quinta-feira, maio 18, 2006

AS HIPER-MANIFESTAÇÕES DO «PORTUGAL ‘POUCACHINHO’»


Restam-me poucas dúvidas: temos as estações de televisão, com os directores de informação, os chefes de redacção, as redacções e jornalistas que merecemos.

Alguns dinossauros da política, sobreviveram à hecatombe que (supostamente) os extinguiria… E muitos deles já tiveram as suas crias, e as crias das suas crias, como os seus seguidores e os discípulos dos seus aprendizes…

Com eles ficaram marcas, gostos, aversões, debilidades, preconceitos, incapacidades, hábitos, frivolidades, desejos, imbecilidades, imagens (modelos), irracionalidades, preocupações, ansiedades, aspirações… E montes de tiques e de manifestações, afinal a índole que intelectual, social e ideologicamente os caracterizava.

O que tudo se manifesta em certos meios onde se projectam e que os projectam.

Um canal de televisão, por exemplo. E neste caso.

Cultiva-se o “espírito poucachinho”. A doentia morbidez. A provinciana curiosidade.

Mas muito melhor que eu nos explica o fenómeno, e a herança que ele representa, o atento observador e crítico social que é José Ricardo na sua última crónica: O hiper-funeral

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Nota: para futuras consultas desta crónica, a partir de SX 19.05.06, o link já é outro: http://www.jornaltorrejano.pt/jt514/opiniao.htm#opiniao1

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“OS HOMENS SÃO MULHERES AVARIADAS”?... HOMESSA!...


Trata-se de um mail que recebi.

Subject: Fwd: Artigozinho engraçado



"Os homens são mulheres avariadas" - by Nuno Markl



As invenções geniais nasceram, por mero acaso, de ideias e invenções falhadas...

OS HOMENS SÃO MULHERES AVARIADAS

O que os cientistas descobriram agora é que o cromossoma Y é uma versão degradada, estragada e avariada do cromossoma X. Há umas semanas, uma discreta notícia publicada na inofensiva secção de curiosidades bizarras de uma revista abriu-me os olhos para uma incrível revelação que deveria ter feito a Humanidade parar, para além de, num mundo justo, valer aos autores da descoberta o Prémio Nobel.
A revelação afectou-me de tal maneira que já dissertei sobre ela na rádio, já desenhei um cartoon sobre o inquietante assunto e quando me contactaram da Activa, convidando-me a escrever um artigo, achei que fazia todo o sentido falar sobre isto numa revista feminina.
A verdade é que, perante a revelação de que vos falo, nem sequer a expressão "revista feminina" por oposição a "revista masculina" faz sentido. A verdade é que nós, homens, somos no fim de contas, mulheres avariadas.

Passo a explicar. Dizia a notícia, disfarçada de inofensivo... para jantares de empresa, que cientistas chegaram à conclusão de que os homens estão muito mais sujeitos a apanhar todo o tipo de doenças do que as mulheres, uma vez que as mulheres possuem a famosa combinação de cromossomas XX, enquanto os homens possuem a não menos famosa combinação de cromossomas XY. O que os cientistas descobriram agora é que o cromossoma Y (que, no fundo, é o que faz de nós uns homens - não a tropa) é, no fim de contas, uma versão degradada, estragada e variada do cromossoma X. E que o equilíbrio que as mulheres têm com a dupla XX os homens não têm com o deprimente XY, daí as doenças e o facto de morrermos mais cedo do que elas.

O que está aqui a ser dito é que a norma seria o XX. A Humanidade deveria ser toda XX.

Calhou, no entanto, a algumas criaturas à face deste planeta a infelicidade de ter a combinação não de dois X mas de um X e um Y, essa versão arruinada do X. Aliás, basta olhar para as letras: o que é o Y, senão um X a quem caiu uma das pernas e que tem que se equilibrar precariamente, qual Saci Pererê, num único e frágil suporte?

Para quem ainda não percebeu - e eu ainda não fui suficientemente claro porque estou meio em negação -, o que este estudo nos está a dizer é que era suposto existirem apenas mulheres no mundo. Por um azar, uma corrente de ar, qualquer coisa que correu mal na Criação, um cromossoma X estragou-se. E aparecemos nós: esta anomalia a que se convencionou chamar "homem".

Tenho tonturas ao pensar nisto. Ao pensar que sou uma anomalia. Isto põe em causa séculos e séculos de conceitos que tínhamos como certos.
A ideia que somos o sexo forte. A importância que damos ao nosso pénis. Sendo que somos uma anomalia, à luz destas novas descobertas, a importância do nosso pénis é a mesma de uma borbulha ou de um furúnculo, uma vez que, tudo indica, era suposto termos uma vagina. Isto é uma situação profundamente dramática, pelo que quero apelar às mulheres de Portugal que, perante a bombástica revelação, não a usem contra nós, evitando assim expressões tais como: " Estás a ver?", "Ora toma !" ou "E agora, quem é o sexo forte?".

Mais do que nunca, precisamos de carinho e compreensão. Contamos convosco!

Pronto. Está escrita toda a parte do artigo que é para ser lida pelas mulheres, público-alvo desta revista.
Obrigado pela vossa atenção e passem à frente: há muito bom artigo, nas próximas páginas, à vossa espera, sobre hidratação da pele e dietas. O que se segue é só para os homens. Vão em frente, mulheres. Estejam à vontade. Obrigadíssimo. Até um dia destes. Tchau. Boa viagem.


PARA OS GAJOS:
Malta, isto não são más notícias.
Já se aperceberam bem do potencial desta coisa em termos de auto-vitimização? É lindo! "Não grites comigo, sou uma anomalia".
Estamos safos por uns tempos. Acho eu.


Nuno Markl - criativo, in "ACTIVA" nº 175, Junho 2005

Pois eu não acho – que estejamos safos por uns tempos (como pensa Nuno Markl)

Se o assunto não fosse tão sério, eu não teria senão uma resposta e uma reacção: ora adeus, caro Markl!... Estórias!...

Mas não. Fiquei deprimido. Muito assustado. Acabrunhado. Se não fosse deselegante, diria, à rasca. Se não fosse grosseiro, diria estragado.

Fiquei basto preocupado. Sem saber que pensar. Que fazer.

Fui a correr à Net, às enciclopédias, aos tratados (que todos nós temos em comprimidos). Bati à porta de amigos: sensatos, uns; outros, nem por isso, mas médicos.
Incomodei especialistas.
Incomodei meio mundo (porque o outro não o conheço).
Ninguém me soube explicar o fenómeno.
Ninguém conseguiu acalmar minha ansiedade.

Mas achei que não podia entrar em desespero.

Respirei fundo.

Matutei.

Não desisto de um esclarecimento.
E resolvi: fecho-me num quarto. Corro persianas.

Na escuridão total, isolado do mundo, entregue a mim mesmo, dialogando com o meu outro eu, tentei encontrar o salvador. Quem me pudesse elucidar sobre o assunto. Esclarecer sobre a verdade ou o exagero. Sossegar-me deste trauma, explicar-me os prós e os contras. Apontar-me processos de contornar o problema. Decifrar-me, em linguagem entendível, o que descobriram os cientistas. Se isso é dramático ou não. Confrontar, de vez, o arrazoado de Nuno Markl...

E os olhos cerravam-se-me. A cabeça fervia. A ansiedade crescia. O desassossego cada vez maior: não me ocorria ninguém. Não encontrava a tábua salvadora para este naufrágio em que me sentia.

Não desisti.
Fechei ainda mais os olhos. Pedi a todos em casa que "emigrassem", que me deixassem só.

E insisti.
E mergulhei no mais fundo de mim. à espera de um clique.

Mas ele não surgia.

A angústia crescia.
O desespero tomava cada vez mais conta de mim...

E insisti, de novo.

E voltei a concentrar-me com mais “força”, se possível…

E percorri, de novo, mentalmente o mundo: indagando possíveis eminências na matéria…

Qual quê!

Terrível!

Até que...

EUREKA!!!!!

Uma luzinha acendeu cá dentro!

O tal clique surgiu.

Fiquei eufórico.

Com o quarto na escuridão total, tropecei em tudo, mas precipitei-me para o telefone: tinha encontrado o salvador.
O único expert que me podia esclarecer... Talvez sossegar...
O único de opinião firme e cientificamente consolidada.
O único fiável.

Ligo, exausto mas esperançoso… Mas…

Nuno Rogeiro não estava.

Foi o desaire total.
A desilusão absoluta.

Que só daqui por uns meses estará.
Que está num seminário em Teerão acerca de não sei o "enriquecimento do urânio"; que depois segue para Alhos Vedros para uma conferência sobre esse drama que é a gripe das aves; que de seguida embarca na Portela com destino a Calcutá onde vai dirigir um mestrado sobre "o ecumenismo e as mais recentes teorias de entrosamento das políticas sociais com as novas teses neo-liberais nas comunidades em vias de desenvolvimento"; depois segue para Kioto para participar num debate sobre o ambiente; depois tem agendada a participação, em Moscovo, num congresso sobre "a consequência e os eventuais efeitos resultantes da guerra das estrelas num mundo globalizado"; de seguida uma palestra em Ovar acerca das "consequências das novas políticas marítimas e a desova das ostras"; mais tarde, mas, de imediato, nova conferência, desta vez em Katmandu, versando "a raiz do maoismo e as políticas de incremento dos possíveis equilíbrios socio-económicos nos países centro-asiáticos; a que se se vai seguir a participação, em Vilar de Perdizes, num seminário sobre as medicinas alternativas no tratamento dos calos; voando de novo, a seguir para Chicago, onde vai presidir a um colóquio, na academia militar local sobre "balística interior, balística exterior e a balística terminal, no que respeita aos novos projécteis de médio e longo alcance, tendo em conta a recém-inventada tabela de resistência balística Modulaço", etc, etc, etc.

E eu, desesperado, à espera.
Mas confiante no seu saber, na sua reconfortante palavra.

Aguardo

(E até lá... Seja o que Deus quiser. Que me chamem o que entenderem. Vou fazer ouvidos de mercador)

Desculpem o desabafo.
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O “PARTIDO DO TÁXI” E O REJUVENESCIMENTO


O PP (não me refiro à parte, mas ao todo), tanto quer renovar-se e tornar-se sexy, que daqui a pouco deixa de ser o pequeno clube que é para se transformar, primeiro, num grupo de adolescentes, depois, numa creche.

João Almeida, por mais que procurasse, não lhe vi a chupeta. Vi-o de corpo inteiro e não se vislumbrava o bibe.

Quanto a ser ou não sexy, ainda não ouvi opiniões abalizadas, como as de Alexandra Lencastre ou Merche Romero. E nas revistas da especialidade costumam apresentar gente mais madura e de créditos mais firmados (?) como os maridos ou os namorados da Xandinha ou de outras estrelas da nossa televisão, o Santana Lopes e outros “tios”. Por diferentes motivos, lá vemos, de vez em quando, imagens do amor firme que nem uma rocha da família Cavaco. E a título excepcional moços como o Ronaldo. Mas de João Almeida… Nada.

Para além daquela fotografia do dia em que fez a comunhão solene, mais nenhuma nos mostram os media, do Joãozinho.

Receio bem que, por este andar, a dada altura o PP não encontre mais meninos que encham as suas medidas. Claro que me refiro aos órgãos do partido (sim, que continuo a referir-me ao todo, que não à parte, quando falo do PP).

E se os quiser ainda mais fresquinhos (no luso entendimento, que não no tropical de além mar) oxalá não tenha de ir à maternidades, nessa altura, provavelmente, reduzidas à de Lisboa, Porto e, eventualmente, Faro.

Terão, algum dia, estes pequenos aprendizes de tiranetes, que navegam, de muito novos, em águas de forte ondulação neoliberal, capacidade para conduzir um barco de gente crescida?

As recentes provas dadas não foram de molde a entusiasmar ninguém – a não ser os próprios, como é óbvio.

Como é que certas figuras de antanho (fundação) não haviam de saltar deste comboio em andamento?

Como é que outras (conservadoras sim, mas amadurecidas) ainda aí se mantêm?

Como é possível, por exemplo – entre outros casos – que uma Zezinha NP aí se mantenha? Sim, que não é por ser mulher de quem é – que ela já demonstrou ter a sua própria identidade…

Como há pessoas que, apesar de mais amadurecidas, se não importam de militar em grupelhos!...

Os partidos, geralmente, têm a dimensão e os dirigentes que merecem.

Os aderentes e simpatizantes vão no engodo de certas aparências e de clichés do passado de que só eles têm saudades.

É a história da pescadinha de rabo na boca.

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REVIVESCÊNCIAS FALHADAS


A história de Pereira Coelho – que pretendeu concorrer com Marques Mendes à liderança do PSD – em si não vale nada.

Vale, apenas, pelo que pretende reviver e transpor para a actualidade.

Como tentativa frustrada de uma maquinação que fez a sua época com sucesso.

«A candidatura de José Alberto Pereira Coelho a líder do PSD foi rejeitada pelo conselho de jurisdição nacional do partido, por alegada fraude de assinaturas.»

«Entre as 1899 assinaturas que [Pereira Coelho] apresentara inicialmente só 1165 eram válidas, mas foi concedida ao candidato a hipótese de apresentar no prazo de 72 horas as que faltavam para atingir as 1500 - o que Pereira Coelho fez no passado sábado [29ABR].»

Entre as assinaturas rejeitadas constavam as de militantes falecidos e de outras pessoas que, ou não eram militantes do partido ou não reuniam as condições de eleitores.

Na Terça 2 de Maio, «quando contactado pelo PÚBLICO, o conselho de jurisdição reiterou a existência daquela irregularidade. E salientou que nas novas assinaturas apresentadas, das mais de 300 que faltavam para suprir o número mínimo das 1500 necessárias, "95 por cento eram falsas”».

“Zé Beto”, ou, mais formalmente, Pereira Coelho é capaz de ser jovem demais para ter um conhecimento directo, de ciência feito, desses tempos que ele quis agora reviver. Mas (como na história do Lobo e do Cordeiro, aqui com acertada propriedade), se não foi a sua “memória factual” que aqui presidiu ao processo, foi a de algum seu mentor ideológico, saudosista dos “bons velhos tempos”.

A direita mais retrógrada, obtusa e anquilosada (mais… porque a há menos) é assim: não conhece regras de jogo, só joga com baralhos viciados e com cartas marcadas.

(Foi o que aconteceu, por exemplo, com o tal César das Neves, no célebre “Prós e Contras” de há semanas atrás… Eles clonam-se uns aos outros…).

Pobre Zé Beto: ele desconhecia que mesmo os dirigentes de um partido social-democrata dos tempos modernos já se não compadecem com “espertos” do seu jaez…

Desconhecia (?) , o coitado, que há luz dos códigos de um Estado de Direito, tal procedimento configuara um crime!

Quem o aconselhou – ou onde ele se foi inspirar – esqueceram-se de lhe dizer que os tempos, hoje, são outros…

Mas eles – os tais mentores destes jovens – não dormem. E não deixam de sonhar com a hora da vingança…

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MODELOS DESFASADOS MAS AINDA MODELOS


Em artigo de SB 01ABR último, escrevia, no Público, Margarida Gomes (MG), acerca de um jantar que, no Porto, reuniu apoiantes do Movimento de Intervenção e Cida­dania (MIC), criado na sequência da candidatura de Manuel Alegre à Presidência da República.

O título rezava: «Alegre compara política actual "ao pior dos tempos do salazarismo"».

E no lead, adiantava:

«Ex-candidato ataca relações externas, encerramento de maternidades e nomeações públicas, e incita cidadãos a cometerem "heresias"».

Durante o jantar, o deputado do PS e vice-presidente da Assembleia da República «trouxe para o centro do debate o papel do Estado» – escreve MG.
E continua: «numa altura em que se comemora os 30 anos da Constituição e em que o Executivo de José Sócrates anunciou um vasto pacote de reformas, Manuel Alegre interrogou-se mesmo sobre se "o Estado vai passar à clandestinidade ou se vai privatizar-se a ele próprio". "O Estado não pode capitular, nem dissolver-se. É bom que seja amigo dos empresários. Mas também dos trabalhadores e dos mais desfavorecidos", defendeu, manifestando-se "pessimista em relação à situação portuguesa". Perante este quadro, Alegre incitou os apoiantes a mobilizarem-se no sentido da participação cívica: "Se ficarmos à espera, isto não vai lá."»

Mais adiante, prossegue a jornalista: «assumindo-se como o porta-voz de "algumas heresias", Alegre voltou à candidatura presidencial para sustentar que a sua "candidatura vencedora, pela perspectiva e pelos horizontes que abriu contra as arrogâncias, os fetichismos e os dogmas", continua a ser olhada, pelos seus colegas de bancada, "com algum incómodo". Ale­gre diz que segue em frente e terminou o debate desafiando os cidadãos a come­terem "mais heresias"».

As declarações não terão sido tão “mornas” como a jornalista deu a entender.

Mas uma coisa é certa: a Alegre e seus apoiantes falta aquela caixa de ressonância que em política – hoje – é indispensável…

Verdade que o país não se salva nem se afunda se as maternidades da nossa raia se mantiverem ou forem encerradas… Mas que é verdade que os espanhóis nunca admitiriam a inversa do que cá se planeia… Parece-me não restarem grandes dúvi­das.

Não será uma questão fulcral… Como o não será a do fecho de algumas escolas… Mas estes e outros são preocupantes índices da gravidade do critério que parece preside às reformas socráticas… Tudo sacrificar à perspectiva única e todo-poderosa da Economia!!! (Embora algumas vozes digam que não é tal).

Acho que sim, que temos de responder ao desafio e cometer “mais heresias”…

NOTA A POSTERIORI, MAS EM TEMPO:

Falou-se muito – talvez demais – acerca da problemática do fecho de algumas maternidades.

Acusavam uns (contra) que se tratava de razões puramente economicistas; defendiam outros (pró) que tal política se fundamentava em puras razões técnicas.

Perante uma decisão tomada sem grandes explicações, fácil é que, como por efeito de uma mola, todo o mundo se tivesse insurjido contra a medida.

Para o que muito contribuiu o habitual rastilho “incendiário” de certos jornalistas e de certos meios de comunicação.

Porém…

Porém, tudo parece navegar nas ondas alterosas dos costumados juízos precipitados.

J Vítor Malheiros, por exemplo (Público, TR 09.05.06), ajudou-nos a ponderar e a concluir pelo acerto da medida.

O próprio colégio de especialidade da Ordem dos Médicos se pronunciou sobre a matéria, e favoravelmente à decisão do ministro. Opinião técnica, a desse colégio, obviamente.

O Dr Albino Aroso, esse, hoje, simpático Ansião, mas, como sempre, inteligente, lúcido e competente profissional e cidadão de enorme verticalidade, está em perfeita sintonia com o ministro Correia de Campos nesta matéria.

Dr A. Aroso a quem um dia (em 1952!) o bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes (!!!), encorajou para que continuasse o seu trabalho relacinado com o Planeamento Familiar!...

Dr Albino Aroso que, há muitos, muitos anos, já, não quis acreditar, e se recusou a aceitar, que houvesse mulheres criminalmente condenadas por abortarem!

Dr Albino Aroso que integrara governos de Sá Carneiro e Cavaco, e que só à sua conta, fechou 150 maternidades

O Dr Octávio Cunha - Membro da Comissão Nacional da Saúde Materna e Neonatal e director dos Serviços de Cuidados Intensivos Neonatais e de Pediatria do Hospital-Geral de Santo António, no Porto – afirma tratar-se de “uma medida [o encerramento dos blocos de partos de algumas unidades hospitalares] correcta, urgente e corajosa”.

E, perguntado sobre se “há razões para tanta contestação”, não hesita: “onde falta bom senso sobra a demagogia”.

Será que todos os entendidos na matéria, os acabados de referir e outros, que estão de acordo com a medida do M. da Saúde, têm o cartão de militante do PS, ou, caso contrário, são traidores dos seus partidos?

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NÃO SE TRATA DO DIZ QUE DIZ…


Não embarco com facilidade, em certos coros.

Casos pontuais não me impressionavam excessivamente… Via-os como pequenas gotas, sem expressão. Muitos, nascidos do mal de inveja – que não tenho, não cultivo e não alimento.

Mas, a dada altura, constatei que as gotas formavam caudalosos rios, um mar imenso.

Como constatei que – na generalidade – não se tratava, pela certa, de dor de cotovelo. Era evidente que não – tamanha e variada que era a indignação manifestada.

Alguma da matéria que se segue já a recebi, por email, várias vezes, de diversos remetentes.

Mas agora recebi um mail com um conteúdo mais abrangente, com uma compilação que me fez ficar a matutar…

Confirma-se (tive de me render à manifesta evidência – passe a redundância) de que os SERVIDORES DO ESTADO e DA CAUSA PÚBLICA, mais se servem dela, que a servem!

QUAIS SERVIDORES?!... SÃO SORVEDORES!

De nós… Sabe Deus (todos sabemos, constatamos e sentimos) como nos tratam… Como cuidam dos nossos interesses.

Mas deles… Dos deles… Não se esquecem… (Agora cá!...)

E tratam-se e previnem-se muito bem…

À nossa custa, evidentemente.

É o desaforo!

O escândalo!

A completa, descarada e ignóbil subversão!

Que topete! (diz a velha expressão, recentemente ressuscitada por Freitas do Amaral).

É, então, do seguinte teor o mail recebido.

Assunto: Divulguem para que estes.......saibam que nós não estamos a dormir

ASSIM VAI PORTUGAL ...

Penso que vale a pena ler.

Devagarinho e, não tudo de uma vez.

Pode ser um pouco violento para alguns.

Mais uma afronta aos portugueses!

Leiam até ao fim e divulguem. Isto não pode continuar!!!

Serão os politicos os únicos malandros?

Não, 9 em cada 10 aposentados com mais de 5.000 euros mensais foram juízes!!!!

Lista de Aposentados no ano de 2005 (Janeiro a Novembro)

com pensões de luxo (mas em 2006 a lista continua imparável!): pode ser consultado em: http://www.cga.pt/publicacoes.asp?O=3

Janeiro

Ministério da Justiça

€5380.20 Juiz Desembargador Conselho Superior Magistratura

Março

Ministério da Justiça

€7148.12 Procurador-Geral Adjunto Procuradoria-Geral República

€5380.20 Juiz Desembargador Conselho Superior Magistratura

€5484.41 Juiz Desembargador Conselho Superior Magistratura

€5498.55 Juiz Desembargador Conselho Superior Magistratura

Empresas Públicas e Sociedades Anónimas

€6082.48 Jurista 5 CTT Correios Portugal SA

Abril

Ministério da Justiça

€5498.55 Juiz Desembargador Conselho Superior Magistratura

€5498.55 Juiz Desembargador Conselho Superior Magistratura

€5338.40 Procurador-geral Adjunta Procuradoria-Geral República

Antigos Subscritores

€6193.34 Professor Auxiliar Convidado

Maio

Ministério da Justiça

€5663.51 Juiz Conselheiro Conselho Superior Magistratura

€5498.55 Procurador-Geral Adjunto Procuradoria-Geral República

€5460.37 Juiz Desembargador Conselho Superior Magistratura

€5663.51 Juiz Conselheiro Conselho Superior Magistratura

€5338.40 Procuradora-Geral Adjunta Procuradoria-Geral República

€5663.51 Juiz Conselheiro Conselho Superior Magistratura

Junho

Ministério da Justiça

€5663.51 Juiz Conselheiro Supremo Tribunal Administrativo

€5498.55 Juiz Desembargador Conselho Superior Magistratura

€5498.55 Juiz Desembargador Conselho Superior Magistratura

€5663.51 Juiz Conselheiro Conselho Superior Magistratura

Julho

Ministério da Justiça

€5182.91 Juiz Direito Conselho Superior Magistratura

€5182.91 Procurador República Procuradoria-Geral República

€5307.63 Juiz Desembargador Conselho Superior Magistratura

€5498.55 Procurador-Geral Adjunto Procuradoria-Geral República

Agosto

Ministério da Justiça

€5173.46 Conservador Direcção Geral Registos Notariado

€5173.46 Conservadora Direcção Geral Registos Notariado

€5173.46 Conservador Direcção Geral Registos Notariado

€5173.46 Notário Direcção Geral Registos Notariado

€5173.46 Conservador Direcção Geral Registos Notariado

€5663.51 Juiz Conselheiro Conselho Superior Magistratura

€5663.51 Juiz Conselheiro Conselho Superior Magistratura

€5498.55 Juiz Desembargador Conselho Superior Magistratura

€5043.12 Notária Direcção Geral Registos Notariado

€5173.46 Conservador 1ª Classe Direcção Geral Registos Notariado

€5498.55 Juiz Desembargador Conselho Superior Magistratura

€5498.55 Juiz Desembargador Conselho Superior Magistratura

€5027.65 Conservador Direcção Geral Registos Notariado

€5663.51 Juiz Conselheiro Conselho Superior Magistratura

€5498.55 Juiz Desembargador Conselho Superior Magistratura

€5173.46 Conservador Direcção Geral Registos Notariado

€5498.55 Juiz Desembargador Conselho Superior Magistratura

€5173.46 Notário Direcção Geral Registos Notariado

€5498.55 Juiz Desembargador Conselho Superior Magistratura

€5498.55 Juiz Desembargador Conselho Superior Magistratura

€5159.57 Conservador Direcção Geral Registos Notariado

€5173.46 Notária Direcção Geral Registos Notariado

€5173.46 Ajudante Principal Direcção Geral Registos Notariado

€5498.55 Juiz Desembargador Conselho Superior Magistratura

€ 5173.46 Notário 1ª Classe Direcção Geral Registos Notariado

€5173.46 Notária Direcção Geral Registos Notariado

Setembro

Ministério dos Negócios Estrangeiros

€7284.78 Vice-Cônsul Principal Secretaria-Geral (Quadro Externo)

€6758.68 Vice-Cônsul mdash; Secretaria-Geral (Quadro Externo)

Ministério da Justiça

€5663.51 Juiz Conselheiro mdash; Conselho Superior Magistratura

€5498.55 Juiz Desembargador mdash; Conselho Superior Magistratura

€5498.55 Juiz Desembargador mdash; Conselho Superior Magistratura

Ministério da Educação

€5103.95 Presidente Conselho Nacional Educação

Outubro

Ministério da Justiça

€5498.55 Procurador-Geral Adjunto Procuradoria-Geral República

Novembro

Ministério dos Negócios Estrangeiros

€7327.27 Técnica Especialista Secretaria-Geral (Quadro Externo)

Tribunal de Contas

€5663.51 Presidente

Ministério da Justiça

€5498.55 Juiz Desembargador Conselho Superior Magistratura

€5663.51 Juiz Conselheiro Conselho Superior Magistratura

€5498.55 Juiz Desembargador Conselho Superior Magistratura

€5498.55 Juiz Desembargador Conselho Superior Magistratura

€5498.55 Juiz Desembargador Conselho Superior Magistratura

Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior

€5015.16 Professor Coordenador Inst Superior Engenharia Lisboa

Boas Vidas!!!

Mas nem tudo vai mal nesta nossa República (Pelo menos para alguns)

Com as eleições legislativas de 20/Fevereiro, metade dos 230 deputados não foram reeleitos. Os que saíram regressaram às suas anteriores actividades. Sem, contudo saírem tristes ou cabisbaixos. Quando terminam as funções, os deputados e governantes têm o direito, por Lei (feita e aprovada por eles) a um subsídio que dizem de reintegração:

- um mês de salário (3.449 euros) por cada seis meses de Assembleia ou governo.

Desta maneira um deputado que tenha desempenhado as suas funções durante uma Legislatura recebe seis salários (20.694 euros). Se o tiver sido durante 10 anos, recebe vinte salários ( 68.980 euros).

Feitas as contas aos deputados que saíram, o Erário Público desembolsou mais de 2.500.000 euros.

No entanto, há ainda aqueles que têm direito a subvenções vitalícias ou pensões de reforma (mesmo que não tenham 60 anos). Estas são atribuídas aos titulares de cargos políticos com mais de 12 anos.

Entre os ilustres reformados do Parlamento encontramos figuras como:

Almeida Santos.......................... 4.400, euros;

Medeiros Ferreira....................... 2.800, euros;

Manuela Aguiar.......................... 2.800, euros;

Pedro Roseta............................ .2.800, euros;

Helena Roseta........................... 2.800, euros;

Narana Coissoró……………….. 2.800, euros;

Álvaro Barreto............................ 3.500, euros;

Vieira de Castro......................... 2.800, euros;

Leonor Beleza………………….. 2.200, euros;

Isabel Castro............................. 2.200, euros;

José Leitão................................ 2.400, euros;

Artur Penedos............................ 1.800, euros;

Bagão Félix................................ 1.800, euros.

(Vêem? Tadinhos destes "desconhecidos", que se não fosse esta esmola estavam a comer na Mitra )

Quanto aos ilustres reintegrados, encontramos, por exemplo, os seguintes ex-deputados:

Luís Filipe Pereira . 26.890, euros / 9 anos de serviço;

Paulo Pedroso ........48.000, euros / 7 anos e meio de serviço

David Justino ..........38.000, euros / 5 anos e meio de serviço;

Mª Carmo Romão ... 62.000, euros / 9 anos de serviço;

Luís Nobre Guedes . 62.000, euros / 9 anos e meio de serviço.

A maioria dos outros deputados que não regressaram estiveram lá somente

na última legislatura, isto é, 3 anos, foi o suficiente para terem recebido cerca de 20.000, euros cada .

É ESTA A CLASSE POLÍTICA QUE TEM A LATA DE PEDIR SACRIFÍCIOS AOS PORTUGUESES PARA DEBELAR A CRISE!...

MAS... HÁ MAIS !!!

Apesar de ter apenas 50 anos de idade e de gozar de plena saúde, o socialista Vasco Franco, número dois do PS na Câmara de Lisboa durante as presidências de Jorge Sampaio e de João Soares, está já reformado. A pensão mensal que lhe foi atribuída ascende a 3.035 euros (608 contos), um valor bastante acima do seu vencimento como vereador.

A generosidade estatal decorre da categoria com que foi aposentado – técnico superior de 1ª classe, segundo o «Diário da República» - apesar de as suas habilitações literárias se ficarem pelo antigo Curso Geral do Comércio, equivalente ao actual 9º ano de escolaridade.

A contagem do tempo de serviço de Vasco Franco é outro privilégio raro, num país que pondera elevar a idade de reforma para os 68 anos, para evitar a ruptura da Segurança Social.

O dirigente socialista entrou para os quadros do Ministério da Administração Interna em 1972, e dos 30 anos passados só ali cumpriu sete de dedicação exclusiva; três foram para o serviço militar e os restantes 20 na vereação da Câmara de Lisboa, doze dos quais a tempo inteiro. Vasco Franco diz que é tudo legal e que a lei o autoriza a contar a dobrar 10 dos 12 anos como vereador a tempo inteiro.

Triplicar o salário. Já depois de ter entregue o pedido de reforma, Vasco Franco foi convidado para administrador da Sanest, com um ordenado líquido de 4000 euros mensais (800 contos). Trata-se de uma sociedade de capitais públicos, comparticipada pelas Câmaras da Amadora, Cascais, Oeiras e Sintra e pela empresa Águas de Portugal, que gere o sistema de saneamento da Costa do Estoril. O convite partiu do reeleito presidente da Câmara da Amadora, Joaquim Raposo, cuja mulher é secretária de Vasco Franco na Câmara de Lisboa. O contrato, iniciado em Abril, vigora por um período de 18 meses.

A acumulação de vencimentos foi autorizada pelo Governo mas, nos termos do acordo, o salário de administrador é reduzido em 50% - para 2000 euros - a partir de Julho, mês em que se inicia a reforma, disse ao EXPRESSO Vasco Franco.

Não se ficam, no entanto, por aqui os contributos da fazenda pública para o bolo salarial do dirigente socialista reformado. A somar aos mais de 5000 euros da reforma e do lugar de administrador, Vasco Franco recebe ainda mais 900 euros de outra reforma, por ter sido ferido em combate (!?) em Moçambique já depois do 25 de Abril (????????), e cerca de 250 euros em senhas de presença pela actuação como vereador sem pelouro.

Contas feitas, o novo reformado triplicou o salário que auferia no activo, ganhando agora mais de 1200 contos limpos. Além de carro, motorista, secretária, assessores e telemóvel.

É BOM QUE TODOS SAIBAM COMO SE GOVERNA E QUEM NOS GOVERNA.

MAS HÁ MUITO MAIS...

É FARTAR VILANAGEM!...

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UM MINISTRO DE PORTUGAL, QUAL DOIDONA DENGOSA E DESPUDORADA, FAZ OLHINHOS À ESPANHA…


Os titulares dos órgãos de soberania deviam ter mais senso e mais tento na língua.

I. De entre as múltiplas nações que constituem a Península Ibérica, não somos a mais antiga, mas somos a única independente há mais de oito séculos. Todas as mais se congregam na actual Espanha.

A Espanha é uma “definição” recente. Portugal uma realidade multisecular.

Sim, que a Espanha continua a ser mais uma virtualidade que uma certeza – tal a caldeirada de profundamente diversas “nacionalidades” que artificialmente a enformam, algumas que, de autonomia (mais limitada) em autonomia (mais alargada), cada vez menos com ela se conformam e, antes, lutam pela independência definitiva e absoluta.

Enquanto isto, de entre os dois actuais parceiros ibéricos, o que tem raízes de mais profunda e ancestral unidade, através de um dos seus ministros, vai enviando mensagens, contra ventos e marés, à “novata” parceira, de amores recalcados, de juras de fidelidade, de bajulatórias promessas…

Uma tristeza.

De entre tantos… Mais um sinal dos tempos.

Tenho de estar de acordo com Fernando Madrinha quando, acerca do ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações do governo de Sócrates – “o ministro ‘iberista’ – diz: “O cidadão Mário Lino pode ter as opiniões que entenda; o ministro, nem todas”.

Madrinha comentava, no Expresso, com acerto e indignação, as declarações do ministro a um periódico galego.

Uma outra voz indignada (confesso que não me recordo, já, quem) se fez ouvir, comentando: um iberista destes não tem condições para governar um país “cuja existência, no mínimo, discute, e, no máximo, não deseja”.

Claro que, depois, o ministro ensaiou uma desculpa, junto do Independente. Mas que saiu como não podia deixar de ter saído - o mais desastrada (esfarrapada é menos politicamente correcto, mas muito mais expressivo) possível:

tentando impigir-nos que falava de um iberismo na área da sua específica tutela.

Argumento tolo e manco, que não batia certo com as mais expressões utilizadas na declaração proferida na Galiza, em que expressava o seu mais profundo e mais alargado e mais convicto “iberismo”.

Ficou patente que tal declaração pode ter sido tudo – e foi muito – menos não ponderada e precipitada.

Foi declaração tal, que os espanhóis ficaram atónitos, confrontando-se, como diariamente se confrontam, com movimentos separatistas, autonómicos e independentistas, no mosaico confuso que é o seu país.

II. Freitas do Amaral desabafou ao Expresso. E não teve do outro lado, na condução da entrevista, uma jornalista qualquer. Não: teve uma Cândida Pinto, que considero um exemplo de probidade.

O semanário publicou o que Freitas disse. Mas Freitas não gostou. Arrependeu-se do que disse. Freitas, no sossego da sua intimidade, foi confrontado com o ministro, que o alertou para a sua falta de censo, nessa qualidade.

E Freitas, que dera a entrevista como cidadão-ministro, logo, veio, num pulo, como ministro-cidadão dizer que “não sei quê” o contexto, que “não sei quê”… “que não sei que mais”… Que “porém”… “Mas”…. “Não obstante”…

“Ora adeus! Palanfrório!” (atalhou o padre na “Morgadinha…” - e repito eu, agora).

Claro que Freitas, ministro, não devia vir com certas confidências e queixumes, se não queria partilhá-los connosco. (Fez-me lembrar o seu antecessor na cátedra, com “os ciclópicos trabalhos”!...)

Também Freitas do Amaral pecou por falta de senso e de tento.

III. Repito, a propósito, o que dezenas já disseram antes de mim: os titulares dos órgãos de soberania não podem considerar-se o supra-sumo da inteligência, considerando todos os cidadãos do país que representam como uma série de analfabetos, indigentes e mentecaptos.

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"A CENA DO ÓDIO"


Um dia, há muitos anos, em 1976, ouvi Mário Viegas dizer A Cena Do ódio, de Almada, o poeta sensacionista e Narciso do Egipto – como se descrevia e assinava.

Fiquei atónito. Absolutamente vergado ao peso da mensagem acabada de ouvir.

Impressionaram-me (autor do poema e seu intérprete) pelo ritmo alucinante, numa cadência intencional de sons, sílabas ou palavras muito semelhantes (aliterações e paronímia), dando largas a um sadismo que, a um só tempo, tudo e todos exalta e arrasa, vícios e virtudes, marginalizados e bem sucedidos, vencedores e derrotados, “religiosos sexualmente frustrados” e peraltas, tanto aristocratas e intelectuais, como gente simples e operários, ou um dos seus “bombos” preferidos, o burguês (“Ó Horror! Os burgueses de Portugal/ têm de pior que os outros/ o serem portugueses!”), tal como os políticos e os jornalistas, as rameiras e as virtuosas damas…

Tudo dum folgo, com uma força estonteante, num poema desbragado, intenso, louco e soberbo, a que Mário Viegas emprestou igual força e muita arte.

Se o poema, em si, tem uma força extraordinária, dito por Mário Viegas ganha ainda uma muito maior força e dimensão.

É vigoroso e extraordinário o poema. É vigorosa, extraordinária, alucinante e inesquecível a prestação de Mário Viegas.

Quis encontrá-lo de novo. Não consegui.

Procurei, mais tarde, e encontrava, apenas, referências esparsas do longuíssimo poema.

Mais tarde, li, finalmente, o poema na sua totalidade.

Mas a minha leitura, o meu ritmo, a minha cadência não me satisfaziam porque não tinha nada a ver com o poema que ouvira dito pelo Mário Viegas. E era esse poema, mas dito daquela forma arrasadora, que eu queria ouvir, de novo.

E desatei à procura dele.

Difícil.

E insisti.

Impossível.

Por mais que procurasse… Não encontrava.

E se procurei!...

Insisti, mas sem resultado.

Eis senão quando… Uns trinta anos volvidos…

… Em boa hora, o Público decidiu trazer-nos de volta a “ Discografia Completa” do Mário Viegas.

Aí, no volume 4, vem o enorme e poderoso poema, dito pelo seu, até hoje, melhor dizedor.

Refastelei-me. Fechei os olhos. Ouvi.

Deliciei-me, de novo.

Na verdade, Mário Viegas

“Dizia poesia

Mas poesia era ouvi-lo dizer”

Mais

“Diz-se que dizia

Como nunca ninguém disse”

Penso também que sim.

Mas partiu (há dez anos) este cavaleiro da liberdade. Este artista de todos os costados.

Prenhe de arte, divulgador de poesia e das principais dramaturgias contemporâneas, seu corpo sucumbiu naquela Segunda-feira 1 de Abril de 1996.

Mas a sua memória é daquelas que não se apagam.

"A minha vida é o Teatro e o Teatro é a minha vida", dizia.

“Era um cómico que levava dentro de si uma tragédia”, escreveu Saramago.

Declamou mais de 200 poemas de Almada Negreiros, Alexandre O'Neill, Pablo Neruda, Ruy Belo, Jorge de Sena, entre tantos e tanttos outros.

Ficaram-me na memória, para além da extraordinária e “asfixiante” “Cena do Ódio”, o não menos empolgante poema “Não, Não Assino, Não Subscrevo…” de Jorge de Sena, de 1976, e o inesquecível “Poema para Galileo” de António Gedeão.

Todos eles agora “ressuscitados”.

Felizmente.

Todos agradecemos.

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"GLOBALIZAÇÃO"


Falo de globalização não no sentido rigoroso que lhe lhe deve ser atribuído: sentido, este, marcadamente ideológico e de cunho neoliberal, traduzido, em síntese, no alargamento, à escala mundial, do espaço do lucro. Concomitantemente, primeiro responsável, ou pelo menos intensificador, da exclusão social. Como é óbvio.

“Subverto-o” – e penso que sigo uma opinião algo generalizada – para com ele significar massificação ou alastramento de um conceito, de um princípio, a sua generalização aos vários espaços geográficos, aos diferentes domínios culturais, às mais diversas comunidades, tornando-os (conceitos, princípios) em dados de conteúdo objectivo, aceitação e prática universal.

Daí que me questione:

para quando a globalização do discernimento do homem em construir a paz sem recurso à guerra?

Para quando a globalização da erradicação da fome e da pobreza do mundo? Para quando a globalização do fim do farisaísmo de se proclamar a justiça social sem se cavar mais fundo o fosso entre ricos e poderosos, pobres e marginalizados?

Para quando a globalização do respeito pela diferença, da responsabilidade, da tolerância, da fraternidade, da solidariedade?

Para quando a globalização da ética?

Para quando a globalização no único sentido que a humanidade – na sua esmagadora maioria – por ela anseia?

Para quando a única globalização que a serena e elevada inteligência do Homem admite?

Para quando?

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AS TORRES


1. Como estamos fartos de saber, nem sempre o que o Expresso diz, se escreve.

Tremenda confusão a do semanário: Cavaco é um professor, não um contínuo (perdão: Auxiliar de Educação) nem um chefe de turma, para denunciar as patifarias da rapaziada.

Posto de parte esse tema (mas que tema!...) para discurso de tão importante data – falo da data da revolução dos cravos, em que o cravo nem sempre esteve presente (por convicção, para muitos; por falta de coragem, para alguns), de que poderia falar Cavaco?

Ou de econonomia, ou de nada.

De economia… Ainda não é a altura (as núpcias ainda não acabaram).

De nada era frustrante.

Vai daí, escolheu o óbvio. E acerca do óbvio sempre ocorrem algumas ideias, sempre se debitam umas palavras.

Falar de inclusão é já um passo andado para enfrentar a exclusão.

E já não há quem tenha coragem de a ignorar. Até o CDS/PP do PP e do TC verteu, a propósito, uma lagrimazita enternecedora!...

Foi a garantia do consenso para o primeiro discurso do novo presidente de TODOS os portugueses.

2. Nesta correria frenética do dia-a-dia nem sempre nos damos conta disso. Mas existe, quer em S. Bento, quer em Belém, uma torre donde se pode disfrutar uma imagem do país.

Da de S. Bento, vê-se um país em tons rosa alaranjados. Vê-se o que se gostaria de ver. O que se gostaria que fosse… Um país plano, sem acidentes “morfológicos”, sem quebras e disparidades “climatéricas”, com “vistas” e “horizontes” tranquilizantes… “imagens” em que o “criador” se conforta e regozija, interiormente, com “a sua obra”…

Parece que não assim, da torre do palácio de Belém.

Desta tem-se uma vista do país profundo e real… A preto e branco… Sem retoques nem gongorismos… Duro e cru.

Surpreendentemente, pouco mais de um mês depois de aí ter entrado

(acompanhado de toda a família

– imagem serôdia, saloia e demagoga, que,

por ser de bacoca “ternurice” e corresponder à mais arreigada “coscuvilhice”,

logo encheu páginas de todas as revistas rosa-pimba)

Cavaco parece ter descoberto que o país não correspondia, afinal, ao seu imaginário.

Cavaco

– que sem hesitações nem hipocrisias –

mostrou ao país que chegaram à suprema magistratura

os velhos senhores

que não “cultivam” o cravo

(uns que o pisam, de raiva;

outros que, simplesmente, o ignoram, o deixam murchar e apodrecer).

Que o detestam.

Para mim, ainda que de mau augúrio, foi corajosa e sincera a atitude.

Mas Cavaco, que da torre de S. Bento recolhera do país certa imagem que o levou a recusar a criação do RMG (Rendimento Mínimo Garantido), agora, e nesta circunstância, de diferente torre e com outra objectiva, não pôs a tónica na crise económica, antes traçou um negro quadro das desigualdades sociais, da cada vez mais preocupante exlusão social.

De todas as reacções ao discurso, desde a mais farisaica (Telmo Correia) à mais encomiástica (M. Mendes) passando pela mais concordante (Sócrates), até às mais atentas, críticas, exigentes e ponderadas (Alegre, Jerónimo e Louçã) subscrevo, sem hesitar, a de Jerónimo de Sousa:

"É um diagnóstico fácil de subscrever. O problema é saber como foi possível chegar aqui, quem foram os responsáveis e corre-se o risco de a culpa morrer solteira. Mas é um discurso pedagógico, deve ser registado este esforço do Presidente. Faltou dizer que esta desigualdade é tanto mais gritante quanto há quem vá somando as mais-valias enquanto aumentam as desigualdades e as injustiças sociais."

Nem mais.

3. Paulo Ferreira, num Editorial do Público, no dia seguinte à efeméride, falou de um “Presidente da República à procura do tom e dos temas certos, enclausurado entre aquilo que se espera que ele diga, aquilo que o próprio não quer nem deve dizer e os temas que lhe são mais estranhos mas que ele sente que tem que começar a abordar, ainda que lhe falte o jeito”.

Por outro lado, Vasco Pulido Valente, mais recentemente, assertou na mouche: o presidente soube escolher o discurso adequado à sua mudez e o conveniente à surdez dos que ouviam no Parlamento: “desde que não se exceda uma vaga generalidade, o Governo e os partidos gostam de se preocupar com o próximo” – concluía o polémico colunista, mas aqui com grande clarividência.

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