACORDO COM A TRADIÇÃO, COM O CALENDÁRIO DA ONU OU COM A AGENDA DA UNESCO:
De 2003 a 2012 - Década da Alfabetização: Educação para Todos.
de 2005 a 2014 - Década das Nações Unidas para a Educação do Desenvolvimento Sustentável.
de 2005 a 2015 - Década Internacional "Água para a Vida".

Por outro lado
2011 é o ANO EUROPEU DO VOLUNTARIADO

e

é, também, o ANO INTERNACIONAL DA QUÍMICA

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Sublinhemos três efemérides que hoje se comemoram:

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Foi há 932 anos (09.03.1074), um DM: O papa Gregório VII (157º na sucessão a contar com S. Pedro), eleito em meados do ano anterior, excomungou todos os padres casados.
Gregório VII fora frade beneditino. Foi, por excelência, o representante das pretensões temporais do papado medieval. Deu os primeiros passos para a codificação da legislação eclesiástica e foi por insistência sua que o celibato dos padres se tornou COSTUME (ao cabo e ao resto nada mais que isso) na Igreja católica.
Portugal, por essa época, ainda não existia. Cerca de onze anos depois, "por notável coincidência, no mesmo dia em que S. Gregório VII agonizava em Salerno, o rei Afonso VI de Leão conquistava aos mouros a cidade de Toledo (25.05.1085)" (Pe Miguel Oliveira, História Eclesiástica, pág 69).
Ora, Afonso VI era não só rei de Leão como também de Castela – donde a designação de Imperador - e foi o pai de D. Teresa (mãe de D. Afonso Henriques), logo, avô do nosso primeiro rei.
E, já agora, esse mesmo Afonso VI era neto de Afonso V, rei de Leão (m. 1027), porque filho de sua filha D. Sancha, que casou com Fernando de Castela (Fernando Magno - que morreu em 1065) e que levou como dote exactamente o reino de Leão.
Portanto, o nosso primeiro monarca, D. Afonso Henriques, era neto de Afonso VI e trineto de Afonso V. Explicando melhor, temos a seguinte ordem genealógica (mais próxima do início da nacionalidade portuguesa): Afonso V » D. Sancha » Afonso VI » D. Teresa » D. Afonso Henriques.
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Decorreram 555 anos, foi a 9 de Março de 1451, uma TR: nasceu Américo Vespúcio, navegador italiano ao serviço da Espanha. Em Portugal reinava D. Afonso V (12º). Na cátedra de Pedro sentava-se Nicolau V (208º).
Américo Vespúcio nasceu no mesmo ano em que se crê que tenha nascido Cristóvão Colombo e um ano antes de ter nascido Leonardo da Vinci.
Seu nome foi dado ao novo continente descoberto por Cristóvão Colombo, a América.
Em 1505, o rei Fernando, o Católico, concedeu-lhe a cidadania castelhana.

Recapitulando a matéria – e porque vem a propósito: Cristóvão Colombo partiu do porto andaluz de Palos, a 3 de Agosto de 1492, com três pequenos navios, o Niña, o Pinta, e o navio almirante, por ele comandado, o Santa Maria, com a intenção de chegar à Índia (que ele pensava atingir rumando a Ocidente, atravessando o Atlântico). Mas a viagem terminaria na América… (A equipa de assessores de D. João II, nesta matéria, é que tinha razão).

«Ao cair a noite de 11 de Outubro
D. Cristóvão pensa ter visto ao longe uma luzinha.
Mas cala, ajoelha-se e reza.
Amanhã será o fim do prazo prometido.
Possa ele ser amparado pelo que seu Anjo da Guarda...
Às duas da madrugada de 12 de Outubro,
mas a lua a cintilar sobre as ondas, do alto da Pinta um gajeiro grita:
- Terra, aleluia, agora é terra, é mesmo terra!
Realmente a palidez de um areal.
Mais ao longe colinas e montes, sombreado.
Trinta e três dias de viagem. Chega a alvorada e desembarcam.
Ajoelham-se na praia. Benzem-se, oram, contrição.
Um povo desnudo e pacífico contempla-os. Os corpos cor do cobre, os olhos rasgados. Não será Cipângu. Não será Catai ainda.
Mas certamente a Ásia, certamente a Índia.
D. Cristóvão aponta, define: - Índios ! São índios !
O Anjo assopra-lhe que tem razão.
(…)
Primeira ilha da Ásia recém descoberta por Ocidente!
Como se chama ? O Anjo assopra e D. Cristóvão dá-lhe o nome de S. Salvador.
Está perto do continente [um novo continente que virá a ser chamado América, porque será Américo Vespúcio o primeiro a divulgar as aventuras que nele viveu – esclarece o autor], sabe disso. Irá pisá-lo mais tarde, numa próxima viagem».
(Excertos de Vidas Lusófonas, Online, de Fernando Correia da Silva)
Índio, indígena ou nativo americano são nomes dados aos habitantes da América antes da chegada dos europeus, e os seus descendentes actuais. O termo "índio" provém do facto de que Cristóvão Colombo, quando chegou à América, estava convencido de que tinha chegado à Índia, haja em vista que o gentílico espanhol para a pessoa nativa da Índia é índio, e dessa maneira chamou os povos indígenas que ali encontrou. Por essa razão também, ainda hoje se refere às ilhas do Caribe como Índias Ocidentais.
Porém, a hipótese mais aceite e verosímil para a sua origem é que os primeiros habitantes da América tenham vindo da Ásia atravessando a pé o Estreito de Bering, no final da idade do gelo, há 12 mil anos.


Vê-se aqui a evolução do trecho de terra que ligava o nordeste asiático às Américas. A teoria mais aceite para a origem dos ancestrais dos povos ameríndios, é a de que eles seriam povos nómadas caçadores-colectores (logo, situando-se, no tempo, entre os 2,5 milhões de anos a.C. e 10 000 a.C.) que atravessaram a pé este trecho que ligava o continente asiático à América e uma vez na América, foram migrando em direcção ao sul. Uma das etnias ameríndias que tem mais parentesco com os povos do nordeste asiático são os esquimós.

Explicitando melhor, até recentemente, a interpretação mais largamente vencedora, baseada nos achados arqueológicos, era de que os primeiros humanos nas Américas teriam vindo numa série de migrações da Sibéria para o Alasca através de uma língua de terra chamada Beríngia, que se formou com a queda do nível dos mares durante a última idade do gelo, entre 24 e 9 mil anos atrás. (Imagem e anotação da Wikipédia)
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Estão decorridos 493 anos (09.03.1513), foi numa QA: Giovanni di Lorenzo de Medicis é eleito papa, escolhendo o nome de Leão X. Em Portugal reinava D. Manuel (14º).

A subida ao trono de D. Manuel I foi um
autêntico caso de pura e rara fortuna
para a qual contribuíram bem diferentes situações:
na realidade nada faria prever que, ao nascer em Alcochete no último de Maio de 1469,
D. Manuel viesse a ser Rei de Portugal.
Vejamos:
A linhagem normal sucessória (digamos assim) que começara no filho primogénito
(porque varão) de D. Duarte, D. Afonso V,
e se transmitira ao filho do Africano, o príncipe perfeito, D. João II,
foi aqui interrompida, por falta de sucessor legítimo.
Efectivamente, D. Afonso V, que ficara viúvo com menos de 24 anos,
morreu 25 anos depois sem ter casado de novo nem ter tido mais filhos.
D. João II teve, de facto um filho, D. Afonso, que morreria,
já casado mas sem filhos, muito novo, em 1491,
num desastre de cavalo na Ribeira de Santarém.
Por outro lado, D. João II morreu também muito novo (com 40 anos)
e tinha apenas uma irmã que seguira a vida religiosa (Santa Joana Princesa).
Ou seja, no momento da sucessão ao trono (Outubro de 1495)
houve necessidade, de recorrer a outra linhagem,
à do segundo filho de D. Duarte, D. Fernando, 2º duque de Viseu que,
porém, também perecera antes daquela data, em 1470.
Assim, seria na descendência de D. Fernando que recairia a herança do trono.
Mas, o mais curioso é que, da sua vasta prole masculina,
todos os filhos de D. Fernando, à excepção do mais novo, D. Manuel
(D. João, D. Diogo, D. Duarte, D. Simão e D. Dinis),
morreram até 1484.
Quem poderia, pois, prever na data do nascimento do duque de Beja
- o mesmo D. Manuel -
que ele, fora da linha normal sucessória
e, mesmo aventando a mais remota hipótese de sucessão da linha secundária,
ocupando um longínquo sétimo lugar, viria a ser rei de Portugal?
Tirando os casos de D. Afonso Henriques e de D. João IV,
D. Manuel viria, mesmo, a ser o único rei que não era filho de rei
(aliás, não contando com D. Sebastião,
que não sendo, também, filho de rei era, contudo, neto
– de D. João III, tal como D. Manuel era neto de D. Duarte –
com uma diferença entre ambos:
é que D. Sebastião sucedeu naturalmente ao avô, enquanto que o Venturoso, não.
Este sucedeu ao primo – e cunhado – D. João II)
- Colecção Reis de Portugal, do Círculo de Leitores, XIV, D Manuel I, de João Paulo Oliveira e Costa,2005, pág 25

Voltando ao fio da meada, curiosamente, quer o papa quer o monarca português morreram em datas muito próximas: Leão X a 01.12.1521, D. Manuel, onze dias depois, a 12.12.
Leão X (217º), era filho de Lourenço de Medicis, o Magnífico. E como sabemos, Lourenço reunia na sua corte uma notável plêiade de artistas, filósofos, humanistas, homens de letras e de ciências, tornando-se o mais generoso dos mecenas.
Os Médicis deram à Igreja 3 papas: o acabado de referir Giovanni L. de Medicis, Leão X (217º), que foi papa de 1513 a 1521; Júlio de Médicis, que adoptou Clemente VII (219º), contemporâneo do nosso rei D. João III, cujo pontificado decorreu de 1523 a 1534; por fim Leão XI (232º), Alexandre Otaviano de Médicis (1535–1605), cujo pontificado – no tempo em que reinava em Portugal Filipe II – apenas durou 26 dias, de 1 a 27 de Abril de 1605. Há, porém, quem considere um quarto papa Médicis, o Papa Pio IV (1559-1565), nascido Giovanni Angelo de Medicis, de pais modestos, que nem pertenceriam ao ramo principal da família, mas que adoptou o seu brasão.

Mas recuemos um pouco: em síntese diremos que Salvestro de Médicis (1331-1388), obscuro ditador de Florença, expulso e desterrado em 1382, assim como Averardo Bicci de Medicis, também pouco abastado, terão sido dois dos fundadores da que se tornaria famosa família de banqueiros de Florença.
João de Bicci de Médicis (1360–1429), filho daquele Averardo, banqueiro, foi quem restaurou a fortuna da família que se tornou a mais rica da Europa, e este é que é geralmente apontado como o fundador da poderosa e famosa família dos Médicis. Mas seu filho, Cosme de Médicis (Cosmo, o Velho (1389–1464), é que costuma ser considerado o fundador da dinastia política dos Médicis.
Poderemos, contudo, recordar outros Médicis renomados que ocuparam vários tronos na Europa, além dos mencionados que passaram pela cadeira pontifícia. Entre os primeiros contam-se Lourenço de Médicis (Lourenço, o Magnífico (1449–1492), governante de Florença durante a Idade de Ouro da Renascença; Cosme I de Médicis (Cosimo I, o Grande: 1519–1574), primeiro Grão-Duque das Toscana; Catarina de Médicis (1519–1589), Rainha de França, mulher de Henrique II; Maria de Médicis (1573–1642), Rainha e Regente de França e Francesco I de Medicis, Grão-Duque da Toscana, filho de Cosimo I, a quem sucedeu como regente em 1564 casou com Joana de Áustria de quem teve 7 filhos. Joana foi a filha mais nova de Fernando I, Sacro Imperador Romano e Ana da Boémia e da Hungria. Pelo casamento, ela era a princesa da Toscana Grande e mais tarde a Grã-Duquesa da Toscana. Uma de suas filhas foi a já mencionada e famosa Maria de Médicis , a segunda mulher do rei Henrique IV de França.


Assim, Médicis é o nome da mais célebre família ducal da república florentina. E recordo que foi principalmente Giovanni (de Bicci) de Médicis (falecido em 1429) – o banqueiro mais rico da Itália - o iniciador da grandeza da família, que deixou aos seus dois filhos - (Cósimo e Lourenço) uma herança de riqueza e honrarias nunca até então igualadas.
Com Cosme de Médicis (Cósimo de Medici: 1389-1464), a quem chamaram “Pai da Pátria”, começou a época gloriosa dos Médicis. E com o neto deste, Lourenço, o Magnífico (1449-1492), Florença atinge o apogeu, quer no poder político, como nas realizações artísticas, nas letras, nas artes plásticas.

Voltando aos papas da família Médicis, no dia 21 do mês anterior (Fevereiro de 1513) finara-se o antecessor de Leão X, o papa Júlio II.
Leão X nasceu em Florença, na família Medici, recordo de novo, (João de Médicis de seu nome, como vimos) em 11.12.1475. "Deram-lhe uma educação brilhante. Desde os sete anos recebera grandes benefícios eclesiásticos e aos 12 anos era cardeal." Por morte de Júlio II foi eleito papa, com apenas 37 anos de idade.
Tomou diversas providências em matéria religiosa.
Foi patrono das artes e das letras.
Em política, lutou pela independência da Itália do domínio estrangeiro.
Manteve relações amistosas com o nosso rei D. Manuel I, por mor dos empreendimentos missionários dos portugueses em África e na Ásia.

De início não se apercebeu de todo o perigo e toda a gravidade que envolvia o movimento de Martinho Lutero. Tentou, mesmo, o diálogo com ele, mas acabou por excomungá-lo, pedindo a Carlos V que o prendesse. Era mais um príncipe esclarecido e magnânimo, do que um homem de Igreja zeloso ou um asceta.

Foi a este papa que D. Manuel I enviou a célebre embaixada, em 1514, chefiada por Tristão da Cunha. E por esse motivo Leão X conferiu ao monarca português a Rosa de Ouro e um chapéu e uma espada benzidos por ele na noite de Natal.
Em 1514 criou o bispado do Funchal.

Em 15.04.1516, uma Terça, beatificou a Rainha Santa Isabel, mulher de D. Dinis, a instâncias de D. Manuel, por breve dessa data e “só para Coimbra e seu bispado”. (A mesma Isabel de Aragão seria canonizada em 25.05.1625, pelo papa Gregório XV (234º), no reinado de Filipe III)

Em 1517 elevou ao cardinalato o infante D. Afonso, que contava apenas 8 anos de idade.
Esmiuçando, porque curioso:
o Infante D. Afonso nasceu em 1509. Era filho de D. Manuel I,
que pretendera fazê-lo nomear cardeal aos 3 anos de idade!
Mas o pedido foi indeferido por inconstitucionalidade:
o concílio de Latrão estipulara que não podia ser “dada catedral a menores de 30 anos”.
D. Manuel I conseguiu, no entanto, que o Infante fosse investido no arcebispado de Braga, ainda criança.
E, pouco depois, tendo enviado ao Papa a famosa embaixada de Tristão da Cunha, em 1514,
com as primícias dos descobrimentos
(até um elefante, como nos recordamos todos, fazia parte dessa luxuriante embaixada)
e testemunho de obediência,
acabou por conseguir que o Papa Leão X elevasse a cardeal o Infante D. Afonso,
aos oito anos, em 1517.
Foi o 10º cardeal português.

Segundo Canaveira, Leão X (217º), para encher o Vaticano das obras de arte que tanto apreciava, abusou das indulgências e dividiu para sempre a "christianitas". Foi ele, e não o monge agostinho de Vitemberga (Martinho Lutero), que ele excomungou através da bula Exsurge, de 15.06.1520), o verdadeiro causador da Reforma protestante.

Voltando à arte, uma curiosidade:
diz-se que o qualificativo gótico/gótica, para designar o estilo ou a arte que nascera e se desenvolvera no Norte da França, teve origem numa comunicação de Rafael ao papa Leão X.
Aí era referida a arte gótica num sentido pejorativo, onde gótica equivalia a bárbara - o que se compreende se nos lembrarmos que se vivia, então, o apogeu da Renascença clássica.

A Leão X sucedeu Adriano VI (218º), que era holandês (em termos actuais) e foi o último papa não italiano até João Paulo II (264º), 456 anos depois, o polaco que o século, recentemente, conheceu como Karol Józef Wojtyła (1920–2005), Sumo Pontífice de 16 de Outubro de 1978 até a sua morte em 2.4.2005 (26 anos), a quem sucedeu o cardeal alemão Ratzinger (1927), o pontífice actual, Bento (ou Benedito) XVI.


Uma última nota:
“Leão X (1513-1521) [...] os registos de sua carreira resumem aquele tempo com todas as suas tendências. Ele tinha recebido o chapéu [cardinalício] do papa Inocêncio VIII, na idade de 13 anos – uma condição entre o papa e seu pai, Lourenço, o poderoso governante de Florença – até então contra os pontífices. Leão X, no seu 1° consistório, deu o chapéu a um neto de Inocêncio VIII, o qual era também seu próprio sobrinho, pois – segundo item do pacto – a irmã de João de Médici (Leão X) se tinha casado com o filho natural deste papa.”
(Fonte: HUGHES, Philip. História da Igreja Católica. Dominus Editora S.A. São Paulo, 1962)
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