segunda-feira, janeiro 23, 2012

MEMÓRIA DO TEMPO QUE PASSA


Como sempre, recordo:

Este é o espaço em que,
habitualmente,
faço algumas incursões pelo mundo da História.
Recordo factos, revejo acontecimentos,
visito ou revisito lugares,
encontro ou reencontro personalidades e lembro datas.
Datas que são de boa recordação, umas;
outras, de má memória.
Mas é de todos estes eventos e personagens que a História é feita.
Aqui,
as datas são o pretexto para este mergulho no passado.
Que, por vezes,
ajudam a melhor entender o presente
e a prevenir o futuro.


DECORRE O 12º ANO DO 3º MILÉNIO
ESTAMOS NA SEGUNDA-FEIRA DIA 23 DE JANEIRO DE 2012 (MMXII) DO CALENDÁRIO GREGORIANO

Que corresponde ao
Ano de 2765 Ab Urbe Condita (da fundação de Roma)
Ano 4708-4709 do calendário chinês
Ano 5772-5773 do calendário hebraico
Ano 1433-1434 da Hégira (calendário islâmico)
Ano 1461 do calendário arménio
Ano 1390-1391 do calendário Persa
e relativamente aos calendários hindus:
- Ano 2067-2068 do calendário Vikram Samvat
- Ano 1934-1935 do calendário Shaka Samvat
- Ano 5113-5114 do calendário Kali Yuga

Mais:
DE ACORDO COM A TRADIÇÃO, COM O CALENDÁRIO DA ONU OU COM A AGENDA DA UNESCO:
De 2003 a 2012 - Década da Alfabetização: Educação para Todos.
de 2005 a 2014 - Década das Nações Unidas para a Educação do Desenvolvimento Sustentável.
de 2005 a 2015 - Década Internacional "Água para a Vida".

Por outro lado
2012 é o
ANO EUROPEU DO ENVELHECIMENTO ACTIVO E DA SOLIDARIEDADE ENTRE GERAÇÕES
ANO INTERNACIONAL DA ENERGIA SUSTENTÁVEL PARA TODOS
ANO INTERNACIONAL DA AGRICULTURA FAMILIAR
ANO INTERNACIONAL DAS COOPERATIVAS


C'est avoir tort que d'avoir raison trop tôt.
("É um erro ter razão cedo de mais")
Mémoires d'Hadrien, pg 88



Marguerite Yourcenar

Decorreram 31 anos depois dessa SX 23.01.1981: a escritora belga, de expressão francesa, naturalizada norte-americana, Marguerite Yourcenar foi admitida na Academia Francesa, sendo a primeira mulher a entrar nesta instituição criada pelo cardeal Richelieu, primeiro-ministro de França durante o reinado de Luís XIII, em 1635.
As suas obras mais conhecidas são Mémoires d´Hadrien (Memórias de Adriano), de 1951, sua obra de maior projecção, sucesso confirmado com L'Œuvre au Noir (A Obra em Negro), de 1968, e Alexis ou o Tratado do Vão Combate, romance publicado em 1929, quando a escritora tinha 26 anos, que fora precedido pela sua estreia, aos 18 anos, em 1921, com O Jardim das Quimeras (Le jardin des chimères).

Aquando da admissão de Marguerite na Academia Francesa, na Bélgica, seu país natal, já era Alberto II que reinava, irmão de Balduíno a quem sucedeu. E primeiro-ministro era Wilfried Martens.
Em França o Presidente da República era Valéry Giscard d'Estaing
Juan Carlos era o monarca reinante em Espanha e presidente do Governo era Adolfo Suárez.
No Reino Unido decorria o já longo reinado de Isabel II e primeiro-ministro era Margaret Thatcher.
Ronald Reagan era o 40º Presidente dos Estados Unidos, desde três dias antes.
Chanceler da Alemanha era Helmut Schmidt do Partido Social-democrata (SPD).
Primeiro-ministro italiano era Arnaldo Forlani.
Na Grécia vivia-se a Terceira República com Geórgios Rállis, da Nova Democracia, à frente do governo.
Em Portugal era Chefe de Estado o general Ramalho Eanes, com Pinto Balsemão na chefia do VII Governo Constitucional.
João Paulo II (264º) era o Papa reinante.


E 1981 foi, ainda, o ano em que:
- Uma vez falecido o ex-primeiro-ministro Sá Carneiro, foi convidado Francisco Pinto Balsemão para formar e dirigir o VII Governo Constitucional, que duraria até 04SET1981 (09JAN);
- Luís Dias Amado, grão-mestre da Maçonaria, morre, em Lisboa, aos 80 anos (22JAN);
- O primeiro-ministro Pinto Balsemão defende a criação de bancos privados em Portugal (31JAN);
- O Ministério dos Transportes dá a conhecer os resultados de um inquérito sobre o acidente de Camarate, em que se diz não ter havido interferência ilícita ou criminosa no bimotor Cessna, onde seguiam Sá Carneiro e Amaro da Costa (02FEV);
- Surge um novo movimento, político-nacionalista, de extrema-direita, intitulado Ordem Nova (23FEV);
- Freitas do Amaral é eleito, por unanimidade, Presidente da União Europeia da Democracia Cristã (03MAR);
- Miguel Torga (pseudónimo de Adolfo Rocha) é galardoado com o Prémio Montaigne, que distingue a sua obra (10MAR);
- Azeredo Perdigão é distinguido com a medalha de ouro Goethe, pelos serviços prestados à cultura (igualmente 10MAR);
- É anunciada a exoneração de Maria de Lurdes Pintasilgo do cargo de representante de Portugal na UNESCO (24MAR).
- São transferidos para a Biblioteca Nacional os chamados “arquivos de Salazar” e de “Marcelo Caetano” (15ABR);
- Simone Weil, presidente do Parlamento Europeu, visita Portugal (16MAI);
- Na cerimónia comemorativa do 25º aniversário da Fundação Calouste Gulbenkian, Ramalho Eanes condecora Azeredo Perdigão com a Ordem Militar de Cristo (21JUL);
- É publicado o Estatuto do Trabalhador Estudante, prvendo um horário especial para estes alunos (21AGO);
- Pinto Balsemão apresentara a sua demissão (04SET81), mas foi reconduzido para constituir e dirigir o VIII Governo Constitucional. Este governo manteve-se em funções de 04SET81 até 09JUN1983. Pinto Balsemão, entretanto, demite-se. Vítor Crespo, na sequência da demissão de Pinto Balsemão do governo, foi indigitado primeiro-ministro pela Aliança Democrática, mas Ramalho Eanes não o aceitou, optando pela dissolução do Parlamento.
- O Arquitecto Sommer Ribeiro é nomeado director do Centro de Arte Moderna da Gulbenkian (11SET).


Marguerite Yourcenar, ou melhor, Marguerite Antoinette Jeanne Marie Ghislaine Cleenewerck de Crayencour (Yourcenar é o anagrama de Crayencourt), aos 77 anos, foi a primeira mulher convidada para a Academia Francesa de Letras, em 1980, tendo ocupado o lugar em Janeiro de 1981. A autora, nascida em Bruxelas, na SG 8 de Junho de 1903, faleceu aos 84 anos, na QI 17 de Dezembro de 1987, nos Estados Unidos, deixando uma marca profunda na literatura de expressão francesa.

Marguerite foi a primeira mulher “a romper definitivamente o «feudo» masculino que sempre dominara aquela instituição”, após uma campanha e apoio activos de Jean d’Ormesson (escritor, membro da Academia e director do "Figaro", nascido em Paris em 1925), que escreveu o discurso de sua admissão.

Durante as suas longas e frequentes viagens Yourcenar encontrou Grace Frick, americana, que se tornaria a sua companheira por mais de 40 anos, até à morte de Frick em 1979.
Por desejar continuar com Grace e fugir da Guerra na Europa, Marguerite foi para os Estados Unidos em 1939 onde passou o resto de sua vida, obtendo a cidadania norte-americana em 1947 e ensinando literatura francesa até 1949.

Os membros da Academia Francesa têm de ter a nacionalidade francesa. Havia, pois, que contornar esse pequeno obstáculo, já Marguerite Yourcenar se tinha tornado americana. No entanto, o Presidente da República Francesa, Valéry Giscard d'Estaing, concedeu-lhe a dupla nacionalidade em 1979.

Em Outubro de 1987, foi-lhe atribuído o Grande Prémio Escritor Europeu do Ano, em Estrasburgo, durante o I Festival Europeu de Escritores.

«Escritora, poetisa, intelectual, viveu a dúvida e a mudança do alvorar do século, dividida entre países, pessoas, condições. Aristocrata de berço, libertou-se nas tabernas parisienses, mas ficou-lhe no sangue a busca da excelência e da perfeição. A paz, encontrou-a nos vagões dos comboios, onde passou dezenas de horas em viagem e onde escreveu largas parcelas dos livros» - relata-nos Luísa Godinho, no Diferencial, jornal dos estudantes do Instituto Superior Técnico. Que prossegue: «perdera a mãe à nascença, o pai aos 26 anos e abandonara os palacetes da aristocracia por uma vida errante de escritora».
É essa errância que a leva à ilha Mount Desert, no Maine, EUA, à sua «mansão estilo inglês, paredes brancas e jardim recheado, onde habitou com Grace, companheira de letras e amante de eleição» - conforme, de novo, o Diferencial.

Margarida nunca frequentou escolas, tendo feito a habitual aprendizagem escolar dos aristocratas, com preceptores e com o pai. Aos oito anos lia Racine, aos dez anos inicia-se no latim, e aos 12 no grego.
A cultura clássica é que lhe restará como base para a vida: sobre ela e a sua vivência é que construirá a sua obra.        

«A guerra fria vai no seu auge e Marguerite não gosta do novo mundo do pós-guerra» - (ainda Diferencial). Decide então o retorno às raízes e passar o Inverno de 1956 no norte de França, mas nem aí o pós-guerra tem outros atractivos e resolve regressar à América a 3 de Outubro.

«Encontrará França de novo doze anos mais tarde, em 1968, esperançada nos movimentos contestatários que eclodirão na capital francesa, com estudantes e intelectuais na linha da frente . Donovan exalta a Inglaterra, ao mesmo tempo que nomes como Jacques Brel, Maxime Leforestier e Georges Brassens simbolizam a revolta das consciências francesas. Um quadro literário que agrada à escritora. Marguerite regressa e é recebida em força» (cit Diferencial) com a atribuição do prémio Femina (um dos mais importantes galardões literários franceses) para «L'oeuvre au Noire» e com a eleição para a academia do seu país natal, a Academia Real Belga.
“O Prémio Femina, criado em 1904, é um dos mais importantes galardões literários franceses e distingue anualmente uma obra de ficção.” O prémio, atribuído, todos os anos, na primeira quarta-feira de Novembro, dias antes de ser conhecido o vencedor do Prémio Goncourt, “foi criado para contrabalançar o Goncourt que, consideravam as suas fundadoras, não tratava equitativamente as escritoras e os escritores. Alegavam que o Goncourt era misógino. Contudo, isto não significa que o Prémio Femina seja apenas atribuído a mulheres, uma vez que ao fim de cem anos tinham sido distinguidos mais homens do que mulheres. Outro objectivo anunciado na fundação do prémio, era o de estreitar as relações de amizade entre as mulheres de Letras.” (Infopédia)
Os últimos vencedores do prémio (Novembro de 2010) foram o francês Patrick Lapeyre (com "La vie est brève et le désir sans fin") e na categoria de melhor romance estrangeiro publicado em França, a finlandesa Sofi Oksanen, de 30 anos (com "Purge").

A título de curiosidade, “Portugal Protocolo criou o Prémio Femina para agraciar as mulheres portuguesas, que se tenham distinguido com mérito, em Portugal ou no estrangeiro, profissionalmente, culturalmente e humanitariamente na sociedade portuguesa.
A atribuição dos prémios às agraciadas é efectuada por uma comissão de honra, constituída exclusivamente por membros masculinos – reconhecendo, assim, o seu valor e excelência na sociedade portuguesa moderna e evoluída, como seus pares de pleno direito.”
(Site Portugal Protocolo)


(Adriano)

Mémoires d´Hadrien (Memórias de Adriano), de 1951 (andava a autora nos 48 anos) sua obra de maior sucesso e que mais a projectou internacionalmente, conquistou o Prémio «Femina Vacaresco», em França (também designado prémio Femina do Verão para obras filosóficas ou de carácter documental, criado pela poetisa Helen Vacaresco): «Memórias de Adriano» «é um hino à existência humana, uma lição de política e humanismo e uma comovente história de um homem só», (também Luísa Godinho, no Diferencial).
Quanto a Mémoires d´Hadrien (Memórias de Adriano), trata-se de um romance da autora, de uma auto-biografia imaginária sobre a vida e a morte do imperador romano Adriano (76-138), que reinou no séc. II, de 117 a 138. Adriano foi, ele próprio, autor de uma auto-biografia que, no entanto, não chegou aos nossos dias.
O livro, escrito no estilo epistolar, já que se trata de uma carta dirigida por Adriano ao seu filho adoptivo e futuro imperador Marco Aurélio, que contava, na altura, dezassete anos, é «um testamento político e cultural impregnado de um humanismo "pagão"».

“Esta obra leva-nos a viajar pelo império de Adriano e quase a entrar no seu próprio pensamento e na sua intimidade”. A escrita faz-se em discurso directo e na primeira pessoa, com o Imperador Adriano divagando pelas suas recordações. Quase passamos a sentir e a viver os seus dias, as suas viagens pelo Império, “os seus sentimentos para com os seus amigos e inimigos, a intrigazinha palaciana da sua corte, os seus pensamentos políticos e filosóficos sobre Roma e os Romanos, sobre os povos da Ásia Menor e do Egipto, sobre os bárbaros do Norte, as suas campanhas militares e sobre o enorme drama da sua paixão pelo jovem Antinoo, maravilhosa, apaixonada, dolorosa, pungente, emocionante” na expressão de Ana Paula Coutinho Mendes, em "Mémoires d'Hadrien - Os interstícios da morte", citada pela Wikipédia.
Segundo Clemente de Alexandria - Clemente de Alexandria ou Tito Flávio Clemente (c. 150-215) escritor e teólogo grego nascido em Atenas -, o relacionamento entre ambos era sexual, comparado ao relacionamento de Zeus com Ganimedes, enquadrando-se a relação no modelo pederástico existente na Grécia Clássica, quatro séculos antes, da qual Adriano era admirador. Hoje diríamos, também ainda, uma relação pedófila.
Nesses tempos estes relacionamentos não provocavam qualquer escândalo ou reparo, ainda que não fizessem parte dos costumes romanos.

A Antínoo, o amado de Adriano, e à história dos dois, desde que se conheceram até à morte inesperada e prematura de Antínoo, dedica Marguerite a parte mais importante da obra, o seu capítulo quarto, na íntegra (dos seis que a integram, incluindo um prólogo e um epílogo).

«Embora conquistada pela América, Marguerite acaba por regressar. O retorno às raízes, entre 1953-58, fá-la descobrir uma Europa em ruínas mas esperançada nas novas instituições internacionais. Nas cidades outrora tensas e expectantes que deixara em 1939, vive-se agora o desanuviamento e a euforia da paz. Marguerite revê Paris, Roma, Bruxelas, visita palacetes e campas familiares, num inevitável reencontro com o passado. Tem cinquenta anos e um passaporte americano, que nem sempre colhe sorrisos nos meios intelectuais parisienses» (remata Luísa Godinho, no mencionado Diferencial)   


Publicou ainda poemas, ensaios (Sous bénéfice d'inventaire/A benefício de inventário), em 1978) e memórias (Archives du Nord/Arquivos do Norte), de 1977, manifestando uma atracção pela Grécia e pelo misticismo oriental patente em trabalhos como Mishima ou La vision du vide/Mishima ou A visão do vazio, em 1981 e Comme l´eau qui coule/Como a água que corre, em 1982.










(Fontes diversas: para além das referidas no texto e alguns artigos da Net, as enciclopédias habituais: Wikipédia, a enciclopédia livre; Biblioteca Universal, a Enciclopédia online da Texto Editores e a Infopédia, a Enciclopédia online da Porto Editora)






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