quarta-feira, junho 13, 2012

MEMÓRIA DO TEMPO QUE PASSA - III




Fez anteontem 455 anos que morreu D. João III, "numa Sexta-feira, 11 de Junho" de 1557, 3 anos depois de ter morrido o seu último filho sobrevivente - dos 10 que teve -, o infante D. João Manuel [1554] que foi o pai de D. Sebastião - que nem chegou a conhecer. A D. João III sucedeu, pois, o neto, D. Sebastião, nessa altura com cerca de três anos de idade (nasceu a 20.01 daquele ano de 1554). Assim, o reinado do novel rei começou com a regência da rainha viúva D. Catarina, sua avó.
Continuação…

A crueldade e a intolerância de D. João III, a que também conduzia o seu fanatismo religioso, foram bastante prejudiciais ao país. Desejoso de nele implantar o Tribunal do Santo Ofício [sic! Não seria uma heresia a designação? Atendendo à sua acção, a designação é, no mínimo, um absurdo] e nos seus domínios, travou com a cúria romana as mais demoradas negociações, gastando enormes quantias. O fundamento era, apenas, o de salvaguardar a unidade da fé católica no reino.

Assim, em 1531 D. João III encarregou o seu embaixador Braz Neto de solicitar a Clemente VII (219º) uma bula para o estabelecimento da inquisição em Portugal. Ao que o papa respondeu afirmativamente, enviando, em 17.12 do mesmo ano, ao monarca português a bula Cum ad nihil magis, em que nomeava Frei Diogo da Silva comissário da Santa Sé e inquisidor no reino de Portugal e seus domínios. Bula, porém, que foi suspensa pelo breve Nuper Fidei Catholicae, de 17.10.1532.

Bula (Pontifícia) é um instrumento de comunicação de uma decisão do papa cuja importância reside não só no conteúdo e solenidade do documento pontifício, como tal, mas também na apresentação e forma externa do documento, a saber, lacrado com pequena bola (em latim, "bulla") de cera ou metal, em geral, chumbo (sub plumbo).

Já o Breve (pontifício) é um instrumento destinado a comunicar resoluções (pontifícias) com mais rapidez e menos formalismos que as bulas, tendo menores requisitos que estas.

As negociações recomeçaram, chegando ao ponto de o rei ameaçar abandonar a igreja, à semelhança do que fizera Henrique VIII, se o papa não satisfizesse a sua vontade.

Por curiosidade e como contraponto histórico, foi Paulo III (220º) que, em 1538, expediu a bula de excomunhão e deposição de Henrique VIII de Inglaterra. Mas foi no pontificado de Clemente VII que Henrique VIII de Inglaterra se separou da igreja romana, já que o papa lhe recusara licença para se divorciar

Afinal a tenebrosa instituição ficou estabelecida no reino pela bula de Paulo III (220º), Cum ad Nihil Magis, de 23.05.1536, mas não com o rigor que o fanatismo do rei exigia, sendo instituído o horrendo tribunal na sua forma mais completa e definitiva e com duplo estatuto (como tribunal eclesiástico e tribunal da Coroa) pela bula Meditatio cordis, de 11 anos depois, 16 de Julho de 1547, do mesmo papa, data em que também é restabelecida a Nunciatura Apostólica (a embaixada do Vaticano) em Lisboa.

Por sinal, e mera curiosidade, foi naquele ano de 1536 que Calvino fundou o calvinismo e que morreu o célebre humanista holandês Erasmo de Roterdão (Desiderius Erasmus)

No mesmo ano de 1547 é publicada a primeira lista de livros proibidos pelo Tribunal do Santo Ofício

Não sei se se trata de lapso, ou se será mesmo assim: aquela bula, de 23.05.1536, através da qual Paulo III (220º) concedeu, enfim, o estabelecimento da Inquisição no nosso país, tinha o mesmo nome (ou seja, começava pelas mesmas palavras) que a de Clemente VII (219º), de 17.12.1531, com o mesmo objectivo, mas pouco depois (em Outubro do ano seguinte) suspensa. Segundo o autor que aqui se segue nesta matéria, nessas duas datas (17.12.1531, e 23.05.1536) a concessão foi feita através de rescrito que em ambos os casos se designava por bula Cum ad nihil magis. [PMO, p 189]

O apressado e perverso anseio de D. João III foi satisfeito, ainda que com algumas restrições. Mas os abusos que, desde o início, a Inquisição portuguesa praticou, levou-o a suspender as execuções do nosso Santo Ofício. Ao que D. João III respondeu com a expulsão do núncio. Foi Inácio de Loiola que interveio como mediador, para o regresso do núncio. Com quem o nosso monarca, mais papista que o papa, nunca se entendeu.

Se é verdade que durante o reinado de D. Manuel e primeiros anos do de D. João III a nossa gesta expansionista atingia o seu zénite, também é certo que D. João III “não possuiu a clarividência e a flexibilidade políticas necessárias à manutenção do império que ajudou a criar, pelo que foi, ainda, durante o seu reinado, que se iniciou o período de declínio do domínio português sobre os territórios até aí descobertos”, até pelos difíceis problemas que a administração à distância impunha. [BU] Aliás, se D. João III “ficou conhecido por sua religiosidade, piedade [e] preocupação com as artes” também é verdade que o caracterizaram “certa lentidão nas decisões políticas” [Autores]  

Realmente, se, por um lado, D. João III “desenvolveu políticas de reforço das posições portuguesas na Índia, tratando de assegurar o monopólio de especiarias conseguido através do resgate das Molucas durante uma viagem de Fernão de Magalhães”, por outro, “conseguiu igualmente estabelecer contacto com a China e o Japão” e “no seu esforço de expansão comercial, intensificou contactos com as regiões bálticas e renanas.” Porém, teve de sacrificar, abandonando-as, praças marroquinas “(Safim, Azamor, Alcácer Ceguer e Arzila) [por um lado] para maximização do comércio da Índia e exploração das potencialidades do Brasil” [BU], por outro, pelo enorme dispêndio em homens e armas que a sua defesa e manutenção exigiam, sem correspondente proveito, o que se tornou insustentável.
Ainda em matéria de política ultramarina, “como compensação das dificuldades no Oriente e revezes em África, voltou-se D. João III para o Brasil, realizando a primeira tentativa de povoamento e valorização daquele território, primeiro com o sistema de capitanias e depois instituindo um governo geral, com Tomé de Sousa à frente.” [Portal]

Em matéria de política externa é de referir uma fonte que sustenta que em nenhum outro reinado da 2.ª dinastia manteve Portugal uma tão grande actividade diplomática, como no de D. João III, e com a Espanha, de uma maneira intensa. Com a França, de maneira bastante delicada, devido à guerra de corso movida pelos marinheiros franceses aos navios mercantes de Portugal e consequentes represálias por parte da nossa marinha de guerra”, como são de sublinhar “as relações estabelecidas com os países do Báltico e a Polónia, através da feitoria de Antuérpia.” [Portal]

No domínio da política interna a linha absolutista acentua-se nitidamente com D. João III. Este governa apenas com o auxílio do secretário de Estado, António Carneiro e seus dois filhos Francisco e Pêro de Alcáçova Carneiro.” “Todavia, o seu reinado conheceu gravíssimas crises económicas e recorreu-se aos empréstimos externos.” Nele se fez sentir a fome, grassaram algumas epidemias e deu-se um violento terramoto. [Portal]

Na realidade, o reinado d’O Piedoso começou exactamente quando decorria uma grave crise de fome e quando se iniciou um surto de epidemias até 1523, tudo na sequência de maus anos agrícolas.
E também de 1527 há “Notícias de grande pestenença, obrigando D. João III a abandonar Lisboa.” [Graça]
Como há notícia de um violento terramoto em Lisboa, na SX 20.01.1531, que vitimou mortalmente umas 30 000 pessoas, o equivalente, então, a cerca de 2% da população da cidade. Segundo relato de Bernardo Rodrigues, in Anais de Arzila, "guardando a ordem dos anos, direi do seguinte, de trinta um, no principio do qual ouve neste reino de Portugal muito trabalho, por aver nele peste e terremotos, com tremer a terra e caírem casas e edeficios, onde morreo muita jente ; e tal espanto e medo pôs que andávão as jentes espantadas e fora de si, que não ousávão a entrar, nem dormir em povoado, e saíão-se ao campo, onde dormião em choupanas e tendas que pera iso fazíão, e asaz foi isto mais em Lisboa e polo Tejo acima que em outra parte, e em especial em Vila Franca, Povos, Castanheira, Azambuja, até Santarém, e foi este terremoto a vinte de janeiro do ano de trinta um; e, como Noso Senhor é misericordioso, ouve por bem sosegar o tempo." [Wiki: sismo]

A tal ponto se degradou a situação do país que em 1538 é publicada uma lei contra a mendicidade.

Ainda em matéria de política interna, em 1527 é levado a efeito o  “primeiro numeramento da população do reino: cerca de 1,37 milhões de habitantes e 280 mil fogos; Lisboa: 50 a 60 mil habitantes; Porto: 15 mil.” Assim como em 1532 é criada a “Mesa da Consciência e Ordens, com competências, entre outras, de supervisão dos estabelecimentos assistenciais.” [Graça]

Mesa da Consciência e Ordens “foi o nome dado ao tribunal instituído por D. João III em 1532, com a função de tratar de assuntos relativos ao direito e administração dos mestrados das Ordens militares que tinham passado para o reino” [Info: Mesa] e “para a resolução das matérias que tocassem a ‘obrigação de sua consciência’.” [AATT].
“Com reuniões diárias no Paço, em cada dia da semana tratava de diferentes assuntos.” [Info: id].
Na sua globalidade a Mesa “era constituída pelas seguintes repartições: Secretaria da Mesa e Comum das Ordens, Secretaria do Mestrado da Ordem de Cristo, Secretaria do Mestrado da Ordem de Santiago da Espada, Secretaria do Mestrado da Ordem de São Bento de Avis, Contos da Mesa e Contadorias dos Mestrados/Secretaria das Arrematações (ou da Fazenda) e Tombos das Comendas, Chancelaria das Ordens Militares, Juízo Geral das Ordens, Juízo dos Cavaleiros e Executória das dívidas das comendas. [AATT]
“O primeiro Presidente surge em 1544 [reinado de D. João III] e o primeiro regimento em 1558 [já no reinado de D. Sebastião, mas na Regência de sua avó, a rainha viúva D. Catarina], confirmado pelo Papa [Pio IV (224º)] e por D. Sebastião, em 1563 [agora na Regência de seu tio-avô, o cardeal D. Henrique, cunhado de D. Catarina], tendo sido reformulado em 1608 [já sob Filipe II].” [AATT]. Por esta reformulação de 1608 do regimento “determinou-se a existência de escrivães das ditas Ordens (com um livro de atas cada um), um escrivão de Mesa, três deputados e um presidente, devendo os pedidos de conselho e resolução do rei ser registados num livro próprio, após serem lidos em voz alta.”
A Mesa da Consciência e Ordens foi extinta durante o regime liberal, por decreto de D. Pedro IV de 16.08.1833 “com a intenção de aliviar um peso bastante oneroso e facilitar a gestão dos bens públicos. [Info: id]”.

D. João III foi uma figura polémica. Se a minha apreciação pode ser suspeita, já o mesmo se não dirá de autores que consultei, consagrados e insuspeitos, alguns deles. São eles que dizem que “D. João III marca o fim de uma época: a do esplendor das descobertas, em que Portugal encarava o futuro de forma optimista e desafogada. Vinte e três anos após a sua morte, Portugal, em graves dificuldades económicas, passa para as mãos de Espanha. Ao esplendor das conquistas, seguiu-se a dura realidade de as manter”. [Ramos] Como são eles que sustentam que o rei “tem merecido juízos discordantes na sua acção governativa. Para alguns foi um fanático, para outros um hábil monarca. É certo que recebeu o império no seu apogeu e o deixou no descalabro, mas para além da sua acção pessoal que não foi brilhante, havia outras causas mais profundas que, de qualquer maneira, produziriam os mesmos efeitos.” [Portal]
Como são eles que opinam que durante o reinado d’O Piedoso “A má administração e o desejo ambicioso de enriquecer que animava alguns governadores e muitos fidalgos, entregando-se sem rebuço à pirataria e ao roubo, causaram a decadência da Índia, concorrendo também muito a influência dos jesuítas e o estabelecimento do tremendo tribunal da Inquisição.” [Dicionário]



- [AATT]: Associação dos Amigos da Torre do Tombo: Mesa da Consciência e Ordens
- [Anais]: Annaes de El-rei D. João Terceiro, publicados por Alexandre Herculano em 1844, Parte I, Cap. II (apud [Dicionário])
- [Autores]: site PRINCIPAIS AUTORES PORTUGUESES RENASCENTISTAS
- [BU]: Biblioteca ou Enciclopédia Universal, Textos Editores. Entrada: D. João III
- [Dicionário] Portugal / Dicionário Histórico / D. João III / Transcrito por Manuel Amaral na Internet
- [Ditos, pg]:“Ditos portugueses...”  Autor desconhecido; anotado e comentado por José Hermano Saraiva
- [GEPB]: GEPB, designadamente vol 19, págs 18 e 14
- [Graça]: Luís Graça/História da Medicina e da Saúde em Portugal
- [História]: In “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – I” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 22, Junho de 2002 – a partir de “Peregrinação”, versão para português actual e glossário de Maria Alberta Menéres, nota introdutória de Eduardo Prado Coelho, vol. I, Lisboa, Relógio d’Água, 2001; apud Site Peregrinação, Carreira da Índia, por Leonel Vicente
- [Info: João]: Infopédia, a enciclopédia online da Porto Editora: entrada D. João III
- [Info: Mesa]: Infopédia, a enciclopédia online da Porto Editora: entrada: Mesa da Consciência e Ordens
- [Peregrinação]: Peregrinação, Fernão Mendes Pinto, cap. CCXXIII, Edição Expresso, 2004, Livro X, pág 91
- [PMO]: Padre Miguel de Oliveira: História Eclesiástica de Portugal (2ª ed, 1948) p 308.
- [Portal]: O Portal da História / História de Portugal / Reis, Rainhas e Presidentes de Portugal / D. João III; Fontes: Joel Serrão (dir.), Pequeno Dicionário de História de Portugal, Lisboa, Iniciativas Editoriais, 1976 e Joaquim Veríssimo Serrão, História de Portugal, Volume III: O Século de Ouro (1495-1580), Lisboa, Verbo, 1978
- [Ramos]: Victor M. H. Ramos, artigo publicado na Internet
- [Versos] site “Versos de Amor e Morte / Luís Vaz de Camões / Organizadora Nelly Novaes Coelho / Ilustrado por Fido Nesti /S. Paulo. Petropolis 2006”
- [Wiki: peregrinação] : Wikipédia, a enciclopédia livre. Entrada: Peregrinação
- [Wiki: sismo]: Wikipédia, a enciclopédia livre. Entrada: sismo





terça-feira, junho 12, 2012

MEMÓRIA DO TEMPO QUE PASSA - II




Fez ontem 455 anos que morreu D. João III, "numa Sexta-feira, 11 de Junho" de 1557, 3 anos depois de ter morrido o seu último filho sobrevivente - dos 10 que teve -, o infante D. João Manuel [1554] que foi o pai de D. Sebastião - que nem chegou a conhecer. A D. João III sucedeu, pois, o neto, D. Sebastião, nessa altura com cerca de três anos de idade (nasceu a 20.01 daquele ano de 1554). Assim, o reinado do novel rei começou com a regência da rainha viúva D. Catarina, sua avó.
Continuação…


D. Manuel I morreu com 52 anos, na SX 13.12.1521. E D. João III, com 19 anos, foi aclamado numa cerimónia pública na igreja de S. Domingos, 6 dias depois, na QI 19.12.

D. João III e D. Catarina tiveram 9 filhos: Afonso, que morreu ainda criança; Maria Manuela, que foi a primeira mulher de Filipe II de Espanha (I de Portugal) e que morreu de parto; Isabel, que também morreu criança; Beatriz, que morreu ainda bebé de berço; Manuel, que apenas viveu cerca de três anos; Filipe, que morreu com cerca de 6 anos; Dinis, que morreu com cerca de dois anos; João Manuel, que nasceu em 1537 e morreu antes de fazer os 17 anos (casou com 15 anos [1552], com Joana, filha de Carlos V e de D. Isabel, filha de D. Manuel [logo, sobrinha de D. Catarina, e sua - do príncipe - prima direita, de quem teve um filho - D. Sebastião - que viria a nascer em 1554, já depois do pai ter morrido]; por fim, António que também morreu ainda bebé. D. João III teve ainda um filho fora do casamento, também Manuel, mas a quem foi mudado o nome, por causa das confusões com seu outro filho, para Duarte. Este filho natural de D. João III morreu com cerca de 22 anos, quando era arcebispo de Braga e teve, também ele, um filho natural, igualmente chamado Duarte.
Assim, quando D. João III morreu (com 55 anos, completados cinco dias antes) já não era vivo nenhum dos seus 10 filhos. Daí que lhe tenha sucedido o neto: D. Sebastião (que tinha, então 3 anos - donde as regências, primeiro, da avó, D. Catarina de Áustria, e depois do tio-avô, o cardeal D. Henrique). E D. Sebastião era, também, neto - pelo lado materno - de Carlos V (sua mãe era Joana, filha de Carlos V e de D. Isabel, filha de D. Manuel), e sobrinho-neto do mesmo imperador, pelo lado paterno (seu pai era João, filho de D. João III e de uma irmã do imperador, logo sobrinho deste).

“Foi durante o seu reinado que Portugal viveu o período de maior projecção internacional, encontrando-se em pleno apogeu da expansão”. [BU]

Na verdade, quando do passamento de D. Manuel e da aclamação de D. João III, “Portugal estava no apogeu da expansão ultramarina por vários continentes, mas também com problemas de uma grande complexidade.” [Info: João]

D. João III “manteve grandes preocupações ao nível da cultura, promovendo bolsas de estudo no estrangeiro, fundando o Colégio das Artes e transferindo a universidade para Coimbra.” Além de que “financiou, ainda, inúmeros colégios sob a orientação dos jesuítas” [BU], sendo que a Companhia de Jesus foi fundada em 1534, tendo sido aprovada em 1540 pelo papa Paulo III, “e nesse ano entraram em Portugal os primeiros jesuítas, que o fanático monarca acolheu com o maior entusiasmo. E, na verdade “a Companhia de Jesus tomou toda a preponderância que desejava.” [Dicionário]

D. João III assistiu, de facto, a uma notável expansão do renascimento português, no seu reinado. Na literatura destacou-se o poeta (épico) Luís Vaz de Camões, o maior vulto nacional nessa área e um dos mais celebrados mundialmente, como também surgiu Garcia de Resende, Sá de Miranda, Bernardim Ribeiro e João de Barros. Nas ciências náuticas sobressaiu o nome de Pedro Nunes, na botânica Garcia da Orta, na arquitectura Francisco de Holanda, Miguel de Arruda e João de Castilho. Mas outros nomes são igualmente de sublinhar como André de Resende, Damião de Góis, João de Ruão e Fernão Mendes Pinto. Em 1533 Erasmo de Roterdão (1466-1536), que havia dedicado uma sua obra a D. João III, é por este convidado a leccionar em Portugal, na Universidade que se preparava para transferir de Lisboa para Coimbra. O convite só se não concretizou por Erasmo ter morrido no ano anterior àquela transferência, que se realizou em 1537.
Mas O Piedoso, em 1526, havia também atribuído 50 bolsas de estudo para estudantes portugueses poderem frequentar a Universidade de Paris.

«Depois de 1542, Camões veiu frequentar a côrte de D. João III, na qual o beatério extinguira o explendor dos serões do paço, em que a aristocracia portugueza revelara uma extraordinaria cultura (…). O livro dos «Luziadas» tornou-se para os portuguezes o depósito dos germens da sua liberdade, e para Portugal ficou o eterno pregão da historia, o monumento imperecivel do seu passado. Tres gerações passaram, para que a intelligencia portugueza comprehendesse a synthese profunda contida no nome e na obra de Camões “tal é o sentido do jubileo nacional do Centenario de 1880”.» Theophilo Braga [prefácio d'Os Lusíadas duma edição de 1881]. [Site da Internet]




Os Lusíadas estão traduzidos em quase todas a grandes línguas vivas do Mundo. Designadamente em alemão, castelhano,  catalão, inglês (que foi a primeira tradução fora da Península Ibérica), em francês, russo, italiano, chinês, konkani,  dinamarquês e em eslovaco. Além de estarem traduzidos em latim (versão de Frei Tomé de Faria, datada de 1745) e em esperanto. Até em mirandês há uma versão da epopeia.

Camões, nos Lusíadas não refere explicitamente D. João III, mas tem um soneto acerca (da sepultura) do rei:

Quem jaz no grão sepulcro, que descreve
tão ilustres sinais no forte escudo?
- Ninguém; que nisso, enfim, se toma tudo
mas foi quem tudo pôde e tudo teve.

Foi Rei? - Fez tudo quanto a Rei se deve;
pôs na guerra e na paz devido estudo;
mas quão pesado foi ao Mouro rudo
tanto lhe seja agora a terra leve.

Alexandre será? - Ninguém se engane;
que sustentar, mais que adquirir se estima.
- Será Adriano, grão senhor do mundo?

Mais observante foi da Lei de cima.
- É Numa? - Numa, não; mas é Joane:
de Portugal terceiro, sem segundo.

Luis de Camões

“Em versos de grande nobreza, Camões homenageia seu rei, D. João III, morto em 1557. Junto ao seu túmulo, uma voz misteriosa pergunta sobre quem estaria ali no sepulcro ornado de ilustres sinais. Outra voz responde e, num suceder de interrogações e respostas, vai-se compondo uma visão-de-mundo amarga: a de que a morte converte tudo em nada. O poeta sabia que, apesar de sua grandeza, seu rei não perduraria, na memória do mundo, como Adriano, o imperador romano, nem como Alexandre Magno, o maior conquistador da Antiguidade.” [Versos]
Numa, creio tratar-se de Numa Pompílio, segundo rei de Roma, sacerdote, espírito pacífico a quem coube a organização religiosa do Estado [GEPB]

Já quanto ao aventureiro e explorador português Fernão Mendes Pinto e à sua obra, Peregrinação, esta é o diário ou crónica de viagens da literatura portuguesa mais famoso e mais traduzido. Foi publicado em 1614, trinta anos após a morte do autor, pelos prelos de Pedro Craesbeeck (a dinastia de tipógrafos flamengos que trabalhou em Portugal a partir de 1597, quando o país se encontrava sob o domínio dos Filipes)


Obra de conteúdo “picaresco” e “exótico” na qual se combinam a história e a fantasia, sendo por vezes difícil saber onde começa uma e a outra termina, “aliando aspectos autobiográficos e uma ficção verosímil e convincente, Fernão Mendes Pinto oferece-nos uma curiosa reportagem do impacto que tiveram os costumes orientais sobre os europeus da época, assim como um interessante testemunho da acção dos portugueses no Oriente.[Wiki: peregrinação].
Notável [na obra] é também a previsão da derrocada do Império Português, corroído por muitos vícios e abusos. [Wiki: peregrinação]

Mas ouçamos o próprio F. Mendes Pinto:
“Prouve a Nosso Senhor que cheguei a salvamento à cidade de Lisboa, aos vinte e dois de Setembro do ano de 1558, governando então este reino a rainha Dona Catarina, nossa senhora que santa glória haja, a quem dei a carta que lhe trazia do governador da Índia, e lhe relatei por palavras tudo o que me pareceu que fazia a bem do meu negócio.
(…)
E nisto vieram a parar meus serviços de vinte e um anos, nos quais fui treze vezes cativo e dezasseis vendido, por causa dos desventurados sucessos que atrás no decurso desta minha tão longa peregrinação, largamente deixo contados.” [História].

Duas notas acerca desta fala do autor: a) D. João III morrera em 1557, donde a sua referência ao exercício do poder por D. Catarina em 1558; b) as aventuras do autor terão começado em 1537, pois que em 1558 “vieram a parar [os seus] serviços de vinte e um anos” da sua “tão longa peregrinação”.

Assim, toda a acção da narrativa decorre durante o reinado de D. João III, ao qual se refere implicitamente a seguinte passagem do livro quando alude ao “rei de Portugal”: “… A mim me recebeu [o rei do Bungo] com a boca muito cheia de riso, e me perguntou miudamente por muitas particularidades, a que eu respondi acrescentando muitas coisas que me perguntava, por me parecer que era assim necessário à reputação da nação portuguesa, e à conta em que até então naquela terra nos tinham, porque todos [os reis do Oriente] então tinham para si que só o rei de Portugal era o que com verdade se podia chamar monarca do mundo, tanto em terras, como em poder e tesouro, e por esta causa se faz naquela terra tanto caso da nossa amizade.” [Peregrinação]


… continua amanhã, QA 13.06.2012…




segunda-feira, junho 11, 2012

MEMÓRIA DO TEMPO QUE PASSA - I



Como sempre, recordo:

Este é o espaço em que,
habitualmente,
faço algumas incursões pelo mundo da História.
Recordo factos, revejo acontecimentos,
visito ou revisito lugares,
encontro ou reencontro personalidades e lembro datas.
Datas que são de boa recordação, umas;
outras, de má memória.
Mas é de todos estes eventos e personagens que a História é feita.
Aqui,
as datas são o pretexto para este mergulho no passado.
Que, por vezes,
ajudam a melhor entender o presente
e a prevenir o futuro.

DECORRE O 12º ANO DO 3º MILÉNIO
ESTAMOS NA SEGUNDA-FEIRA DIA 11 DE JUNHO DE 2012 (MMXII) DO CALENDÁRIO GREGORIANO

Que corresponde ao
Ano de 2765 Ab Urbe Condita (da fundação de Roma)
Ano 4708-4709 do calendário chinês
Ano 5772-5773 do calendário hebraico
Ano 1433-1434 da Hégira (calendário islâmico)
Ano 1461 do calendário arménio
Ano 1390-1391 do calendário Persa
e relativamente aos calendários hindus:
- Ano 2067-2068 do calendário Vikram Samvat
- Ano 1934-1935 do calendário Shaka Samvat
- Ano 5113-5114 do calendário Kali Yuga

Mais:
DE ACORDO COM A TRADIÇÃO, COM O CALENDÁRIO DA ONU OU COM A AGENDA DA UNESCO:
De 2003 a 2012 - Década da Alfabetização: Educação para Todos.
de 2005 a 2014 - Década das Nações Unidas para a Educação do Desenvolvimento Sustentável.
de 2005 a 2015 - Década Internacional "Água para a Vida".

Por outro lado, 2012 é o
ANO EUROPEU DO ENVELHECIMENTO ACTIVO E DA SOLIDARIEDADE ENTRE GERAÇÕES
ANO INTERNACIONAL DA ENERGIA SUSTENTÁVEL PARA TODOS
ANO INTERNACIONAL DA AGRICULTURA FAMILIAR
ANO INTERNACIONAL DAS COOPERATIVAS
(…)
Foi Rei? - Fez tudo quanto a Rei se deve;
pôs na guerra e na paz devido estudo;
mas quão pesado foi ao Mouro rudo
tanto lhe seja agora a terra leve.
(…)

Parte de um soneto de Camões sobre D. João III

retrato de D. João III, de c. 1545,
óleo de Cristóvão Lopes

Faz hoje 455 anos que morreu D. João III, "numa Sexta-feira, 11 de Junho" de 1557, 3 anos depois de ter morrido o seu último filho sobrevivente - dos 10 que teve -, o infante D. João Manuel [1554] que foi o pai de D. Sebastião - que nem chegou a conhecer. A D. João III sucedeu, pois, o neto, D. Sebastião, nessa altura com cerca de três anos de idade (nasceu a 20.01 daquele ano de 1554). Assim, o reinado do novel rei começou com a regência da rainha viúva D. Catarina, sua avó.

Nessa data reinava em Espanha Joana I, a Louca, terceira filha dos Reis Católicos, Fernando II de Aragão e Isabel I de Castela; foi rainha de Castela (1504-1555) e Aragão (1516-1555) e mãe do imperador Carlos V, da Casa dos Habsburgo, do Sacro Império Romano-Germânico; Joana foi a primeira monarca da Espanha unificada e era da Casa de Trastâmara; devido a sua instabilidade mental, reinou junto com seu filho, Carlos I, até sua morte em 1555. Carlos I de Espanha ou Carlos de Habsburgo (1500-1558) era, portanto, então Rei de Espanha (como Carlos I) e Imperador do Sacro Império Romano (como Carlos V); mas era também Arquiduque de Áustria, Duque de Milão, conde de Flandres, Rei de Nápoles e Sicília como Carlos IV de 1516 a 1555, Príncipe dos Países Baixos de 1516 até abdicar destes tronos em Outubro de 1555. Abdicou em 1556 e passou o governo a seu filho, Filipe II (Filipe I de Portugal), excepto o Sacro Império e suas terras austríacas, que entregou ao irmão Fernando; os pais de Carlos V eram Filipe, “O Belo” ou Filipe I de Castela e a já mencionada Joana I de Castela; Carlos casou com sua prima, Isabel de Portugal, filha de D. Manuel, que era seu tio por afinidade, pois que D. Manuel casou com duas irmãs de sua mãe; e Carlos era ainda neto de Maximiliano I da Germânia ou de Habsburgo. Carlos V dividiu seu Império: deu para seu filho Filipe II (nosso Filipe I, neto de D. Manuel) os Países Baixos, as Coroas de Castela, Aragão, e Sicília e a Borgonha; o Sacro Império foi dado para Fernando I seu irmão mais novo. Reinou na Espanha sozinho depois da morte de sua mãe, Joana I, em 1555.
Rainha de Inglaterra e da Irlanda era Maria I (47), cognominada Bloody Mary (ou a Sanguinária): foi a quinta criança nascida do primeiro casamento de Henrique VIII (44) de Inglaterra com Catarina de Aragão e a única a atingir a idade adulta. Maria não foi a imediata sucessora de seu pai, já que foi seu meio-irmão (irmão consanguíneo), Eduardo VI (45), filho do 3º casamento de seu pai, por ser o único filho varão que ele teve. Por morte deste, que morreu sem herdeiros, e por sua vontade, sucedeu-lhe uma sobrinha-neta de Henrique VIII, Joana I (46) (Joana Grey) cujo reinado, de jure, só durou 9 dias, pois nem foi coroada, sendo destronada, por vontade popular, por Maria I; acabou por ser condenada e executada por traição. Todos eles da Casa dos Tudor.
Henrique II (40) era na altura o rei de França, da Dinastia de Valois-Angoulême. Casou com Catarina de Médicis, sobrinha do Papa Clemente VII (219).
Rei da Itália (22) era Carlos V, o mesmo Carlos de Habsburgo (1500-1558) acima referido.
Sacro-imperador Romano Germânico (31) era ainda o mesmo Carlos V que casou – recordo – com D. Isabel de Portugal, sua prima e filha de D. Manuel.
Ivan IV (ou João IV), o Terrível, foi o 11º monarca russo, mas a 18.03.1547 autoproclama-se 1º Czar (César) da Rússia, devido a extensão que os domínios russos alcançaram.
Pontificava Paulo IV (223º)

D. João III foi o 15º rei de Portugal, nasceu na SG 06.06.1502, foi baptizado pelo arcebispo de Lisboa, D. Martinho da Costa, irmão do cardeal de Alpedrinha (D. Jorge da Costa), que foi o 9º cardeal português e reinou durante 36 anos (de 1521 a 1557).

«O dia do seu nascimento foi assinalado por uma horrorosa tempestade, e o do baptismo por um incêndio que se declarou no paço, coincidências que muito impressionaram como de grande agoiro no futuro reinado. Infelizmente, os factos posteriores vieram confirmar estes lúgubres presságios.» [Dicionário]

D. João III era filho do (segundo) casamento de D. Manuel I com a cunhada Maria de Castela, irmã da sua primeira mulher, Isabel de Castela, que morreu de parto e que era viúva do infante D. Afonso, seu sobrinho porque filho de sua irmã, D. Leonor, com D. João II; Isabel e Maria que eram, ambas, filhas dos reis católicos e irmãs de Joana, a Louca, mãe do Sacro Imperador Carlos V, de quem eram tias, sendo que Carlos V casou com uma filha de D. Manuel, Isabel de Portugal, irmã de D. João III, de quem era cunhado.

D. João III casou no DM 05.02.1525, aos 23 anos incompletos, com D. Catarina, irmã de sua madrasta, D. Leonor, 3ª mulher de D. Manuel, que chegara a ser pensada para nora deste, porque se pretendia que casasse com seu filho João, futuro D. João III. Assim, D. Catarina era igualmente irmã de Carlos V, genro de D. Manuel e, como já dito, cunhado de D. João III.
Isabel, Maria e Joana de Castela (ou d’ Áustria) eram irmãs, filhas dos reis católicos; Carlos, Leonor e Catarina de Castela (todos irmãos, filhos de Filipe, o Belo” ou Flipe I e de Joana I, a Louca) eram também da Dinastia d’Áustria ou dos Habsburgo.

D. Manuel, do seu segundo casamento, com D. Maria de Castela (ou d’Áustria) teve 9 filhos. O primogénito e seu sucessor foi exactamente D. João III. Que foi irmão de um outro futuro rei de Portugal, de 1578 a 1580, o Cardeal D. Henrique (7º filho), que antes chegara a ser arcebispo de Braga, Évora e Lisboa. Mas entre os irmãos destes destaco, ainda, D. Luís (4º filho) e D. Duarte (9º), homens eruditos, cultores das ciências e das letras, o primeiro discípulo de Pedro Nunes (e pai natural de D. António, Prior do Crato), o segundo discípulo de André de Resende. Mas, e por mera curiosidade, é de referir ainda o infante D. Afonso (6º dos 9) que foi bispo de Évora, Guarda e Viseu, arcebispo de Lisboa e cardeal -dignidade esta conferida pelo papa Leão X (217º), em 1513, quando o infante tinha 4 anos (!), mas sob condição de não poder ser tratado como tal antes de chegar aos 14 anos. Mas recebeu o barrete cardinalício aos 9 anos (!) – [Ditos, pg 56]
Um outro facto vem a propósito recordar: o infante D. Luís (o 4º dos 9, mas o segundo filho varão d’O Venturoso) “teve excepcional prestígio, maior que qualquer dos seus irmãos, e D. João III (que só por ter nascido antes - 4 anos - que o irmão, foi rei) procurou sempre mantê-lo na sombra. Vários escritores, entre eles Gil Vicente, D. João de Castro e Pedro Nunes, lhe dedicaram obras" [Ditos, pg 54]

Se D. João III teve, como vimos, irmãos dotados de elevado grau de cultura (além dos já referidos D. Luís e D. Duarte, seus irmãos germanos - vulgo, inteiros -, também D. Maria, sua irmã consanguínea - vulgo meia-irmã, filha do mesmo pai mas de diferente mãe, de D. Leonor -, já ele (D. João III) «em criança deu mostras de medíocre inteligência, e além disso, não teve uma aplicação assídua e séria que os estudos demandam; (…)” e “os mestres, ou por demasiado respeito, ou por mera adulação, nunca pensaram em exercer para com o real discípulo a autoridade que por boa razão lhes cabia. Não chegou, portanto, a desenvolver as faculdades intelectuais, como seria fácil na presença dos grandes meios de instrução que lhe foram proporcionados.» [Dicionário]

Por outro lado, Frei Luís de Sousa, depois de mencionar os preceptores e mestres do rei, comenta: «Porém de todo este cuidado se lhe não pegou mais que huma boa inclinação pera as Letras e letrados, em tanto gráo, que achamos posto em memoria, que quando o nosso celebrado Cronista da Asia, João de Barros, compunha por passatempo a fabulla do seu Clarimundo, afim de polir o estilo, pera vir a escrever as verdades dos feitos portuguezes, guerras e costumes da Asia, com que despois espantou o mundo, tinha o Príncipe tanto gosto da lição della, que acontecia tomar-­lhe os cadernos e de sua mão illos emendando. Que não póde ser mais claro indicio de amor aos Livros: que todavia valeo muito a este Reyno. Porque vindo a reynar fez que florescessem nelle com grandes aventagens todas as boas letras.» [Anais]


… continua amanhã, TR 12.06.2012…





quarta-feira, junho 06, 2012

MEMÓRIA DO TEMPO QUE PASSA - III





Completaram-se anteontem 34 anos, foi no DM 04.06.1978: morreu em Santa Bárbara, Califórnia, Jorge de Sena, engenheiro civil, escritor, poeta, ficcionista, dramaturgo, ensaísta, crítico, tradutor e professor universitário português, a cinco meses de completar os 59 anos.
Continuação…



Por fim uma alusão à correspondência com Sophia de M. Breyner.


cópia de carta de Jorge de Sena para
Sophia de Mello Breyner

Acerca de Sophia, Jorge de Sena escreveu: "A poesia de Sofia de Melo Breyner Andresen é (…) uma das vozes mais nobres da poesia portuguesa do nosso tempo. Entendamos, por sob a música dos seus versos, um apelo generoso, uma comunhão humana, um calor de vida, uma franqueza rude no amor, um clamor irredutível de liberdade – aos quais, como o poeta ensina, devemos erguer-nos sem compromissos nem vacilações." (Jorge de Sena, "Alguns Poetas de 1938" in Colóquio Artes e Letras, nº 1, Janeiro de 1959)

Existe uma obra intitulada "Sophia de Mello Breyner. Jorge de Sena - Correspondência 1959-1978", da Editora Guerra & Paz.
«Dois dos maiores poetas portugueses, Sophia de Mello Breyner e Jorge de Sena, juntos numa obra rigorosamente inédita: “Sophia de Mello Breyner, Jorge de Sena – Correspondência” junta as cartas que os dois escritores trocaram de 1959, quando Sena partiu para o exílio, a 1978, data da morte do escritor. Uma correspondência BRILHANTE: Porque é o testemunho da profunda amizade entre duas famílias, (…); Porque é um libelo implacável contra a mesquinhez de parte do mundo cultural português [ditadura salazarista]; Porque é o retrato da luta política, ética e estética de dois criadores sublimes. Nas cartas de Sophia, nas cartas de Sena, de Cunhal a Agustina Bessa-Luís, de Urbano Tavares Rodrigues a Natália Correia, da corrida ao Nobel até aos assaltos da PIDE, o leitor encontra as grandes figuras e os grandes momentos da história de Portugal dos anos 60 e 70.» Da apresentação da obra, da Editora Guerra & Paz, no site da FNAC.

Duma edição daquela obra, de 2010, transcrevo a seguinte poesia, a nota que o precede e a citação da obra que o integra:

De Jorge de Sena Para Sophia de Mello Breyner

”A Sophia de Mello Breyner Andresen Enviando-lhe Um Exemplar De “Pedra Filosofal”

Filhos e versos, como os dás ao mundo?
Como na praia te conversam sombras de corais?
Como de angústia anoitecer profundo?
Como quem se reparte?
Como quem pode matar-te?
Ou como quem a ti não volta mais?

1950
Jorge de Sena, Peregrinatio ad loca infecta, 1969

Como transcrevo esta carta de Sophia para Jorge:

Carta a Jorge de Sena  
I
Não é navegador mas emigrante
Legítimo português de novecentos
Levaste contigo os teus e levaste
Sonhos fúrias trabalhos e saudade;
Moraste dia por dia a tua ausência
No mais profundo fundo das profundas
Cavernas altas onde o estar se esconde   

II
E agora chega a notícia que morreste
E algo se desloca em nossa vida   

(in Ilhas. Lisboa: Caminho, 2004, p 41-42)

Da sinopse da 2ª edição da "Correspondência", de 2006, da mesma Editora Guerra & Paz transcrevo: "Esta 2ª edição contem 2 novas cartas escritas por Sophia de Mello Breyner - que Jorge de Sena nunca chegou a receber - e um cartão postal enviada por Jorge de Sena a Sophia, a 19/2/1969, na viagem de regresso aos EUA, após a primeira visita que fez Portugal depois do seu exílio."

A “Correspondência” faz parte do programa de Português do 10º ano de escolaridade. Da apresentação trago estas passagens:

«O ENSINO É DAS FORMAS MAIS COMPLETAS DE REALIZAÇÃO PESSOAL

NA OPINIÃO DE JORGE DE SENA QUE ESTA TARDE CHEGA A LISBOA   
ENTREVISTA DE ABÍLIO DINIZ SILVA (Leitor de português na Sorbonne)
(Entrevista de 22.12.1968, in Diário de Lisboa)

Esta entrevista não passou despercebida à Policia Política do Governo Salazarista – PIDE.

“Não me arrependo de ter tido essas palavras
Tive-as, não as tenho mais, elas me têm a mim.”
Jorge de Sena, Pedra Filosofal»
(conteúdo de uma das 11 fichas sobre a matéria) [Poetas do séc.XX]

Uma outra ficha refere a colaboração Zeca Afonso/Jorge de Sena, com letra deste para uma canção com música do saudoso cantor que a interpreta e que integra o seu álbum VENHAM MAIS CINCO:

Roubam-me Deus
Outros o Diabo
Quem cantarei

Roubam-me a pátria
E a humanidade
Outros ma roubam
Quem cantarei

Sempre há quem roube
Quem eu deseje
E de mim mesmo
Todos me roubam
Quem cantarei
Quem cantarei

Roubam-me Deus
Outros o Diabo
Quem cantarei

Roubam-me a pátria
E a humanidade
Outros ma roubam
Quem cantarei

Roubam-me a voz
Quando me calo
Ou o silêncio
Mesmo se falo

Aqui d’el rei
Aqui d’el rei

(Jorge de Sena/José Afonso)               
A respectiva “cantiga” pode ouvi-la AQUI

Concluindo, o longo, vigoroso e corrosivo poema seniano dito com a força, a fremência que só um Mário Viegas (ou um Ary) sabiam pôr nos versos que diziam. Deixo poema e CLIP SONORO.

Não, não, não subscrevo, não assino
que a pouco e pouco tudo volte ao de antes,
como se golpes, contra-golpes, intentonas
(ou inventonas - armadilhas postas
da esquerda prá direita ou desta para aquela)
não fossem mais que preparar caminho
a parlamentos e governos que
irão secretamente pôr ramos de cravos
e não de rosas fatimosas mas de cravos
na tumba do profeta em Santa Comba,
enquanto pra salvar-se a inconomia
os empresários (ai que lindo termo,
com tudo o que de teatro nele soa)
irão voltar testas de ferro do
capitalismo que se usou de Portugal
para mão-de-obra barata dentro ou fora.
Tiveram todos culpa no chegar-se a isto:
infantilmente doentes de esquerdismo
e como sempre lendo nas cartilhas
que escritas fedem doutras realidades,
incompetentes competiram em
forçar revoluções, tomar poderes e tudo
numa ânsia de cadeiras, microfones,
a terra do vizinho, a casa dos ausentes,
e em moer do povo a paciência e os olhos
num exibir-se de redondas mesas
em televisas barbas de falácia imensa.
E todos eram povo e em nome del' falavam,
ou escreviam intragáveis prosas
em que o calão barato e as ideias caras
se misturavam sem clareza alguma
(no fim das contas estilo Estado Novo
apenas traduzido num calão de insulto
ao gosto e à inteligência dos ouvintes-povo).
Prendeu-se gente a todos os pretextos,
conforme o vento, a raiva ou a denúncia,
ou simplesmente (ó manes de outro tempo)
o abocanhar patriótico dos tachos.
Paralisou-se a vida do país no engano
de que os trabalhadores não devem trabalhar
senão em agitar-se em demandar salários
a que tinham direito mas sem que
houvesse produção com que pagá-los.
Até que um dia, à beira de uma guerra
civil (palavra cómica pois que
do lume os militares seriam quem tirava
para os civis a castanhinha assada),
tudo sumiu num aborto caricato
em que quase sem sangue ou risco de infecção
parteiras clandestinas apararam
no balde da cozinha um feto inexistente:
traindo-se uns aos outros ninguém tinha
(ó machos da porrada e do cacete)
realmente posto o membro na barriga
da pátria em perna aberta e lá deixado
semente que pegasse (o tempo todo
haviam-se exibido eufóricos de nus,
às Áfricas e às Europas de Oeste e Leste).
A isto se chegou. Foi criminoso?
Nem sequer isso, ou mais do que isso um guião
do filme que as direitas desejavam,
em que como num jogo de xadrez a esquerda
iria dando passo a passo as peças todas.
É tarde e não adianta que se diga ainda
(como antes já se disse) que o povo resistiu
a ser iluminado, esclarecido, e feito
a enfiar contente a roupa já talhada.
Se muita gente reagiu violenta
(com as direitas assoprando as brasas)
é porque as lutas intestinas (termo
extremamente adequado ao caso)
dos esquerdismos competindo o permitiram.
Também não vale a pena que se lave
a roupa suja em público: já houve
suficiente lavar que todavia
(curioso ponto) nunca mostrou inteira
quanta camisa à Salazar ou cueca de Caetano
usada foi por tanto entusiasta,
devotamente adepto de continuar ao sol
(há conversões honestas, sim, ai quantos santos
não foram antes grandes pecadores).
E que fazer agora? Choro e lágrimas?
Meter avestruzmente a cabeça na areia?
Pactuar na supremíssima conversa
de conciliar a casa lusitana,
com todos aos beijinhos e aos abraços?
Ir ao jantar de gala em que o Caetano,
o Spínola, o Vasco, o Otelo e os outros,
hão-de tocar seus copos de champanhe?
Ir já fazendo a mala para exílios?
Ou preparar uma bagagem mínima
para voltar a ser-se clandestino usando
a técnica do mártir (tão trágica porque
permite a demissão de agir-se à luz do mundo,
e de intervir directamente em tudo)?
Mas como é clandestina tanta gente
que toda a gente sabe quem já seja?
Só há uma saída: a confissão
(honesta ou calculada) de que erraram todos,
e o esforço de mostrar ao povo (que
mais assustaram que educaram sempre)
quão tudo perde se vos perde a vós.
Revolução havia que fazer.
Conquistas há que não pode deixar-se
que se dissolvam no ar tecnocrata
do oportunismo à espreita de eleições.
Pode bem ser que a esquerda ainda as ganhe,
ou pode ser que as perca. Em qualquer caso,
que ao povo seja dito de uma vez
como nas suas mãos o seu destino está
e não no das sereias bem cantantes
(desde a mais alta antiguidade é conhecido
que essas senhoras são reaccionárias,
com profissão de atrair ao naufrágio
o navegante intrépido). Que a esquerda
nem grite, que está rouca, nem invente
as serenatas para que não tem jeito.
Mas firme avance, e reate os laços rotos
entre ela mesma e o povo (que não é
aqueles milhares de fiéis que se transportam
de camioneta de um lugar pró outro).
Democracia é isso: uma arte do diálogo
mesmo entre surdos. Socialismo à força
em que a democracia se realiza.
Há muito socialismo: a gente sabe,
e quem mais goste de uns que dos outros.
É tarde já para tratar do caso: agora
importa uma só coisa - defender
uma revolução que ainda não houve,
como as conquistas que chegou a haver
(mas ajustando-as francamente à lei
de uma equidade justa, rechaçando
o quanto de loucuras se incitaram
em nome de um poder que ninguém tinha).
E vamos ao que importa: refazer
um Portugal possível em que o povo
realmente mande sem que o só manejem,
e sem que a escravidão volte à socapa
entre a delícia de pagar uma hipoteca
da casa nunca nossa e o prazer
de ter um frigorifico e automóveis dois.
Ah, povo, povo, quanto te enganaram
sonhando os sonhos que desaprenderas!
E quanto te assustaram uns e outros,
com esses sonhos e com o medo deles!
E vós, políticos de ouro de lei ou borra,
guardai no bolso imagens de outras Franças,
ou de Germânias, Rússias, Cubas, outras Chinas,
ou de Estados Unidos que não crêem
que latinada hispânica mereça
mais que caudilhos com contas na Suíça.
Tomai nas vossas mãos o Portugal que tendes
tão dividido entre si mesmo. Adiante.
Com tacto e com fineza. E com esperança.
E com um perdão que há que pedir ao povo.
E vós, ó militares, para o quartel
(sem que, no entanto, vos deixeis purgar
ao ponto de não serdes o que deveis ser:
garantes de uma ordem democrática
em que a direita não consiga nunca
ditar uma ordem sem democracia).
E tu, canção-mensagem, vai e diz
o que disseste a quem quiser ouvir-te.
E se os puristas da poesia te acusarem
de seres discursiva e não galante
em graças de invenção e de linguagem,
manda-os àquela parte. Não é tempo
para tratar de poéticas agora.

Santa Bárbara, Fevereiro 1976 (aniversário de uma tentativa heróica de conter uma noite que duraria décadas), publicado in Quarenta Anos de Servidão (1979) - Jorge de Sena







Fontes várias, entre elas:
- [BU: Sena]: Biblioteca/Enciclopédia Universal da Texto Editores. Entrada: Jorge de Sena
- [Canaveira]: Manuel Filipe Canaveira, trabalho publicado num destacável d’ “O Jornal”, de 10MAI1991
- [Info: Sena]: Infopédia, a enciclopédia online da Porto Editora. Entrada: Jorge de Sena
- [Info: Cadernos]: Infopédia, a enciclopédia online da Porto Editora: entrada Cadernos de poesia
- [Ler Sena]: Ler Jorge de Sena/Antologias/Universidade Federal do Rio de Janeiro
- [Poetas do séc.XX]: Poetas do séc.XX - 2 - Presentation Transcript
(nº da ficha)| Português – 10º ano | Poetas do Séc. XX – Jorge de Sena e Sophia de Mello Breyner Dina Baptista | www.sebentadigital.com EB 2,3/S de Vale de Cambra 2010 /2011
- [Wiki: Arquíloco]: Wikipédia, a enciclopédia livre. Entrada: Arquíloco
- [Wiki: Sena]: Wikipédia, a enciclopédia livre. Entrada: Jorge de Sena






terça-feira, junho 05, 2012

MEMÓRIA DO TEMPO QUE PASSA - II




Completaram-se ontem 34 anos, foi no DM 04.06.1978: morreu em Santa Bárbara, Califórnia, Jorge de Sena, engenheiro civil, escritor, poeta, ficcionista, dramaturgo, ensaísta, crítico, tradutor e professor universitário português, a cinco meses de completar os 59 anos.
Continuação…

Nos anos 50 a produção literária de Jorge de Sena cresce em complexidade, extensão e em profundidade, sendo de então algumas das suas mais conhecidas obras poéticas (Metamorfoses, Evidências, Fidelidade). Como é de então a sua primeira tentativa de dramaturgo (O Indesejado) e, ainda, a sua organização da 3ª série antológica das Líricas Portuguesas. [Info: Sena]

O volume Evidências foi entusiasticamente saudado por David Mourão-Ferreira como uma “obra de categoria excepcional”.

Desta vergonha de existir ouvindo é o segundo soneto do livro Evidências (1955). Em geral o soneto não figura nas "entradas" de Jorge de Sena no Portugal Democrático. «No entanto, como lembra Douglas Mansur em seu verbete, é com estes 14 versos a sua primeira "aparição" no periódico: na página 5, do Portugal Democrático nº 29, de Outubro de1959, encimada pelo título de "Uma frente de batalha chamada poesia", ao lado de mais 6 poemas, assinados» por vários nomes como O'Neill, Gomes Ferreira e outros. «De organizador anónimo, a sucinta antologia (com textos datados de 1939 a 1958) é assim justificada: "Colhidos de livros e revistas publicados em Portugal, os poemas ora apresentados evidenciam a prolongada resistência oferecida pelos poetas à desumanização da sociedade portuguesa levada a efeito pelo regime de Salazar". Cumprem-se, deste modo, as directrizes do mensário, que, desde o "programa" estampado em seu primeiro número, declarava indissociável o político do cultural: "a cultura portuguesa, que nas últimas décadas tantos atentados tem sofrido, merecer-nos-á especial carinho".»

No prefácio, recorda Sena que, «uma vez impresso, As Evidências "foi logo apreendido pela PIDE [...] e só pode ser distribuído um mês depois, após repetidas visitas à Censura [...]. O livro era, além de subversivo, pornográfico". Para a imputada "subversão", certamente este segundo soneto muito teria contribuído...»:

Desta vergonha de existir ouvindo,
amordaçado, as vãs palavras belas,
por repetidas quanto mais traindo
tornadas vácuas da beleza delas;

desta vergonha de viver mentindo
só porque escuto o que dizeis com elas;
desta vergonha de assistir medindo
por elas as injúrias por trás delas

ao mesmo sangue com que foram feitas,
ao suor e ao sémen por que são eleitas
e à simples morte de chegar-se ao fim;

desta vergonha inominável grito
a própria vida com que às coisas fito:
Calai-vos, ímpios, que jurais por mim!

12.02.1954

Da obra Fidelidade deixo os seguintes poemas do autor: 

Diz-me devagar coisa nenhuma, assim
como a só presença com que me perdoas
esta fidelidade ao meu destino.
Quanto assim não digas é por mim
que o dizes. E os destinos vivem-se
com outra vida. Ou como solidão.
E quem lá entra? E quem lá pode estar
mais que o momento de estar só consigo?           

Diz-me assim devagar coisa nenhuma:
o que à morte se diria, se ela ouvisse,
ou se diria aos mortos se voltassem.

26.08.1956

Não hei-de morrer sem saber
qual a cor da liberdade.     

Eu não posso senão ser
desta terra em que nasci.
Embora ao mundo pertença
e sempre a verdade vença
qual será ser livre aqui
não hei-de morrer sem saber     

Trocaram tudo em maldade,
é quase um crime viver.
Mas, embora escondam tudo
e me queiram cego e mudo,
não hei-de morrer sem saber
qual a cor da liberdade    

09.12.1956

E de Metamorfoses recolhi o seguinte:

Camões dirige-se aos seus contemporâneos         

Podereis roubar-me tudo:
as ideias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas, os temas, os motivos,
os símbolos, e a primazia
nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimento de outros, na coragem
de combater, julgar, de penetrar
em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
será terrível. Não só quando
vossos netos não souberem já quem sois
terão de me saber melhor ainda
do que fingis que não sabeis,
como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
reverterá para o meu nome. E, mesmo será meu,
tido por meu, contado como meu,
até mesmo aquele pouco e miserável
que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
que um vosso esqueleto há-de ser buscado,
para passar por meu. E para outros ladrões,
iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.     

11.06.1961
[Ler Jorge de Sena]

Quanto às Líricas Portuguesas, trata-se, agora, da 3ª série de um projecto, para já, trisseriado que visa apresentar uma colectânea da poesia lírica portuguesa desde as suas origens à actualidade.
A 1ª série abrange autores desde os cancioneiros medievais até ao 1º quartel do séc. XX e foi organizada por José Régio. A 2ª série, compilada por Cabral do Nascimento, abrange autores nascidos entre 1859 e 1908.
A 3ª série, organizada por Jorge de Sena, foi publicada em 1958. Segundo Sena explica no prefácio à 1ª edição desta série, ela compreende duas partes: uma primeira que reúne oito autores que deveriam ter figurado na 2ª série (entre eles, Irene Lisboa, Almada-Negreiros e António Botto) e uma segunda parte que engloba 65 poetas nascidos entre 1909 e 1929. Entre eles: António Gedeão, Manuel da Fonseca, Joaquim Namorado, Ruy Cinatti, Mário Dionísio, Fernando Namora, Jorge de Sena, Sophia de Mello Breyner, Natércia Freire, Eugénio de Andrade, Mário Cesariny de Vasconcelos, Natália Correia, Pinheiro Torres, Sebastião da Gama, Ramos Rosa, O'Neill, Mourão-Ferreira e Ana Hatherly.

A atitude humanista de Jorge de Sena e o seu “espírito de inconformismo contra a ditadura fascista levaram-no, em 1959, após o envolvimento numa tentativa falhada de golpe de Estado militar contra o regime salazarista, a optar por um exílio voluntário no Brasil”, onde, por razões profissionais, se naturalizou brasileiro em 1963. [Info: Sena] E também daqui, com a instalação da Ditadura Militar em Março de 1964, ao sentir a liberdade ameaçada, emigra para os EUA.

No Brasil vive 6 anos como professor universitário de Literatura Portuguesa e de Teoria da Literatura, em S. Paulo. [Info: Sena]. Simultaneamente publica uma série de ensaios, como o Da Poesia Portuguesa, e desmultiplica-se em congressos e conferências várias a par da redacção do periódico Portugal Democrático, onde denuncia a ditadura da lusa pátria. É aí que, em 1961, publica o primeiro volume da sua obra poética completa, tendo no ano anterior publicado o seu primeiro livro de ficção, Andanças do Demónio (contos), e em 1964 faz o doutoramento em Letras, defendendo a tese Os Sonetos de Camões e o Soneto Quinhentista Peninsular”, tendo obtido o título académico "com distinção e louvor". No ano seguinte, designadamente por razões políticas, transfere-se para a Universidade do Wisconsin, Madison, nos Estados Unidos, onde seria nomeado professor catedrático de Literatura Portuguesa e Brasileira. E, 5 anos volvidos, migra para a Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara, onde, em 1972, viria a ser nomeado chefe do departamento de Literatura Comparada e, em 1975, chefe do Departamento de Espanhol e Português.

Aquando da primeira visita autorizada a Portugal em nove anos de exílio, entre 1968 e 1969, Sena publica os volumes de poesia Arte de Música e Peregrinatio ad Loca Infecta. E no ano da sua morte, 1978, vieram a público, revistos pelo autor, os volumes Poesia II e Poesia III, a que se seguiriam, postumamente, os volumes 40 Anos de Servidão e Post-Scriptum II.

Entretanto dera-se o 25 de Abril e Jorge de Sena, entusiasmado, queria regressar definitivamente a Portugal, ansioso de dar a sua colaboração para a construção da democracia. Visitou, então, o país, que o recebeu com homenagens públicas e onde foi condecorado (como o seria a título póstumo), mas não recebeu qualquer convite para aqui exercer o seu ministério. Desiludido e magoado, voltou aos EU, onde morreria 4 anos depois. [Wiki: Sena]

De Peregrinatio ad Loca Infecta deixo os seguintes versos:

Quem muito viu, sofreu, passou trabalhos,
mágoas, humilhações, tristes surpresas;
e foi traído, e foi roubado, e foi
privado em extremo da justiça justa;          

e andou terras e gentes, conheceu
os mundos e submundos; e viveu
dentro de si o amor de ter criado;
quem tudo leu e amou, quem tudo foi -        

não sabe nada, nem triunfar lhe cabe
em sorte como a todos os que vivem.
Apenas não viver lhe dava tudo.       

Inquieto e franco, altivo e carinhoso,
será sempre sem pátria. E a própria morte,
quando o buscar, há-de encontrá-lo morto.

1961

De entre a sua extensa bibliografia destaco as seguintes obras (algumas já antes referidas): poesia: Perseguição (1942), Coroa da Terra (1946), Pedra Filosofal (1950), Metamorfoses (1963), Peregrinatio ad Loca Infecta (1969) e Conheço o Sal... e Outros Poemas (1974). Teatro: O Indesejado (António, Rui) (1951) Amparo de Mãe e mais Cinco Peças em Um Acto (1974, sendo cada um dos textos incluídos neste volume escrito antes desta data); deixou algumas peças inacabadas. Ficção em prosa: Andanças do Demónio (1960), O Físico Prodigioso (1977), Sinais de Fogo (1979) e Génesis (1983). Ensaios: Da Poesia Portuguesa (1959), O Reino da Estupidez (1961-1978) e Poesia de 26 Séculos (1971-1972). [BU: Sena]
Mais famoso é o seu “romance autobiográfico Sinais de Fogo, adaptado ao cinema em 1995 por Luís Filipe Rocha.” [Wiki: Sena]
Em 1999, foi publicado um livro com inéditos do escritor, Dedicácias, obra que reúne poemas satíricos, quase todos com destinatários identificados, e vários desenhos inéditos.
Em 2002, é publicado
Poesia 26 Séculos de Arquíloco a Nietzche. [BU: Sena]


«Arquíloco foi um poeta lírico e soldado grego que viveu na primeira metade do século VII a.C. (talvez entre anos de 680 a.C. e 645 a.C.). Os antigos colocavam-no em pé de igualdade com o próprio Homero.»  [Wiki: Arquíloco]



… continua amanhã, QA 06.06.2012…

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