segunda-feira, junho 11, 2012

MEMÓRIA DO TEMPO QUE PASSA - I



Como sempre, recordo:

Este é o espaço em que,
habitualmente,
faço algumas incursões pelo mundo da História.
Recordo factos, revejo acontecimentos,
visito ou revisito lugares,
encontro ou reencontro personalidades e lembro datas.
Datas que são de boa recordação, umas;
outras, de má memória.
Mas é de todos estes eventos e personagens que a História é feita.
Aqui,
as datas são o pretexto para este mergulho no passado.
Que, por vezes,
ajudam a melhor entender o presente
e a prevenir o futuro.

DECORRE O 12º ANO DO 3º MILÉNIO
ESTAMOS NA SEGUNDA-FEIRA DIA 11 DE JUNHO DE 2012 (MMXII) DO CALENDÁRIO GREGORIANO

Que corresponde ao
Ano de 2765 Ab Urbe Condita (da fundação de Roma)
Ano 4708-4709 do calendário chinês
Ano 5772-5773 do calendário hebraico
Ano 1433-1434 da Hégira (calendário islâmico)
Ano 1461 do calendário arménio
Ano 1390-1391 do calendário Persa
e relativamente aos calendários hindus:
- Ano 2067-2068 do calendário Vikram Samvat
- Ano 1934-1935 do calendário Shaka Samvat
- Ano 5113-5114 do calendário Kali Yuga

Mais:
DE ACORDO COM A TRADIÇÃO, COM O CALENDÁRIO DA ONU OU COM A AGENDA DA UNESCO:
De 2003 a 2012 - Década da Alfabetização: Educação para Todos.
de 2005 a 2014 - Década das Nações Unidas para a Educação do Desenvolvimento Sustentável.
de 2005 a 2015 - Década Internacional "Água para a Vida".

Por outro lado, 2012 é o
ANO EUROPEU DO ENVELHECIMENTO ACTIVO E DA SOLIDARIEDADE ENTRE GERAÇÕES
ANO INTERNACIONAL DA ENERGIA SUSTENTÁVEL PARA TODOS
ANO INTERNACIONAL DA AGRICULTURA FAMILIAR
ANO INTERNACIONAL DAS COOPERATIVAS
(…)
Foi Rei? - Fez tudo quanto a Rei se deve;
pôs na guerra e na paz devido estudo;
mas quão pesado foi ao Mouro rudo
tanto lhe seja agora a terra leve.
(…)

Parte de um soneto de Camões sobre D. João III

retrato de D. João III, de c. 1545,
óleo de Cristóvão Lopes

Faz hoje 455 anos que morreu D. João III, "numa Sexta-feira, 11 de Junho" de 1557, 3 anos depois de ter morrido o seu último filho sobrevivente - dos 10 que teve -, o infante D. João Manuel [1554] que foi o pai de D. Sebastião - que nem chegou a conhecer. A D. João III sucedeu, pois, o neto, D. Sebastião, nessa altura com cerca de três anos de idade (nasceu a 20.01 daquele ano de 1554). Assim, o reinado do novel rei começou com a regência da rainha viúva D. Catarina, sua avó.

Nessa data reinava em Espanha Joana I, a Louca, terceira filha dos Reis Católicos, Fernando II de Aragão e Isabel I de Castela; foi rainha de Castela (1504-1555) e Aragão (1516-1555) e mãe do imperador Carlos V, da Casa dos Habsburgo, do Sacro Império Romano-Germânico; Joana foi a primeira monarca da Espanha unificada e era da Casa de Trastâmara; devido a sua instabilidade mental, reinou junto com seu filho, Carlos I, até sua morte em 1555. Carlos I de Espanha ou Carlos de Habsburgo (1500-1558) era, portanto, então Rei de Espanha (como Carlos I) e Imperador do Sacro Império Romano (como Carlos V); mas era também Arquiduque de Áustria, Duque de Milão, conde de Flandres, Rei de Nápoles e Sicília como Carlos IV de 1516 a 1555, Príncipe dos Países Baixos de 1516 até abdicar destes tronos em Outubro de 1555. Abdicou em 1556 e passou o governo a seu filho, Filipe II (Filipe I de Portugal), excepto o Sacro Império e suas terras austríacas, que entregou ao irmão Fernando; os pais de Carlos V eram Filipe, “O Belo” ou Filipe I de Castela e a já mencionada Joana I de Castela; Carlos casou com sua prima, Isabel de Portugal, filha de D. Manuel, que era seu tio por afinidade, pois que D. Manuel casou com duas irmãs de sua mãe; e Carlos era ainda neto de Maximiliano I da Germânia ou de Habsburgo. Carlos V dividiu seu Império: deu para seu filho Filipe II (nosso Filipe I, neto de D. Manuel) os Países Baixos, as Coroas de Castela, Aragão, e Sicília e a Borgonha; o Sacro Império foi dado para Fernando I seu irmão mais novo. Reinou na Espanha sozinho depois da morte de sua mãe, Joana I, em 1555.
Rainha de Inglaterra e da Irlanda era Maria I (47), cognominada Bloody Mary (ou a Sanguinária): foi a quinta criança nascida do primeiro casamento de Henrique VIII (44) de Inglaterra com Catarina de Aragão e a única a atingir a idade adulta. Maria não foi a imediata sucessora de seu pai, já que foi seu meio-irmão (irmão consanguíneo), Eduardo VI (45), filho do 3º casamento de seu pai, por ser o único filho varão que ele teve. Por morte deste, que morreu sem herdeiros, e por sua vontade, sucedeu-lhe uma sobrinha-neta de Henrique VIII, Joana I (46) (Joana Grey) cujo reinado, de jure, só durou 9 dias, pois nem foi coroada, sendo destronada, por vontade popular, por Maria I; acabou por ser condenada e executada por traição. Todos eles da Casa dos Tudor.
Henrique II (40) era na altura o rei de França, da Dinastia de Valois-Angoulême. Casou com Catarina de Médicis, sobrinha do Papa Clemente VII (219).
Rei da Itália (22) era Carlos V, o mesmo Carlos de Habsburgo (1500-1558) acima referido.
Sacro-imperador Romano Germânico (31) era ainda o mesmo Carlos V que casou – recordo – com D. Isabel de Portugal, sua prima e filha de D. Manuel.
Ivan IV (ou João IV), o Terrível, foi o 11º monarca russo, mas a 18.03.1547 autoproclama-se 1º Czar (César) da Rússia, devido a extensão que os domínios russos alcançaram.
Pontificava Paulo IV (223º)

D. João III foi o 15º rei de Portugal, nasceu na SG 06.06.1502, foi baptizado pelo arcebispo de Lisboa, D. Martinho da Costa, irmão do cardeal de Alpedrinha (D. Jorge da Costa), que foi o 9º cardeal português e reinou durante 36 anos (de 1521 a 1557).

«O dia do seu nascimento foi assinalado por uma horrorosa tempestade, e o do baptismo por um incêndio que se declarou no paço, coincidências que muito impressionaram como de grande agoiro no futuro reinado. Infelizmente, os factos posteriores vieram confirmar estes lúgubres presságios.» [Dicionário]

D. João III era filho do (segundo) casamento de D. Manuel I com a cunhada Maria de Castela, irmã da sua primeira mulher, Isabel de Castela, que morreu de parto e que era viúva do infante D. Afonso, seu sobrinho porque filho de sua irmã, D. Leonor, com D. João II; Isabel e Maria que eram, ambas, filhas dos reis católicos e irmãs de Joana, a Louca, mãe do Sacro Imperador Carlos V, de quem eram tias, sendo que Carlos V casou com uma filha de D. Manuel, Isabel de Portugal, irmã de D. João III, de quem era cunhado.

D. João III casou no DM 05.02.1525, aos 23 anos incompletos, com D. Catarina, irmã de sua madrasta, D. Leonor, 3ª mulher de D. Manuel, que chegara a ser pensada para nora deste, porque se pretendia que casasse com seu filho João, futuro D. João III. Assim, D. Catarina era igualmente irmã de Carlos V, genro de D. Manuel e, como já dito, cunhado de D. João III.
Isabel, Maria e Joana de Castela (ou d’ Áustria) eram irmãs, filhas dos reis católicos; Carlos, Leonor e Catarina de Castela (todos irmãos, filhos de Filipe, o Belo” ou Flipe I e de Joana I, a Louca) eram também da Dinastia d’Áustria ou dos Habsburgo.

D. Manuel, do seu segundo casamento, com D. Maria de Castela (ou d’Áustria) teve 9 filhos. O primogénito e seu sucessor foi exactamente D. João III. Que foi irmão de um outro futuro rei de Portugal, de 1578 a 1580, o Cardeal D. Henrique (7º filho), que antes chegara a ser arcebispo de Braga, Évora e Lisboa. Mas entre os irmãos destes destaco, ainda, D. Luís (4º filho) e D. Duarte (9º), homens eruditos, cultores das ciências e das letras, o primeiro discípulo de Pedro Nunes (e pai natural de D. António, Prior do Crato), o segundo discípulo de André de Resende. Mas, e por mera curiosidade, é de referir ainda o infante D. Afonso (6º dos 9) que foi bispo de Évora, Guarda e Viseu, arcebispo de Lisboa e cardeal -dignidade esta conferida pelo papa Leão X (217º), em 1513, quando o infante tinha 4 anos (!), mas sob condição de não poder ser tratado como tal antes de chegar aos 14 anos. Mas recebeu o barrete cardinalício aos 9 anos (!) – [Ditos, pg 56]
Um outro facto vem a propósito recordar: o infante D. Luís (o 4º dos 9, mas o segundo filho varão d’O Venturoso) “teve excepcional prestígio, maior que qualquer dos seus irmãos, e D. João III (que só por ter nascido antes - 4 anos - que o irmão, foi rei) procurou sempre mantê-lo na sombra. Vários escritores, entre eles Gil Vicente, D. João de Castro e Pedro Nunes, lhe dedicaram obras" [Ditos, pg 54]

Se D. João III teve, como vimos, irmãos dotados de elevado grau de cultura (além dos já referidos D. Luís e D. Duarte, seus irmãos germanos - vulgo, inteiros -, também D. Maria, sua irmã consanguínea - vulgo meia-irmã, filha do mesmo pai mas de diferente mãe, de D. Leonor -, já ele (D. João III) «em criança deu mostras de medíocre inteligência, e além disso, não teve uma aplicação assídua e séria que os estudos demandam; (…)” e “os mestres, ou por demasiado respeito, ou por mera adulação, nunca pensaram em exercer para com o real discípulo a autoridade que por boa razão lhes cabia. Não chegou, portanto, a desenvolver as faculdades intelectuais, como seria fácil na presença dos grandes meios de instrução que lhe foram proporcionados.» [Dicionário]

Por outro lado, Frei Luís de Sousa, depois de mencionar os preceptores e mestres do rei, comenta: «Porém de todo este cuidado se lhe não pegou mais que huma boa inclinação pera as Letras e letrados, em tanto gráo, que achamos posto em memoria, que quando o nosso celebrado Cronista da Asia, João de Barros, compunha por passatempo a fabulla do seu Clarimundo, afim de polir o estilo, pera vir a escrever as verdades dos feitos portuguezes, guerras e costumes da Asia, com que despois espantou o mundo, tinha o Príncipe tanto gosto da lição della, que acontecia tomar-­lhe os cadernos e de sua mão illos emendando. Que não póde ser mais claro indicio de amor aos Livros: que todavia valeo muito a este Reyno. Porque vindo a reynar fez que florescessem nelle com grandes aventagens todas as boas letras.» [Anais]


… continua amanhã, TR 12.06.2012…





quarta-feira, junho 06, 2012

MEMÓRIA DO TEMPO QUE PASSA - III





Completaram-se anteontem 34 anos, foi no DM 04.06.1978: morreu em Santa Bárbara, Califórnia, Jorge de Sena, engenheiro civil, escritor, poeta, ficcionista, dramaturgo, ensaísta, crítico, tradutor e professor universitário português, a cinco meses de completar os 59 anos.
Continuação…



Por fim uma alusão à correspondência com Sophia de M. Breyner.


cópia de carta de Jorge de Sena para
Sophia de Mello Breyner

Acerca de Sophia, Jorge de Sena escreveu: "A poesia de Sofia de Melo Breyner Andresen é (…) uma das vozes mais nobres da poesia portuguesa do nosso tempo. Entendamos, por sob a música dos seus versos, um apelo generoso, uma comunhão humana, um calor de vida, uma franqueza rude no amor, um clamor irredutível de liberdade – aos quais, como o poeta ensina, devemos erguer-nos sem compromissos nem vacilações." (Jorge de Sena, "Alguns Poetas de 1938" in Colóquio Artes e Letras, nº 1, Janeiro de 1959)

Existe uma obra intitulada "Sophia de Mello Breyner. Jorge de Sena - Correspondência 1959-1978", da Editora Guerra & Paz.
«Dois dos maiores poetas portugueses, Sophia de Mello Breyner e Jorge de Sena, juntos numa obra rigorosamente inédita: “Sophia de Mello Breyner, Jorge de Sena – Correspondência” junta as cartas que os dois escritores trocaram de 1959, quando Sena partiu para o exílio, a 1978, data da morte do escritor. Uma correspondência BRILHANTE: Porque é o testemunho da profunda amizade entre duas famílias, (…); Porque é um libelo implacável contra a mesquinhez de parte do mundo cultural português [ditadura salazarista]; Porque é o retrato da luta política, ética e estética de dois criadores sublimes. Nas cartas de Sophia, nas cartas de Sena, de Cunhal a Agustina Bessa-Luís, de Urbano Tavares Rodrigues a Natália Correia, da corrida ao Nobel até aos assaltos da PIDE, o leitor encontra as grandes figuras e os grandes momentos da história de Portugal dos anos 60 e 70.» Da apresentação da obra, da Editora Guerra & Paz, no site da FNAC.

Duma edição daquela obra, de 2010, transcrevo a seguinte poesia, a nota que o precede e a citação da obra que o integra:

De Jorge de Sena Para Sophia de Mello Breyner

”A Sophia de Mello Breyner Andresen Enviando-lhe Um Exemplar De “Pedra Filosofal”

Filhos e versos, como os dás ao mundo?
Como na praia te conversam sombras de corais?
Como de angústia anoitecer profundo?
Como quem se reparte?
Como quem pode matar-te?
Ou como quem a ti não volta mais?

1950
Jorge de Sena, Peregrinatio ad loca infecta, 1969

Como transcrevo esta carta de Sophia para Jorge:

Carta a Jorge de Sena  
I
Não é navegador mas emigrante
Legítimo português de novecentos
Levaste contigo os teus e levaste
Sonhos fúrias trabalhos e saudade;
Moraste dia por dia a tua ausência
No mais profundo fundo das profundas
Cavernas altas onde o estar se esconde   

II
E agora chega a notícia que morreste
E algo se desloca em nossa vida   

(in Ilhas. Lisboa: Caminho, 2004, p 41-42)

Da sinopse da 2ª edição da "Correspondência", de 2006, da mesma Editora Guerra & Paz transcrevo: "Esta 2ª edição contem 2 novas cartas escritas por Sophia de Mello Breyner - que Jorge de Sena nunca chegou a receber - e um cartão postal enviada por Jorge de Sena a Sophia, a 19/2/1969, na viagem de regresso aos EUA, após a primeira visita que fez Portugal depois do seu exílio."

A “Correspondência” faz parte do programa de Português do 10º ano de escolaridade. Da apresentação trago estas passagens:

«O ENSINO É DAS FORMAS MAIS COMPLETAS DE REALIZAÇÃO PESSOAL

NA OPINIÃO DE JORGE DE SENA QUE ESTA TARDE CHEGA A LISBOA   
ENTREVISTA DE ABÍLIO DINIZ SILVA (Leitor de português na Sorbonne)
(Entrevista de 22.12.1968, in Diário de Lisboa)

Esta entrevista não passou despercebida à Policia Política do Governo Salazarista – PIDE.

“Não me arrependo de ter tido essas palavras
Tive-as, não as tenho mais, elas me têm a mim.”
Jorge de Sena, Pedra Filosofal»
(conteúdo de uma das 11 fichas sobre a matéria) [Poetas do séc.XX]

Uma outra ficha refere a colaboração Zeca Afonso/Jorge de Sena, com letra deste para uma canção com música do saudoso cantor que a interpreta e que integra o seu álbum VENHAM MAIS CINCO:

Roubam-me Deus
Outros o Diabo
Quem cantarei

Roubam-me a pátria
E a humanidade
Outros ma roubam
Quem cantarei

Sempre há quem roube
Quem eu deseje
E de mim mesmo
Todos me roubam
Quem cantarei
Quem cantarei

Roubam-me Deus
Outros o Diabo
Quem cantarei

Roubam-me a pátria
E a humanidade
Outros ma roubam
Quem cantarei

Roubam-me a voz
Quando me calo
Ou o silêncio
Mesmo se falo

Aqui d’el rei
Aqui d’el rei

(Jorge de Sena/José Afonso)               
A respectiva “cantiga” pode ouvi-la AQUI

Concluindo, o longo, vigoroso e corrosivo poema seniano dito com a força, a fremência que só um Mário Viegas (ou um Ary) sabiam pôr nos versos que diziam. Deixo poema e CLIP SONORO.

Não, não, não subscrevo, não assino
que a pouco e pouco tudo volte ao de antes,
como se golpes, contra-golpes, intentonas
(ou inventonas - armadilhas postas
da esquerda prá direita ou desta para aquela)
não fossem mais que preparar caminho
a parlamentos e governos que
irão secretamente pôr ramos de cravos
e não de rosas fatimosas mas de cravos
na tumba do profeta em Santa Comba,
enquanto pra salvar-se a inconomia
os empresários (ai que lindo termo,
com tudo o que de teatro nele soa)
irão voltar testas de ferro do
capitalismo que se usou de Portugal
para mão-de-obra barata dentro ou fora.
Tiveram todos culpa no chegar-se a isto:
infantilmente doentes de esquerdismo
e como sempre lendo nas cartilhas
que escritas fedem doutras realidades,
incompetentes competiram em
forçar revoluções, tomar poderes e tudo
numa ânsia de cadeiras, microfones,
a terra do vizinho, a casa dos ausentes,
e em moer do povo a paciência e os olhos
num exibir-se de redondas mesas
em televisas barbas de falácia imensa.
E todos eram povo e em nome del' falavam,
ou escreviam intragáveis prosas
em que o calão barato e as ideias caras
se misturavam sem clareza alguma
(no fim das contas estilo Estado Novo
apenas traduzido num calão de insulto
ao gosto e à inteligência dos ouvintes-povo).
Prendeu-se gente a todos os pretextos,
conforme o vento, a raiva ou a denúncia,
ou simplesmente (ó manes de outro tempo)
o abocanhar patriótico dos tachos.
Paralisou-se a vida do país no engano
de que os trabalhadores não devem trabalhar
senão em agitar-se em demandar salários
a que tinham direito mas sem que
houvesse produção com que pagá-los.
Até que um dia, à beira de uma guerra
civil (palavra cómica pois que
do lume os militares seriam quem tirava
para os civis a castanhinha assada),
tudo sumiu num aborto caricato
em que quase sem sangue ou risco de infecção
parteiras clandestinas apararam
no balde da cozinha um feto inexistente:
traindo-se uns aos outros ninguém tinha
(ó machos da porrada e do cacete)
realmente posto o membro na barriga
da pátria em perna aberta e lá deixado
semente que pegasse (o tempo todo
haviam-se exibido eufóricos de nus,
às Áfricas e às Europas de Oeste e Leste).
A isto se chegou. Foi criminoso?
Nem sequer isso, ou mais do que isso um guião
do filme que as direitas desejavam,
em que como num jogo de xadrez a esquerda
iria dando passo a passo as peças todas.
É tarde e não adianta que se diga ainda
(como antes já se disse) que o povo resistiu
a ser iluminado, esclarecido, e feito
a enfiar contente a roupa já talhada.
Se muita gente reagiu violenta
(com as direitas assoprando as brasas)
é porque as lutas intestinas (termo
extremamente adequado ao caso)
dos esquerdismos competindo o permitiram.
Também não vale a pena que se lave
a roupa suja em público: já houve
suficiente lavar que todavia
(curioso ponto) nunca mostrou inteira
quanta camisa à Salazar ou cueca de Caetano
usada foi por tanto entusiasta,
devotamente adepto de continuar ao sol
(há conversões honestas, sim, ai quantos santos
não foram antes grandes pecadores).
E que fazer agora? Choro e lágrimas?
Meter avestruzmente a cabeça na areia?
Pactuar na supremíssima conversa
de conciliar a casa lusitana,
com todos aos beijinhos e aos abraços?
Ir ao jantar de gala em que o Caetano,
o Spínola, o Vasco, o Otelo e os outros,
hão-de tocar seus copos de champanhe?
Ir já fazendo a mala para exílios?
Ou preparar uma bagagem mínima
para voltar a ser-se clandestino usando
a técnica do mártir (tão trágica porque
permite a demissão de agir-se à luz do mundo,
e de intervir directamente em tudo)?
Mas como é clandestina tanta gente
que toda a gente sabe quem já seja?
Só há uma saída: a confissão
(honesta ou calculada) de que erraram todos,
e o esforço de mostrar ao povo (que
mais assustaram que educaram sempre)
quão tudo perde se vos perde a vós.
Revolução havia que fazer.
Conquistas há que não pode deixar-se
que se dissolvam no ar tecnocrata
do oportunismo à espreita de eleições.
Pode bem ser que a esquerda ainda as ganhe,
ou pode ser que as perca. Em qualquer caso,
que ao povo seja dito de uma vez
como nas suas mãos o seu destino está
e não no das sereias bem cantantes
(desde a mais alta antiguidade é conhecido
que essas senhoras são reaccionárias,
com profissão de atrair ao naufrágio
o navegante intrépido). Que a esquerda
nem grite, que está rouca, nem invente
as serenatas para que não tem jeito.
Mas firme avance, e reate os laços rotos
entre ela mesma e o povo (que não é
aqueles milhares de fiéis que se transportam
de camioneta de um lugar pró outro).
Democracia é isso: uma arte do diálogo
mesmo entre surdos. Socialismo à força
em que a democracia se realiza.
Há muito socialismo: a gente sabe,
e quem mais goste de uns que dos outros.
É tarde já para tratar do caso: agora
importa uma só coisa - defender
uma revolução que ainda não houve,
como as conquistas que chegou a haver
(mas ajustando-as francamente à lei
de uma equidade justa, rechaçando
o quanto de loucuras se incitaram
em nome de um poder que ninguém tinha).
E vamos ao que importa: refazer
um Portugal possível em que o povo
realmente mande sem que o só manejem,
e sem que a escravidão volte à socapa
entre a delícia de pagar uma hipoteca
da casa nunca nossa e o prazer
de ter um frigorifico e automóveis dois.
Ah, povo, povo, quanto te enganaram
sonhando os sonhos que desaprenderas!
E quanto te assustaram uns e outros,
com esses sonhos e com o medo deles!
E vós, políticos de ouro de lei ou borra,
guardai no bolso imagens de outras Franças,
ou de Germânias, Rússias, Cubas, outras Chinas,
ou de Estados Unidos que não crêem
que latinada hispânica mereça
mais que caudilhos com contas na Suíça.
Tomai nas vossas mãos o Portugal que tendes
tão dividido entre si mesmo. Adiante.
Com tacto e com fineza. E com esperança.
E com um perdão que há que pedir ao povo.
E vós, ó militares, para o quartel
(sem que, no entanto, vos deixeis purgar
ao ponto de não serdes o que deveis ser:
garantes de uma ordem democrática
em que a direita não consiga nunca
ditar uma ordem sem democracia).
E tu, canção-mensagem, vai e diz
o que disseste a quem quiser ouvir-te.
E se os puristas da poesia te acusarem
de seres discursiva e não galante
em graças de invenção e de linguagem,
manda-os àquela parte. Não é tempo
para tratar de poéticas agora.

Santa Bárbara, Fevereiro 1976 (aniversário de uma tentativa heróica de conter uma noite que duraria décadas), publicado in Quarenta Anos de Servidão (1979) - Jorge de Sena







Fontes várias, entre elas:
- [BU: Sena]: Biblioteca/Enciclopédia Universal da Texto Editores. Entrada: Jorge de Sena
- [Canaveira]: Manuel Filipe Canaveira, trabalho publicado num destacável d’ “O Jornal”, de 10MAI1991
- [Info: Sena]: Infopédia, a enciclopédia online da Porto Editora. Entrada: Jorge de Sena
- [Info: Cadernos]: Infopédia, a enciclopédia online da Porto Editora: entrada Cadernos de poesia
- [Ler Sena]: Ler Jorge de Sena/Antologias/Universidade Federal do Rio de Janeiro
- [Poetas do séc.XX]: Poetas do séc.XX - 2 - Presentation Transcript
(nº da ficha)| Português – 10º ano | Poetas do Séc. XX – Jorge de Sena e Sophia de Mello Breyner Dina Baptista | www.sebentadigital.com EB 2,3/S de Vale de Cambra 2010 /2011
- [Wiki: Arquíloco]: Wikipédia, a enciclopédia livre. Entrada: Arquíloco
- [Wiki: Sena]: Wikipédia, a enciclopédia livre. Entrada: Jorge de Sena






terça-feira, junho 05, 2012

MEMÓRIA DO TEMPO QUE PASSA - II




Completaram-se ontem 34 anos, foi no DM 04.06.1978: morreu em Santa Bárbara, Califórnia, Jorge de Sena, engenheiro civil, escritor, poeta, ficcionista, dramaturgo, ensaísta, crítico, tradutor e professor universitário português, a cinco meses de completar os 59 anos.
Continuação…

Nos anos 50 a produção literária de Jorge de Sena cresce em complexidade, extensão e em profundidade, sendo de então algumas das suas mais conhecidas obras poéticas (Metamorfoses, Evidências, Fidelidade). Como é de então a sua primeira tentativa de dramaturgo (O Indesejado) e, ainda, a sua organização da 3ª série antológica das Líricas Portuguesas. [Info: Sena]

O volume Evidências foi entusiasticamente saudado por David Mourão-Ferreira como uma “obra de categoria excepcional”.

Desta vergonha de existir ouvindo é o segundo soneto do livro Evidências (1955). Em geral o soneto não figura nas "entradas" de Jorge de Sena no Portugal Democrático. «No entanto, como lembra Douglas Mansur em seu verbete, é com estes 14 versos a sua primeira "aparição" no periódico: na página 5, do Portugal Democrático nº 29, de Outubro de1959, encimada pelo título de "Uma frente de batalha chamada poesia", ao lado de mais 6 poemas, assinados» por vários nomes como O'Neill, Gomes Ferreira e outros. «De organizador anónimo, a sucinta antologia (com textos datados de 1939 a 1958) é assim justificada: "Colhidos de livros e revistas publicados em Portugal, os poemas ora apresentados evidenciam a prolongada resistência oferecida pelos poetas à desumanização da sociedade portuguesa levada a efeito pelo regime de Salazar". Cumprem-se, deste modo, as directrizes do mensário, que, desde o "programa" estampado em seu primeiro número, declarava indissociável o político do cultural: "a cultura portuguesa, que nas últimas décadas tantos atentados tem sofrido, merecer-nos-á especial carinho".»

No prefácio, recorda Sena que, «uma vez impresso, As Evidências "foi logo apreendido pela PIDE [...] e só pode ser distribuído um mês depois, após repetidas visitas à Censura [...]. O livro era, além de subversivo, pornográfico". Para a imputada "subversão", certamente este segundo soneto muito teria contribuído...»:

Desta vergonha de existir ouvindo,
amordaçado, as vãs palavras belas,
por repetidas quanto mais traindo
tornadas vácuas da beleza delas;

desta vergonha de viver mentindo
só porque escuto o que dizeis com elas;
desta vergonha de assistir medindo
por elas as injúrias por trás delas

ao mesmo sangue com que foram feitas,
ao suor e ao sémen por que são eleitas
e à simples morte de chegar-se ao fim;

desta vergonha inominável grito
a própria vida com que às coisas fito:
Calai-vos, ímpios, que jurais por mim!

12.02.1954

Da obra Fidelidade deixo os seguintes poemas do autor: 

Diz-me devagar coisa nenhuma, assim
como a só presença com que me perdoas
esta fidelidade ao meu destino.
Quanto assim não digas é por mim
que o dizes. E os destinos vivem-se
com outra vida. Ou como solidão.
E quem lá entra? E quem lá pode estar
mais que o momento de estar só consigo?           

Diz-me assim devagar coisa nenhuma:
o que à morte se diria, se ela ouvisse,
ou se diria aos mortos se voltassem.

26.08.1956

Não hei-de morrer sem saber
qual a cor da liberdade.     

Eu não posso senão ser
desta terra em que nasci.
Embora ao mundo pertença
e sempre a verdade vença
qual será ser livre aqui
não hei-de morrer sem saber     

Trocaram tudo em maldade,
é quase um crime viver.
Mas, embora escondam tudo
e me queiram cego e mudo,
não hei-de morrer sem saber
qual a cor da liberdade    

09.12.1956

E de Metamorfoses recolhi o seguinte:

Camões dirige-se aos seus contemporâneos         

Podereis roubar-me tudo:
as ideias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas, os temas, os motivos,
os símbolos, e a primazia
nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimento de outros, na coragem
de combater, julgar, de penetrar
em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
será terrível. Não só quando
vossos netos não souberem já quem sois
terão de me saber melhor ainda
do que fingis que não sabeis,
como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
reverterá para o meu nome. E, mesmo será meu,
tido por meu, contado como meu,
até mesmo aquele pouco e miserável
que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
que um vosso esqueleto há-de ser buscado,
para passar por meu. E para outros ladrões,
iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.     

11.06.1961
[Ler Jorge de Sena]

Quanto às Líricas Portuguesas, trata-se, agora, da 3ª série de um projecto, para já, trisseriado que visa apresentar uma colectânea da poesia lírica portuguesa desde as suas origens à actualidade.
A 1ª série abrange autores desde os cancioneiros medievais até ao 1º quartel do séc. XX e foi organizada por José Régio. A 2ª série, compilada por Cabral do Nascimento, abrange autores nascidos entre 1859 e 1908.
A 3ª série, organizada por Jorge de Sena, foi publicada em 1958. Segundo Sena explica no prefácio à 1ª edição desta série, ela compreende duas partes: uma primeira que reúne oito autores que deveriam ter figurado na 2ª série (entre eles, Irene Lisboa, Almada-Negreiros e António Botto) e uma segunda parte que engloba 65 poetas nascidos entre 1909 e 1929. Entre eles: António Gedeão, Manuel da Fonseca, Joaquim Namorado, Ruy Cinatti, Mário Dionísio, Fernando Namora, Jorge de Sena, Sophia de Mello Breyner, Natércia Freire, Eugénio de Andrade, Mário Cesariny de Vasconcelos, Natália Correia, Pinheiro Torres, Sebastião da Gama, Ramos Rosa, O'Neill, Mourão-Ferreira e Ana Hatherly.

A atitude humanista de Jorge de Sena e o seu “espírito de inconformismo contra a ditadura fascista levaram-no, em 1959, após o envolvimento numa tentativa falhada de golpe de Estado militar contra o regime salazarista, a optar por um exílio voluntário no Brasil”, onde, por razões profissionais, se naturalizou brasileiro em 1963. [Info: Sena] E também daqui, com a instalação da Ditadura Militar em Março de 1964, ao sentir a liberdade ameaçada, emigra para os EUA.

No Brasil vive 6 anos como professor universitário de Literatura Portuguesa e de Teoria da Literatura, em S. Paulo. [Info: Sena]. Simultaneamente publica uma série de ensaios, como o Da Poesia Portuguesa, e desmultiplica-se em congressos e conferências várias a par da redacção do periódico Portugal Democrático, onde denuncia a ditadura da lusa pátria. É aí que, em 1961, publica o primeiro volume da sua obra poética completa, tendo no ano anterior publicado o seu primeiro livro de ficção, Andanças do Demónio (contos), e em 1964 faz o doutoramento em Letras, defendendo a tese Os Sonetos de Camões e o Soneto Quinhentista Peninsular”, tendo obtido o título académico "com distinção e louvor". No ano seguinte, designadamente por razões políticas, transfere-se para a Universidade do Wisconsin, Madison, nos Estados Unidos, onde seria nomeado professor catedrático de Literatura Portuguesa e Brasileira. E, 5 anos volvidos, migra para a Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara, onde, em 1972, viria a ser nomeado chefe do departamento de Literatura Comparada e, em 1975, chefe do Departamento de Espanhol e Português.

Aquando da primeira visita autorizada a Portugal em nove anos de exílio, entre 1968 e 1969, Sena publica os volumes de poesia Arte de Música e Peregrinatio ad Loca Infecta. E no ano da sua morte, 1978, vieram a público, revistos pelo autor, os volumes Poesia II e Poesia III, a que se seguiriam, postumamente, os volumes 40 Anos de Servidão e Post-Scriptum II.

Entretanto dera-se o 25 de Abril e Jorge de Sena, entusiasmado, queria regressar definitivamente a Portugal, ansioso de dar a sua colaboração para a construção da democracia. Visitou, então, o país, que o recebeu com homenagens públicas e onde foi condecorado (como o seria a título póstumo), mas não recebeu qualquer convite para aqui exercer o seu ministério. Desiludido e magoado, voltou aos EU, onde morreria 4 anos depois. [Wiki: Sena]

De Peregrinatio ad Loca Infecta deixo os seguintes versos:

Quem muito viu, sofreu, passou trabalhos,
mágoas, humilhações, tristes surpresas;
e foi traído, e foi roubado, e foi
privado em extremo da justiça justa;          

e andou terras e gentes, conheceu
os mundos e submundos; e viveu
dentro de si o amor de ter criado;
quem tudo leu e amou, quem tudo foi -        

não sabe nada, nem triunfar lhe cabe
em sorte como a todos os que vivem.
Apenas não viver lhe dava tudo.       

Inquieto e franco, altivo e carinhoso,
será sempre sem pátria. E a própria morte,
quando o buscar, há-de encontrá-lo morto.

1961

De entre a sua extensa bibliografia destaco as seguintes obras (algumas já antes referidas): poesia: Perseguição (1942), Coroa da Terra (1946), Pedra Filosofal (1950), Metamorfoses (1963), Peregrinatio ad Loca Infecta (1969) e Conheço o Sal... e Outros Poemas (1974). Teatro: O Indesejado (António, Rui) (1951) Amparo de Mãe e mais Cinco Peças em Um Acto (1974, sendo cada um dos textos incluídos neste volume escrito antes desta data); deixou algumas peças inacabadas. Ficção em prosa: Andanças do Demónio (1960), O Físico Prodigioso (1977), Sinais de Fogo (1979) e Génesis (1983). Ensaios: Da Poesia Portuguesa (1959), O Reino da Estupidez (1961-1978) e Poesia de 26 Séculos (1971-1972). [BU: Sena]
Mais famoso é o seu “romance autobiográfico Sinais de Fogo, adaptado ao cinema em 1995 por Luís Filipe Rocha.” [Wiki: Sena]
Em 1999, foi publicado um livro com inéditos do escritor, Dedicácias, obra que reúne poemas satíricos, quase todos com destinatários identificados, e vários desenhos inéditos.
Em 2002, é publicado
Poesia 26 Séculos de Arquíloco a Nietzche. [BU: Sena]


«Arquíloco foi um poeta lírico e soldado grego que viveu na primeira metade do século VII a.C. (talvez entre anos de 680 a.C. e 645 a.C.). Os antigos colocavam-no em pé de igualdade com o próprio Homero.»  [Wiki: Arquíloco]



… continua amanhã, QA 06.06.2012…

segunda-feira, junho 04, 2012

MEMÓRIA DO TEMPO QUE PASSA - I




Como sempre, recordo:

Este é o espaço em que,
habitualmente,
faço algumas incursões pelo mundo da História.
Recordo factos, revejo acontecimentos,
visito ou revisito lugares,
encontro ou reencontro personalidades e lembro datas.
Datas que são de boa recordação, umas;
outras, de má memória.
Mas é de todos estes eventos e personagens que a História é feita.
Aqui,
as datas são o pretexto para este mergulho no passado.
Que, por vezes,
ajudam a melhor entender o presente
e a prevenir o futuro.

.
ESTÁ EM CURSO O 12º ANO DO 3º MILÉNIO
ESTAMOS NA SEGUNDA-FEIRA DIA 04 DE JUNHO DE 2012 (MMXII) DO CALENDÁRIO GREGORIANO

Que corresponde ao
Ano de 2765 Ab Urbe Condita (da fundação de Roma)
Ano 4709 do calendário chinês
Ano 5772 do calendário hebraico
Ano 1434 da Hégira (calendário islâmico)

Mais:
DE ACORDO COM A TRADIÇÃO, COM O CALENDÁRIO DA ONU OU COM A AGENDA DA UNESCO:
De 2003 a 2012 - Década da Alfabetização: Educação para Todos.
de 2005 a 2014 - Década das Nações Unidas para a Educação do Desenvolvimento Sustentável.
de 2005 a 2015 - Década Internacional "Água para a Vida".

Por outro lado
2012 é o
ANO EUROPEU DO ENVELHECIMENTO ACTIVO E DA SOLIDARIEDADE ENTRE GERAÇÕES
ANO INTERNACIONAL DA ENERGIA SUSTENTÁVEL PARA TODOS
ANO INTERNACIONAL DA AGRICULTURA FAMILIAR
ANO INTERNACIONAL DAS COOPERATIVAS

E HOJE É O
DIA INTERNACIONAL DAS CRIANÇAS VÍTIMAS INOCENTES DE AGRESSÃO

Não hei-de morrer sem saber
qual a cor da liberdade.

Eu não posso senão ser
desta terra em que nasci.
Jorge de Sena, Fidelidade

Jorge de Sena

Completam-se hoje 34 anos, foi no DM 04.06.1978: morreu em Santa Bárbara, Califórnia, Jorge de Sena, engenheiro civil, escritor, poeta, ficcionista, dramaturgo, ensaísta, crítico, tradutor e professor universitário português, a cinco meses de completar os 59 anos.

Em Portugal o general Ramalho Eanes (um dos oficiais do Grupo dos Nove) cumpria o seu 1º mandato (de dois consecutivos) como Presidente da República, tendo sido o primeiro constitucionalmente eleito, por sufrágio directo, ao abrigo da Constituição de 1976. E estava em funções o II Governo Constitucional, desde 23 de Janeiro de 1978, liderado por Mário Soares, o seu 2º de três governos constitucionais a que presidiu. A sua formação resultou de um acordo de incidência parlamentar entre o PS e o CDS, tendo, para isso, Mário Soares “metido o socialismo na gaveta”. Governo que caiu aos 29 de Agosto de 1978 dado que o CDS rompeu o acordo com o PS. Seguiram-se 3 governos constitucionais de iniciativa presidencial (III, de Nobre da Costa; IV, de Mota Pinto e V, de Maria de Lurdes Pintasilgo).
Nos EUA, onde Jorge de Sena morreu, decorria o 1º e único mandato do 39º Presidente, o Democrata Jimmy Carter.
Em Espanha reinava já o actual monarca, Juan Carlos, filho do Conde de Barcelona e neto de Afonso XIII, da Casa de Bourbon, e Presidente do Governo era Adolfo Suárez.
No Reino Unido decorria já o longo reinado (desde 06.02.52) da actual monarca, Isabel II (66) da Casa de Windsor, e primeiro-ministro era James Callaghan do Partido Trabalhista.
Em França governava o presidente Valéry Giscard d'Estaing, da V República e primeiro-ministro era Raymond Barre.
O presidente da Itália era Giovanni Leone, da Democracia Cristã, que se demitiria nove dias depois (15.06.1978) e primeiro-ministro era o democrata cristão Giulio Andreotti, no segundo dos seus três governos sucessivos e um dos 5 não consecutivos.
Presidente da então República Federal da Alemanha era Walter Scheel, do Partido Liberal Democrático (FDP), hoje o ex-chefe de Estado da Alemanha mais velho de todos os tempos, e chanceler era o social-democrata Helmut Schmidt (do SPD).
Derrubada a ditadura e restaurada a democracia, em 1974, um segundo referendo, desse mesmo ano, confirmou a abolição da monarquia e o estabelecimento da actual república parlamentar, a Terceira República Helénica, com, nesta altura, Constantino Tsatsos como seu segundo presidente, apoiado pelo partido Nova Democracia, e primeiro-ministro era Konstantínos G. Karamanlís, do Partido Nova Democracia.
Na Bélgica reinava Balduíno I, irmão mais velho e antecessor do actual monarca, o rei Alberto II, ambos da Casa de Saxe-Coburgo-Gota e primeiro-ministro era Leo Tindemans.
Na, então, União Soviética o dirigente máximo era Leonid Brezhnev, Secretário-geral do PCUS.
Pontificava Paulo VI (262º).

O ano de 1978 é o ano em que, designadamente:
11JAN: o presidente da República da Guiné-Bissau, Luís Cabral, inicia uma visita oficial a Portugal.
28JAN: decorre, em Lisboa, a Convenção Nacional da UEDS (União de Esquerda Democrática e Socialista).
30JAN: caído o I Governo Constitucional, por ter sido rejeitada pela AR uma moção de confiança que lhe apresentara, é empossado o II Governo Constitucional, também presidido por Mário Soares. Este governo resultou de um acordo de incidência parlamentar entre o PS e o CDS, e manteve-se em funções até 28AGO1978.
20FEV: morre Vitorino Nemésio, açoriano, escritor e professor universitário, autor de “Mau Tempo no Canal”.
21FEV: o rei Olavo, da Noruega, inicia uma visita oficial a Portugal.
17MAR: um violento incêndio destrói a Faculdade de Ciências de Lisboa, incluindo o Museu de História Natural, bibliotecas e laboratórios.
31MAR: o presidente da AR, Vasco da Gama Fernandes, participa, em Madrid, no congresso de deputados que aprova o novo Tratado de Amizade e Cooperação entre Portugal e Espanha.
03MAI: o rei de Espanha, Juan Carlos, inicia uma visita oficial a Portugal procedendo à ratificação do Tratado de Amizade e Cooperação entre os dois países ibéricos.
17MAI1978: feita a tradução de Os Bichos, de Miguel Torga, para francês, a obra é premiada em França.
26JUN: os presidentes da República de Portugal e Angola, Ramalho Eanes e Agostinho Neto, e os respectivos ministros dos Negócios Estrangeiros, participam na cerimónia da assinatura do Acordo Geral de Cooperação entre os dois países.
06AGO: morre Paulo VI, aos 80 anos.
10AGO: Ramalho Eanes assiste, no Vaticano, às solenes exéquias do Papa Paulo VI.
26AGO: o cardeal Albino Luciani foi eleito Papa, com 65 anos. João Paulo I foi o nome que adoptou, em homenagem aos seus imediatos antecessores.
Italiano, como todos os papas nos últimos séculos, nasceu na região de Veneza em 17OUT1912. E morreu trinta e três dias depois da sua eleição, a 28SET1978, perto de fazer 66 anos.

O ano de 1978 foi um ano em que houve três papas: Paulo VI (262º), João Paulo I (263º) e João Paulo II (264º).
João Paulo I foi nomeado bispo por João XXIII em 1958, foi designado patriarca de Veneza em 1969, por Paulo VI, que o fez cardeal em 1973.
"Do seu pontificado de um mês [em bom rigor: 33 dias] ficou-nos o seu belo sorriso, mas alguns afirmam que "em nome de Deus este papa tinha de morrer". Oficialmente morreu de um enfarte do miocárdio quando lia deitado no seu leito" [Canaveira].

Poucos duvidam: foi assassinado! (Quanta unção e beatitude de algumas reverências não têm sido mais que a miserável máscara de seres repugnantes! Quantos solidéus não cobriram uns cérebros demoníacos e perversos! Quantas batinas [pretas, roxas, vermelhas ou brancas] não serviram para disfarçar uns monstros desprezíveis!).

28AGO1978: uma vez que o CDS rompeu o acordo com o PS, o presidente da República demitiu Mário Soares e apresentou à AR um governo de sua iniciativa: é o III Governo Constitucional, presidido pelo Engº Nobre da Costa, que toma posse no dia 29AGO. Mas este governo não viu ratificado o seu programa pela AR, e assim só dura 3 meses, até 22NOV1978.
27SET: é criado o curso superior de jornalismo na Universidade de Évora.
28SET: morre o Papa João Paulo I, com 65 anos.
16OUT: O cardeal polaco, que o século conheceu como Karol Josef Wojtyla foi eleito Papa, aos 58 anos, e adoptou o nome João Paulo II. Visitou todos os continentes e inúmeros países (alguns mais que uma vez, como Portugal). Nasceu a 18.05.1920 e morreu aos 02ABR2005, às 21:37 locais (em Lisboa: 20:37). É o 1º papa polaco e o primeiro não italiano desde há mais de 400 anos, desde 1522.
28OUT: nasce a UGT (União Geral de Trabalhadores), constituída por 43 sindicatos e 3 federações, de influência socialista e social-democrata.
30OUT: Teófilo Carvalho dos Santos é eleito presidente da AR.
31OUT: nasce o PSR (Partido Socialista Revolucionário), de formação trotskista.
06NOV: inaugurada, em Toronto, Canadá, uma exposição sobre Alexandre Herculano.
22NOV: o presidente da República convida o Prof Mota Pinto para formar o IV Governo Constitucional, que durou até 31JUL1979.
08DEZ1978: morre a política israelita Golda Meir.
10DEZ: comemora-se o 30º aniversário da adopção da Declaração Universal dos Direitos do Homem pela ONU.


Poeta, ficcionista, dramaturgo, ensaísta e historiador da cultura, Jorge de Sena (Jorge Cândido de Sena, de seu nome completo), nascido no DM 2 de Novembro de 1919 (1) e falecido no DM 4 de Junho de 1978, foi autor de uma obra marcada sobretudo pela reflexão humanista acerca da liberdade do Homem. "Pensador que sente e sentidor que pensa" (Eugénio Lisboa), os seus poemas partem geralmente de um objecto para fixar uma meditação sobre o "eu" e o seu lugar no mundo. [Info: Sena]
É um dos grandes nomes da poesia e do ensaísmo português da segunda metade do século XX.
[BU: Sena]

A partir de finais dos anos 30 iniciou uma actividade de crítico de arte, colaborando, designadamente, nas publicações Presença, Cadernos de Poesia (que dirigiu de 1951 a 1953), Portvcale, Seara Nova e Vértice, mantendo ainda colaboração regular no Diário Popular. Exerceu a par da sua actividade literária a de tradutor de poesia, divulgando, assim, em Portugal, poetas surrealistas e outros grandes nomes da cultura britânica, aos quais dedicou muitos estudos, assim como os dedicou a autores portugueses entre eles Fernando Pessoa e sobretudo Camões (A Poesia de Camões, Ensaio de Revelação da Dialéctica Camoniana, 1951; Uma Canção de Camões, 1956; Camões e os Maneiristas, 1961; A Estrutura de Os Lusíadas, 1971). [BU: Sena]

Nos seus verdes anos de aprendizagem de um “ofício”, Sena alimentava o íntimo sonho de seguir as pisadas do pai tornando-se oficial da marinha. Mas as coisas não lhe correram bem, e então formou-se em engenharia civil, na Universidade do Porto, em 1944.

Mas a sua paixão era a escrita e a literatura. É assim que ainda  estudante “publicou, sob o pseudónimo Teles de Abreu, as suas primeiras composições poéticas em periódicos como Presença e travou conhecimento com o grupo de poetas que viria a reunir-se em torno dos Cadernos de Poesia, convivendo, entre outros, com José Blanc de Portugal, Ruy Cinatti, Alberto Serpa e Casais Monteiro.” [Info: Sena] E com Sophia de Mello Breyner, que aí fez amizades com Jorge de Sena e com Cinatti, que os apresentou.

Cadernos de Poesia são uma revista literária, editada em Lisboa, de orientação eclética, que teve 3 séries, sendo a primeira (de 40 a 42) dirigida por Tomás Kim, José Blanc de Portugal e Ruy Cinatti.
Sob o lema "Poesia é só uma", o seu objectivo é "arquivar a actividade da poesia actual sem dependência de escolas ou grupos literários, estéticas ou doutrinas, fórmulas ou programas". [Info: Cadernos]
Aos Cadernos, Sena aparece associado em 1940. E é também nos anos 40 que ele colabora noutras publicações, como a Seara Nova. E é ainda nos Cadernos de Poesia, que ele publica (em 1942) a sua primeira obra poética, Peregrinação. [Info: Sena]

A meio da década de 40 deparamos com um Jorge de Sena a um tempo engenheiro e conferencista literário.
Sem filiação em quaisquer escolas literárias, delas recebeu, contudo, influências, designadamente – como era mais notório – do surrealismo, mormente em aspectos técnicos. E conjugou, com particular mestria, “aspectos modernos da sua poesia” com “recursos da tradição medieval e renascentista, tornando a sua obra, simultaneamente, clássica e revolucionária.” [BU: Sena]

Além de que aderiu a um conceito de poesia que "com todos os seus ingredientes, recursos, apelos aos sentidos, resulta de um compromisso firmado entre um ser humano e o seu tempo, entre uma personalidade e uma sua consciência sensível do mundo, que mutuamente se definem". [Info: Sena]

Não raro levava a cabo, nos seus poemas, uma, por vezes corrosiva, outras vezes dorida sátira da realidade.
Aliás, numa entrevista de José Carlos de Vasconcelos/JCV a Sophia de Mello Breyner, acerca Sena, JCV define-o como «“um homem muito amargo, como se vê pela “correspondência”»

Entre os seus temas mais recorrentes contam-se os da morte, do amor e da experiência erótica, da relação entre o Homem e Deus, ou os deuses, da própria criação estética pela linguagem e, finalmente, de Portugal, nos seus mitos culturais, satirizando frequentemente aspectos provincianos ou saudosistas do entendimento do país e do seu povo no mundo. [BU: Sena]

… continua amanhã, TR 05.06.2012…





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