quarta-feira, junho 06, 2012

MEMÓRIA DO TEMPO QUE PASSA - III





Completaram-se anteontem 34 anos, foi no DM 04.06.1978: morreu em Santa Bárbara, Califórnia, Jorge de Sena, engenheiro civil, escritor, poeta, ficcionista, dramaturgo, ensaísta, crítico, tradutor e professor universitário português, a cinco meses de completar os 59 anos.
Continuação…



Por fim uma alusão à correspondência com Sophia de M. Breyner.


cópia de carta de Jorge de Sena para
Sophia de Mello Breyner

Acerca de Sophia, Jorge de Sena escreveu: "A poesia de Sofia de Melo Breyner Andresen é (…) uma das vozes mais nobres da poesia portuguesa do nosso tempo. Entendamos, por sob a música dos seus versos, um apelo generoso, uma comunhão humana, um calor de vida, uma franqueza rude no amor, um clamor irredutível de liberdade – aos quais, como o poeta ensina, devemos erguer-nos sem compromissos nem vacilações." (Jorge de Sena, "Alguns Poetas de 1938" in Colóquio Artes e Letras, nº 1, Janeiro de 1959)

Existe uma obra intitulada "Sophia de Mello Breyner. Jorge de Sena - Correspondência 1959-1978", da Editora Guerra & Paz.
«Dois dos maiores poetas portugueses, Sophia de Mello Breyner e Jorge de Sena, juntos numa obra rigorosamente inédita: “Sophia de Mello Breyner, Jorge de Sena – Correspondência” junta as cartas que os dois escritores trocaram de 1959, quando Sena partiu para o exílio, a 1978, data da morte do escritor. Uma correspondência BRILHANTE: Porque é o testemunho da profunda amizade entre duas famílias, (…); Porque é um libelo implacável contra a mesquinhez de parte do mundo cultural português [ditadura salazarista]; Porque é o retrato da luta política, ética e estética de dois criadores sublimes. Nas cartas de Sophia, nas cartas de Sena, de Cunhal a Agustina Bessa-Luís, de Urbano Tavares Rodrigues a Natália Correia, da corrida ao Nobel até aos assaltos da PIDE, o leitor encontra as grandes figuras e os grandes momentos da história de Portugal dos anos 60 e 70.» Da apresentação da obra, da Editora Guerra & Paz, no site da FNAC.

Duma edição daquela obra, de 2010, transcrevo a seguinte poesia, a nota que o precede e a citação da obra que o integra:

De Jorge de Sena Para Sophia de Mello Breyner

”A Sophia de Mello Breyner Andresen Enviando-lhe Um Exemplar De “Pedra Filosofal”

Filhos e versos, como os dás ao mundo?
Como na praia te conversam sombras de corais?
Como de angústia anoitecer profundo?
Como quem se reparte?
Como quem pode matar-te?
Ou como quem a ti não volta mais?

1950
Jorge de Sena, Peregrinatio ad loca infecta, 1969

Como transcrevo esta carta de Sophia para Jorge:

Carta a Jorge de Sena  
I
Não é navegador mas emigrante
Legítimo português de novecentos
Levaste contigo os teus e levaste
Sonhos fúrias trabalhos e saudade;
Moraste dia por dia a tua ausência
No mais profundo fundo das profundas
Cavernas altas onde o estar se esconde   

II
E agora chega a notícia que morreste
E algo se desloca em nossa vida   

(in Ilhas. Lisboa: Caminho, 2004, p 41-42)

Da sinopse da 2ª edição da "Correspondência", de 2006, da mesma Editora Guerra & Paz transcrevo: "Esta 2ª edição contem 2 novas cartas escritas por Sophia de Mello Breyner - que Jorge de Sena nunca chegou a receber - e um cartão postal enviada por Jorge de Sena a Sophia, a 19/2/1969, na viagem de regresso aos EUA, após a primeira visita que fez Portugal depois do seu exílio."

A “Correspondência” faz parte do programa de Português do 10º ano de escolaridade. Da apresentação trago estas passagens:

«O ENSINO É DAS FORMAS MAIS COMPLETAS DE REALIZAÇÃO PESSOAL

NA OPINIÃO DE JORGE DE SENA QUE ESTA TARDE CHEGA A LISBOA   
ENTREVISTA DE ABÍLIO DINIZ SILVA (Leitor de português na Sorbonne)
(Entrevista de 22.12.1968, in Diário de Lisboa)

Esta entrevista não passou despercebida à Policia Política do Governo Salazarista – PIDE.

“Não me arrependo de ter tido essas palavras
Tive-as, não as tenho mais, elas me têm a mim.”
Jorge de Sena, Pedra Filosofal»
(conteúdo de uma das 11 fichas sobre a matéria) [Poetas do séc.XX]

Uma outra ficha refere a colaboração Zeca Afonso/Jorge de Sena, com letra deste para uma canção com música do saudoso cantor que a interpreta e que integra o seu álbum VENHAM MAIS CINCO:

Roubam-me Deus
Outros o Diabo
Quem cantarei

Roubam-me a pátria
E a humanidade
Outros ma roubam
Quem cantarei

Sempre há quem roube
Quem eu deseje
E de mim mesmo
Todos me roubam
Quem cantarei
Quem cantarei

Roubam-me Deus
Outros o Diabo
Quem cantarei

Roubam-me a pátria
E a humanidade
Outros ma roubam
Quem cantarei

Roubam-me a voz
Quando me calo
Ou o silêncio
Mesmo se falo

Aqui d’el rei
Aqui d’el rei

(Jorge de Sena/José Afonso)               
A respectiva “cantiga” pode ouvi-la AQUI

Concluindo, o longo, vigoroso e corrosivo poema seniano dito com a força, a fremência que só um Mário Viegas (ou um Ary) sabiam pôr nos versos que diziam. Deixo poema e CLIP SONORO.

Não, não, não subscrevo, não assino
que a pouco e pouco tudo volte ao de antes,
como se golpes, contra-golpes, intentonas
(ou inventonas - armadilhas postas
da esquerda prá direita ou desta para aquela)
não fossem mais que preparar caminho
a parlamentos e governos que
irão secretamente pôr ramos de cravos
e não de rosas fatimosas mas de cravos
na tumba do profeta em Santa Comba,
enquanto pra salvar-se a inconomia
os empresários (ai que lindo termo,
com tudo o que de teatro nele soa)
irão voltar testas de ferro do
capitalismo que se usou de Portugal
para mão-de-obra barata dentro ou fora.
Tiveram todos culpa no chegar-se a isto:
infantilmente doentes de esquerdismo
e como sempre lendo nas cartilhas
que escritas fedem doutras realidades,
incompetentes competiram em
forçar revoluções, tomar poderes e tudo
numa ânsia de cadeiras, microfones,
a terra do vizinho, a casa dos ausentes,
e em moer do povo a paciência e os olhos
num exibir-se de redondas mesas
em televisas barbas de falácia imensa.
E todos eram povo e em nome del' falavam,
ou escreviam intragáveis prosas
em que o calão barato e as ideias caras
se misturavam sem clareza alguma
(no fim das contas estilo Estado Novo
apenas traduzido num calão de insulto
ao gosto e à inteligência dos ouvintes-povo).
Prendeu-se gente a todos os pretextos,
conforme o vento, a raiva ou a denúncia,
ou simplesmente (ó manes de outro tempo)
o abocanhar patriótico dos tachos.
Paralisou-se a vida do país no engano
de que os trabalhadores não devem trabalhar
senão em agitar-se em demandar salários
a que tinham direito mas sem que
houvesse produção com que pagá-los.
Até que um dia, à beira de uma guerra
civil (palavra cómica pois que
do lume os militares seriam quem tirava
para os civis a castanhinha assada),
tudo sumiu num aborto caricato
em que quase sem sangue ou risco de infecção
parteiras clandestinas apararam
no balde da cozinha um feto inexistente:
traindo-se uns aos outros ninguém tinha
(ó machos da porrada e do cacete)
realmente posto o membro na barriga
da pátria em perna aberta e lá deixado
semente que pegasse (o tempo todo
haviam-se exibido eufóricos de nus,
às Áfricas e às Europas de Oeste e Leste).
A isto se chegou. Foi criminoso?
Nem sequer isso, ou mais do que isso um guião
do filme que as direitas desejavam,
em que como num jogo de xadrez a esquerda
iria dando passo a passo as peças todas.
É tarde e não adianta que se diga ainda
(como antes já se disse) que o povo resistiu
a ser iluminado, esclarecido, e feito
a enfiar contente a roupa já talhada.
Se muita gente reagiu violenta
(com as direitas assoprando as brasas)
é porque as lutas intestinas (termo
extremamente adequado ao caso)
dos esquerdismos competindo o permitiram.
Também não vale a pena que se lave
a roupa suja em público: já houve
suficiente lavar que todavia
(curioso ponto) nunca mostrou inteira
quanta camisa à Salazar ou cueca de Caetano
usada foi por tanto entusiasta,
devotamente adepto de continuar ao sol
(há conversões honestas, sim, ai quantos santos
não foram antes grandes pecadores).
E que fazer agora? Choro e lágrimas?
Meter avestruzmente a cabeça na areia?
Pactuar na supremíssima conversa
de conciliar a casa lusitana,
com todos aos beijinhos e aos abraços?
Ir ao jantar de gala em que o Caetano,
o Spínola, o Vasco, o Otelo e os outros,
hão-de tocar seus copos de champanhe?
Ir já fazendo a mala para exílios?
Ou preparar uma bagagem mínima
para voltar a ser-se clandestino usando
a técnica do mártir (tão trágica porque
permite a demissão de agir-se à luz do mundo,
e de intervir directamente em tudo)?
Mas como é clandestina tanta gente
que toda a gente sabe quem já seja?
Só há uma saída: a confissão
(honesta ou calculada) de que erraram todos,
e o esforço de mostrar ao povo (que
mais assustaram que educaram sempre)
quão tudo perde se vos perde a vós.
Revolução havia que fazer.
Conquistas há que não pode deixar-se
que se dissolvam no ar tecnocrata
do oportunismo à espreita de eleições.
Pode bem ser que a esquerda ainda as ganhe,
ou pode ser que as perca. Em qualquer caso,
que ao povo seja dito de uma vez
como nas suas mãos o seu destino está
e não no das sereias bem cantantes
(desde a mais alta antiguidade é conhecido
que essas senhoras são reaccionárias,
com profissão de atrair ao naufrágio
o navegante intrépido). Que a esquerda
nem grite, que está rouca, nem invente
as serenatas para que não tem jeito.
Mas firme avance, e reate os laços rotos
entre ela mesma e o povo (que não é
aqueles milhares de fiéis que se transportam
de camioneta de um lugar pró outro).
Democracia é isso: uma arte do diálogo
mesmo entre surdos. Socialismo à força
em que a democracia se realiza.
Há muito socialismo: a gente sabe,
e quem mais goste de uns que dos outros.
É tarde já para tratar do caso: agora
importa uma só coisa - defender
uma revolução que ainda não houve,
como as conquistas que chegou a haver
(mas ajustando-as francamente à lei
de uma equidade justa, rechaçando
o quanto de loucuras se incitaram
em nome de um poder que ninguém tinha).
E vamos ao que importa: refazer
um Portugal possível em que o povo
realmente mande sem que o só manejem,
e sem que a escravidão volte à socapa
entre a delícia de pagar uma hipoteca
da casa nunca nossa e o prazer
de ter um frigorifico e automóveis dois.
Ah, povo, povo, quanto te enganaram
sonhando os sonhos que desaprenderas!
E quanto te assustaram uns e outros,
com esses sonhos e com o medo deles!
E vós, políticos de ouro de lei ou borra,
guardai no bolso imagens de outras Franças,
ou de Germânias, Rússias, Cubas, outras Chinas,
ou de Estados Unidos que não crêem
que latinada hispânica mereça
mais que caudilhos com contas na Suíça.
Tomai nas vossas mãos o Portugal que tendes
tão dividido entre si mesmo. Adiante.
Com tacto e com fineza. E com esperança.
E com um perdão que há que pedir ao povo.
E vós, ó militares, para o quartel
(sem que, no entanto, vos deixeis purgar
ao ponto de não serdes o que deveis ser:
garantes de uma ordem democrática
em que a direita não consiga nunca
ditar uma ordem sem democracia).
E tu, canção-mensagem, vai e diz
o que disseste a quem quiser ouvir-te.
E se os puristas da poesia te acusarem
de seres discursiva e não galante
em graças de invenção e de linguagem,
manda-os àquela parte. Não é tempo
para tratar de poéticas agora.

Santa Bárbara, Fevereiro 1976 (aniversário de uma tentativa heróica de conter uma noite que duraria décadas), publicado in Quarenta Anos de Servidão (1979) - Jorge de Sena







Fontes várias, entre elas:
- [BU: Sena]: Biblioteca/Enciclopédia Universal da Texto Editores. Entrada: Jorge de Sena
- [Canaveira]: Manuel Filipe Canaveira, trabalho publicado num destacável d’ “O Jornal”, de 10MAI1991
- [Info: Sena]: Infopédia, a enciclopédia online da Porto Editora. Entrada: Jorge de Sena
- [Info: Cadernos]: Infopédia, a enciclopédia online da Porto Editora: entrada Cadernos de poesia
- [Ler Sena]: Ler Jorge de Sena/Antologias/Universidade Federal do Rio de Janeiro
- [Poetas do séc.XX]: Poetas do séc.XX - 2 - Presentation Transcript
(nº da ficha)| Português – 10º ano | Poetas do Séc. XX – Jorge de Sena e Sophia de Mello Breyner Dina Baptista | www.sebentadigital.com EB 2,3/S de Vale de Cambra 2010 /2011
- [Wiki: Arquíloco]: Wikipédia, a enciclopédia livre. Entrada: Arquíloco
- [Wiki: Sena]: Wikipédia, a enciclopédia livre. Entrada: Jorge de Sena






terça-feira, junho 05, 2012

MEMÓRIA DO TEMPO QUE PASSA - II




Completaram-se ontem 34 anos, foi no DM 04.06.1978: morreu em Santa Bárbara, Califórnia, Jorge de Sena, engenheiro civil, escritor, poeta, ficcionista, dramaturgo, ensaísta, crítico, tradutor e professor universitário português, a cinco meses de completar os 59 anos.
Continuação…

Nos anos 50 a produção literária de Jorge de Sena cresce em complexidade, extensão e em profundidade, sendo de então algumas das suas mais conhecidas obras poéticas (Metamorfoses, Evidências, Fidelidade). Como é de então a sua primeira tentativa de dramaturgo (O Indesejado) e, ainda, a sua organização da 3ª série antológica das Líricas Portuguesas. [Info: Sena]

O volume Evidências foi entusiasticamente saudado por David Mourão-Ferreira como uma “obra de categoria excepcional”.

Desta vergonha de existir ouvindo é o segundo soneto do livro Evidências (1955). Em geral o soneto não figura nas "entradas" de Jorge de Sena no Portugal Democrático. «No entanto, como lembra Douglas Mansur em seu verbete, é com estes 14 versos a sua primeira "aparição" no periódico: na página 5, do Portugal Democrático nº 29, de Outubro de1959, encimada pelo título de "Uma frente de batalha chamada poesia", ao lado de mais 6 poemas, assinados» por vários nomes como O'Neill, Gomes Ferreira e outros. «De organizador anónimo, a sucinta antologia (com textos datados de 1939 a 1958) é assim justificada: "Colhidos de livros e revistas publicados em Portugal, os poemas ora apresentados evidenciam a prolongada resistência oferecida pelos poetas à desumanização da sociedade portuguesa levada a efeito pelo regime de Salazar". Cumprem-se, deste modo, as directrizes do mensário, que, desde o "programa" estampado em seu primeiro número, declarava indissociável o político do cultural: "a cultura portuguesa, que nas últimas décadas tantos atentados tem sofrido, merecer-nos-á especial carinho".»

No prefácio, recorda Sena que, «uma vez impresso, As Evidências "foi logo apreendido pela PIDE [...] e só pode ser distribuído um mês depois, após repetidas visitas à Censura [...]. O livro era, além de subversivo, pornográfico". Para a imputada "subversão", certamente este segundo soneto muito teria contribuído...»:

Desta vergonha de existir ouvindo,
amordaçado, as vãs palavras belas,
por repetidas quanto mais traindo
tornadas vácuas da beleza delas;

desta vergonha de viver mentindo
só porque escuto o que dizeis com elas;
desta vergonha de assistir medindo
por elas as injúrias por trás delas

ao mesmo sangue com que foram feitas,
ao suor e ao sémen por que são eleitas
e à simples morte de chegar-se ao fim;

desta vergonha inominável grito
a própria vida com que às coisas fito:
Calai-vos, ímpios, que jurais por mim!

12.02.1954

Da obra Fidelidade deixo os seguintes poemas do autor: 

Diz-me devagar coisa nenhuma, assim
como a só presença com que me perdoas
esta fidelidade ao meu destino.
Quanto assim não digas é por mim
que o dizes. E os destinos vivem-se
com outra vida. Ou como solidão.
E quem lá entra? E quem lá pode estar
mais que o momento de estar só consigo?           

Diz-me assim devagar coisa nenhuma:
o que à morte se diria, se ela ouvisse,
ou se diria aos mortos se voltassem.

26.08.1956

Não hei-de morrer sem saber
qual a cor da liberdade.     

Eu não posso senão ser
desta terra em que nasci.
Embora ao mundo pertença
e sempre a verdade vença
qual será ser livre aqui
não hei-de morrer sem saber     

Trocaram tudo em maldade,
é quase um crime viver.
Mas, embora escondam tudo
e me queiram cego e mudo,
não hei-de morrer sem saber
qual a cor da liberdade    

09.12.1956

E de Metamorfoses recolhi o seguinte:

Camões dirige-se aos seus contemporâneos         

Podereis roubar-me tudo:
as ideias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas, os temas, os motivos,
os símbolos, e a primazia
nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimento de outros, na coragem
de combater, julgar, de penetrar
em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
será terrível. Não só quando
vossos netos não souberem já quem sois
terão de me saber melhor ainda
do que fingis que não sabeis,
como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
reverterá para o meu nome. E, mesmo será meu,
tido por meu, contado como meu,
até mesmo aquele pouco e miserável
que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
que um vosso esqueleto há-de ser buscado,
para passar por meu. E para outros ladrões,
iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.     

11.06.1961
[Ler Jorge de Sena]

Quanto às Líricas Portuguesas, trata-se, agora, da 3ª série de um projecto, para já, trisseriado que visa apresentar uma colectânea da poesia lírica portuguesa desde as suas origens à actualidade.
A 1ª série abrange autores desde os cancioneiros medievais até ao 1º quartel do séc. XX e foi organizada por José Régio. A 2ª série, compilada por Cabral do Nascimento, abrange autores nascidos entre 1859 e 1908.
A 3ª série, organizada por Jorge de Sena, foi publicada em 1958. Segundo Sena explica no prefácio à 1ª edição desta série, ela compreende duas partes: uma primeira que reúne oito autores que deveriam ter figurado na 2ª série (entre eles, Irene Lisboa, Almada-Negreiros e António Botto) e uma segunda parte que engloba 65 poetas nascidos entre 1909 e 1929. Entre eles: António Gedeão, Manuel da Fonseca, Joaquim Namorado, Ruy Cinatti, Mário Dionísio, Fernando Namora, Jorge de Sena, Sophia de Mello Breyner, Natércia Freire, Eugénio de Andrade, Mário Cesariny de Vasconcelos, Natália Correia, Pinheiro Torres, Sebastião da Gama, Ramos Rosa, O'Neill, Mourão-Ferreira e Ana Hatherly.

A atitude humanista de Jorge de Sena e o seu “espírito de inconformismo contra a ditadura fascista levaram-no, em 1959, após o envolvimento numa tentativa falhada de golpe de Estado militar contra o regime salazarista, a optar por um exílio voluntário no Brasil”, onde, por razões profissionais, se naturalizou brasileiro em 1963. [Info: Sena] E também daqui, com a instalação da Ditadura Militar em Março de 1964, ao sentir a liberdade ameaçada, emigra para os EUA.

No Brasil vive 6 anos como professor universitário de Literatura Portuguesa e de Teoria da Literatura, em S. Paulo. [Info: Sena]. Simultaneamente publica uma série de ensaios, como o Da Poesia Portuguesa, e desmultiplica-se em congressos e conferências várias a par da redacção do periódico Portugal Democrático, onde denuncia a ditadura da lusa pátria. É aí que, em 1961, publica o primeiro volume da sua obra poética completa, tendo no ano anterior publicado o seu primeiro livro de ficção, Andanças do Demónio (contos), e em 1964 faz o doutoramento em Letras, defendendo a tese Os Sonetos de Camões e o Soneto Quinhentista Peninsular”, tendo obtido o título académico "com distinção e louvor". No ano seguinte, designadamente por razões políticas, transfere-se para a Universidade do Wisconsin, Madison, nos Estados Unidos, onde seria nomeado professor catedrático de Literatura Portuguesa e Brasileira. E, 5 anos volvidos, migra para a Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara, onde, em 1972, viria a ser nomeado chefe do departamento de Literatura Comparada e, em 1975, chefe do Departamento de Espanhol e Português.

Aquando da primeira visita autorizada a Portugal em nove anos de exílio, entre 1968 e 1969, Sena publica os volumes de poesia Arte de Música e Peregrinatio ad Loca Infecta. E no ano da sua morte, 1978, vieram a público, revistos pelo autor, os volumes Poesia II e Poesia III, a que se seguiriam, postumamente, os volumes 40 Anos de Servidão e Post-Scriptum II.

Entretanto dera-se o 25 de Abril e Jorge de Sena, entusiasmado, queria regressar definitivamente a Portugal, ansioso de dar a sua colaboração para a construção da democracia. Visitou, então, o país, que o recebeu com homenagens públicas e onde foi condecorado (como o seria a título póstumo), mas não recebeu qualquer convite para aqui exercer o seu ministério. Desiludido e magoado, voltou aos EU, onde morreria 4 anos depois. [Wiki: Sena]

De Peregrinatio ad Loca Infecta deixo os seguintes versos:

Quem muito viu, sofreu, passou trabalhos,
mágoas, humilhações, tristes surpresas;
e foi traído, e foi roubado, e foi
privado em extremo da justiça justa;          

e andou terras e gentes, conheceu
os mundos e submundos; e viveu
dentro de si o amor de ter criado;
quem tudo leu e amou, quem tudo foi -        

não sabe nada, nem triunfar lhe cabe
em sorte como a todos os que vivem.
Apenas não viver lhe dava tudo.       

Inquieto e franco, altivo e carinhoso,
será sempre sem pátria. E a própria morte,
quando o buscar, há-de encontrá-lo morto.

1961

De entre a sua extensa bibliografia destaco as seguintes obras (algumas já antes referidas): poesia: Perseguição (1942), Coroa da Terra (1946), Pedra Filosofal (1950), Metamorfoses (1963), Peregrinatio ad Loca Infecta (1969) e Conheço o Sal... e Outros Poemas (1974). Teatro: O Indesejado (António, Rui) (1951) Amparo de Mãe e mais Cinco Peças em Um Acto (1974, sendo cada um dos textos incluídos neste volume escrito antes desta data); deixou algumas peças inacabadas. Ficção em prosa: Andanças do Demónio (1960), O Físico Prodigioso (1977), Sinais de Fogo (1979) e Génesis (1983). Ensaios: Da Poesia Portuguesa (1959), O Reino da Estupidez (1961-1978) e Poesia de 26 Séculos (1971-1972). [BU: Sena]
Mais famoso é o seu “romance autobiográfico Sinais de Fogo, adaptado ao cinema em 1995 por Luís Filipe Rocha.” [Wiki: Sena]
Em 1999, foi publicado um livro com inéditos do escritor, Dedicácias, obra que reúne poemas satíricos, quase todos com destinatários identificados, e vários desenhos inéditos.
Em 2002, é publicado
Poesia 26 Séculos de Arquíloco a Nietzche. [BU: Sena]


«Arquíloco foi um poeta lírico e soldado grego que viveu na primeira metade do século VII a.C. (talvez entre anos de 680 a.C. e 645 a.C.). Os antigos colocavam-no em pé de igualdade com o próprio Homero.»  [Wiki: Arquíloco]



… continua amanhã, QA 06.06.2012…

segunda-feira, junho 04, 2012

MEMÓRIA DO TEMPO QUE PASSA - I




Como sempre, recordo:

Este é o espaço em que,
habitualmente,
faço algumas incursões pelo mundo da História.
Recordo factos, revejo acontecimentos,
visito ou revisito lugares,
encontro ou reencontro personalidades e lembro datas.
Datas que são de boa recordação, umas;
outras, de má memória.
Mas é de todos estes eventos e personagens que a História é feita.
Aqui,
as datas são o pretexto para este mergulho no passado.
Que, por vezes,
ajudam a melhor entender o presente
e a prevenir o futuro.

.
ESTÁ EM CURSO O 12º ANO DO 3º MILÉNIO
ESTAMOS NA SEGUNDA-FEIRA DIA 04 DE JUNHO DE 2012 (MMXII) DO CALENDÁRIO GREGORIANO

Que corresponde ao
Ano de 2765 Ab Urbe Condita (da fundação de Roma)
Ano 4709 do calendário chinês
Ano 5772 do calendário hebraico
Ano 1434 da Hégira (calendário islâmico)

Mais:
DE ACORDO COM A TRADIÇÃO, COM O CALENDÁRIO DA ONU OU COM A AGENDA DA UNESCO:
De 2003 a 2012 - Década da Alfabetização: Educação para Todos.
de 2005 a 2014 - Década das Nações Unidas para a Educação do Desenvolvimento Sustentável.
de 2005 a 2015 - Década Internacional "Água para a Vida".

Por outro lado
2012 é o
ANO EUROPEU DO ENVELHECIMENTO ACTIVO E DA SOLIDARIEDADE ENTRE GERAÇÕES
ANO INTERNACIONAL DA ENERGIA SUSTENTÁVEL PARA TODOS
ANO INTERNACIONAL DA AGRICULTURA FAMILIAR
ANO INTERNACIONAL DAS COOPERATIVAS

E HOJE É O
DIA INTERNACIONAL DAS CRIANÇAS VÍTIMAS INOCENTES DE AGRESSÃO

Não hei-de morrer sem saber
qual a cor da liberdade.

Eu não posso senão ser
desta terra em que nasci.
Jorge de Sena, Fidelidade

Jorge de Sena

Completam-se hoje 34 anos, foi no DM 04.06.1978: morreu em Santa Bárbara, Califórnia, Jorge de Sena, engenheiro civil, escritor, poeta, ficcionista, dramaturgo, ensaísta, crítico, tradutor e professor universitário português, a cinco meses de completar os 59 anos.

Em Portugal o general Ramalho Eanes (um dos oficiais do Grupo dos Nove) cumpria o seu 1º mandato (de dois consecutivos) como Presidente da República, tendo sido o primeiro constitucionalmente eleito, por sufrágio directo, ao abrigo da Constituição de 1976. E estava em funções o II Governo Constitucional, desde 23 de Janeiro de 1978, liderado por Mário Soares, o seu 2º de três governos constitucionais a que presidiu. A sua formação resultou de um acordo de incidência parlamentar entre o PS e o CDS, tendo, para isso, Mário Soares “metido o socialismo na gaveta”. Governo que caiu aos 29 de Agosto de 1978 dado que o CDS rompeu o acordo com o PS. Seguiram-se 3 governos constitucionais de iniciativa presidencial (III, de Nobre da Costa; IV, de Mota Pinto e V, de Maria de Lurdes Pintasilgo).
Nos EUA, onde Jorge de Sena morreu, decorria o 1º e único mandato do 39º Presidente, o Democrata Jimmy Carter.
Em Espanha reinava já o actual monarca, Juan Carlos, filho do Conde de Barcelona e neto de Afonso XIII, da Casa de Bourbon, e Presidente do Governo era Adolfo Suárez.
No Reino Unido decorria já o longo reinado (desde 06.02.52) da actual monarca, Isabel II (66) da Casa de Windsor, e primeiro-ministro era James Callaghan do Partido Trabalhista.
Em França governava o presidente Valéry Giscard d'Estaing, da V República e primeiro-ministro era Raymond Barre.
O presidente da Itália era Giovanni Leone, da Democracia Cristã, que se demitiria nove dias depois (15.06.1978) e primeiro-ministro era o democrata cristão Giulio Andreotti, no segundo dos seus três governos sucessivos e um dos 5 não consecutivos.
Presidente da então República Federal da Alemanha era Walter Scheel, do Partido Liberal Democrático (FDP), hoje o ex-chefe de Estado da Alemanha mais velho de todos os tempos, e chanceler era o social-democrata Helmut Schmidt (do SPD).
Derrubada a ditadura e restaurada a democracia, em 1974, um segundo referendo, desse mesmo ano, confirmou a abolição da monarquia e o estabelecimento da actual república parlamentar, a Terceira República Helénica, com, nesta altura, Constantino Tsatsos como seu segundo presidente, apoiado pelo partido Nova Democracia, e primeiro-ministro era Konstantínos G. Karamanlís, do Partido Nova Democracia.
Na Bélgica reinava Balduíno I, irmão mais velho e antecessor do actual monarca, o rei Alberto II, ambos da Casa de Saxe-Coburgo-Gota e primeiro-ministro era Leo Tindemans.
Na, então, União Soviética o dirigente máximo era Leonid Brezhnev, Secretário-geral do PCUS.
Pontificava Paulo VI (262º).

O ano de 1978 é o ano em que, designadamente:
11JAN: o presidente da República da Guiné-Bissau, Luís Cabral, inicia uma visita oficial a Portugal.
28JAN: decorre, em Lisboa, a Convenção Nacional da UEDS (União de Esquerda Democrática e Socialista).
30JAN: caído o I Governo Constitucional, por ter sido rejeitada pela AR uma moção de confiança que lhe apresentara, é empossado o II Governo Constitucional, também presidido por Mário Soares. Este governo resultou de um acordo de incidência parlamentar entre o PS e o CDS, e manteve-se em funções até 28AGO1978.
20FEV: morre Vitorino Nemésio, açoriano, escritor e professor universitário, autor de “Mau Tempo no Canal”.
21FEV: o rei Olavo, da Noruega, inicia uma visita oficial a Portugal.
17MAR: um violento incêndio destrói a Faculdade de Ciências de Lisboa, incluindo o Museu de História Natural, bibliotecas e laboratórios.
31MAR: o presidente da AR, Vasco da Gama Fernandes, participa, em Madrid, no congresso de deputados que aprova o novo Tratado de Amizade e Cooperação entre Portugal e Espanha.
03MAI: o rei de Espanha, Juan Carlos, inicia uma visita oficial a Portugal procedendo à ratificação do Tratado de Amizade e Cooperação entre os dois países ibéricos.
17MAI1978: feita a tradução de Os Bichos, de Miguel Torga, para francês, a obra é premiada em França.
26JUN: os presidentes da República de Portugal e Angola, Ramalho Eanes e Agostinho Neto, e os respectivos ministros dos Negócios Estrangeiros, participam na cerimónia da assinatura do Acordo Geral de Cooperação entre os dois países.
06AGO: morre Paulo VI, aos 80 anos.
10AGO: Ramalho Eanes assiste, no Vaticano, às solenes exéquias do Papa Paulo VI.
26AGO: o cardeal Albino Luciani foi eleito Papa, com 65 anos. João Paulo I foi o nome que adoptou, em homenagem aos seus imediatos antecessores.
Italiano, como todos os papas nos últimos séculos, nasceu na região de Veneza em 17OUT1912. E morreu trinta e três dias depois da sua eleição, a 28SET1978, perto de fazer 66 anos.

O ano de 1978 foi um ano em que houve três papas: Paulo VI (262º), João Paulo I (263º) e João Paulo II (264º).
João Paulo I foi nomeado bispo por João XXIII em 1958, foi designado patriarca de Veneza em 1969, por Paulo VI, que o fez cardeal em 1973.
"Do seu pontificado de um mês [em bom rigor: 33 dias] ficou-nos o seu belo sorriso, mas alguns afirmam que "em nome de Deus este papa tinha de morrer". Oficialmente morreu de um enfarte do miocárdio quando lia deitado no seu leito" [Canaveira].

Poucos duvidam: foi assassinado! (Quanta unção e beatitude de algumas reverências não têm sido mais que a miserável máscara de seres repugnantes! Quantos solidéus não cobriram uns cérebros demoníacos e perversos! Quantas batinas [pretas, roxas, vermelhas ou brancas] não serviram para disfarçar uns monstros desprezíveis!).

28AGO1978: uma vez que o CDS rompeu o acordo com o PS, o presidente da República demitiu Mário Soares e apresentou à AR um governo de sua iniciativa: é o III Governo Constitucional, presidido pelo Engº Nobre da Costa, que toma posse no dia 29AGO. Mas este governo não viu ratificado o seu programa pela AR, e assim só dura 3 meses, até 22NOV1978.
27SET: é criado o curso superior de jornalismo na Universidade de Évora.
28SET: morre o Papa João Paulo I, com 65 anos.
16OUT: O cardeal polaco, que o século conheceu como Karol Josef Wojtyla foi eleito Papa, aos 58 anos, e adoptou o nome João Paulo II. Visitou todos os continentes e inúmeros países (alguns mais que uma vez, como Portugal). Nasceu a 18.05.1920 e morreu aos 02ABR2005, às 21:37 locais (em Lisboa: 20:37). É o 1º papa polaco e o primeiro não italiano desde há mais de 400 anos, desde 1522.
28OUT: nasce a UGT (União Geral de Trabalhadores), constituída por 43 sindicatos e 3 federações, de influência socialista e social-democrata.
30OUT: Teófilo Carvalho dos Santos é eleito presidente da AR.
31OUT: nasce o PSR (Partido Socialista Revolucionário), de formação trotskista.
06NOV: inaugurada, em Toronto, Canadá, uma exposição sobre Alexandre Herculano.
22NOV: o presidente da República convida o Prof Mota Pinto para formar o IV Governo Constitucional, que durou até 31JUL1979.
08DEZ1978: morre a política israelita Golda Meir.
10DEZ: comemora-se o 30º aniversário da adopção da Declaração Universal dos Direitos do Homem pela ONU.


Poeta, ficcionista, dramaturgo, ensaísta e historiador da cultura, Jorge de Sena (Jorge Cândido de Sena, de seu nome completo), nascido no DM 2 de Novembro de 1919 (1) e falecido no DM 4 de Junho de 1978, foi autor de uma obra marcada sobretudo pela reflexão humanista acerca da liberdade do Homem. "Pensador que sente e sentidor que pensa" (Eugénio Lisboa), os seus poemas partem geralmente de um objecto para fixar uma meditação sobre o "eu" e o seu lugar no mundo. [Info: Sena]
É um dos grandes nomes da poesia e do ensaísmo português da segunda metade do século XX.
[BU: Sena]

A partir de finais dos anos 30 iniciou uma actividade de crítico de arte, colaborando, designadamente, nas publicações Presença, Cadernos de Poesia (que dirigiu de 1951 a 1953), Portvcale, Seara Nova e Vértice, mantendo ainda colaboração regular no Diário Popular. Exerceu a par da sua actividade literária a de tradutor de poesia, divulgando, assim, em Portugal, poetas surrealistas e outros grandes nomes da cultura britânica, aos quais dedicou muitos estudos, assim como os dedicou a autores portugueses entre eles Fernando Pessoa e sobretudo Camões (A Poesia de Camões, Ensaio de Revelação da Dialéctica Camoniana, 1951; Uma Canção de Camões, 1956; Camões e os Maneiristas, 1961; A Estrutura de Os Lusíadas, 1971). [BU: Sena]

Nos seus verdes anos de aprendizagem de um “ofício”, Sena alimentava o íntimo sonho de seguir as pisadas do pai tornando-se oficial da marinha. Mas as coisas não lhe correram bem, e então formou-se em engenharia civil, na Universidade do Porto, em 1944.

Mas a sua paixão era a escrita e a literatura. É assim que ainda  estudante “publicou, sob o pseudónimo Teles de Abreu, as suas primeiras composições poéticas em periódicos como Presença e travou conhecimento com o grupo de poetas que viria a reunir-se em torno dos Cadernos de Poesia, convivendo, entre outros, com José Blanc de Portugal, Ruy Cinatti, Alberto Serpa e Casais Monteiro.” [Info: Sena] E com Sophia de Mello Breyner, que aí fez amizades com Jorge de Sena e com Cinatti, que os apresentou.

Cadernos de Poesia são uma revista literária, editada em Lisboa, de orientação eclética, que teve 3 séries, sendo a primeira (de 40 a 42) dirigida por Tomás Kim, José Blanc de Portugal e Ruy Cinatti.
Sob o lema "Poesia é só uma", o seu objectivo é "arquivar a actividade da poesia actual sem dependência de escolas ou grupos literários, estéticas ou doutrinas, fórmulas ou programas". [Info: Cadernos]
Aos Cadernos, Sena aparece associado em 1940. E é também nos anos 40 que ele colabora noutras publicações, como a Seara Nova. E é ainda nos Cadernos de Poesia, que ele publica (em 1942) a sua primeira obra poética, Peregrinação. [Info: Sena]

A meio da década de 40 deparamos com um Jorge de Sena a um tempo engenheiro e conferencista literário.
Sem filiação em quaisquer escolas literárias, delas recebeu, contudo, influências, designadamente – como era mais notório – do surrealismo, mormente em aspectos técnicos. E conjugou, com particular mestria, “aspectos modernos da sua poesia” com “recursos da tradição medieval e renascentista, tornando a sua obra, simultaneamente, clássica e revolucionária.” [BU: Sena]

Além de que aderiu a um conceito de poesia que "com todos os seus ingredientes, recursos, apelos aos sentidos, resulta de um compromisso firmado entre um ser humano e o seu tempo, entre uma personalidade e uma sua consciência sensível do mundo, que mutuamente se definem". [Info: Sena]

Não raro levava a cabo, nos seus poemas, uma, por vezes corrosiva, outras vezes dorida sátira da realidade.
Aliás, numa entrevista de José Carlos de Vasconcelos/JCV a Sophia de Mello Breyner, acerca Sena, JCV define-o como «“um homem muito amargo, como se vê pela “correspondência”»

Entre os seus temas mais recorrentes contam-se os da morte, do amor e da experiência erótica, da relação entre o Homem e Deus, ou os deuses, da própria criação estética pela linguagem e, finalmente, de Portugal, nos seus mitos culturais, satirizando frequentemente aspectos provincianos ou saudosistas do entendimento do país e do seu povo no mundo. [BU: Sena]

… continua amanhã, TR 05.06.2012…





quarta-feira, maio 30, 2012

MEMÓRIA DO TEMPO QUE PASSA - III



Foi na SX 28.05.1926, fez anteontem 86 anos: deu-se o golpe de Estado liderado pelo general Gomes da Costa, com Mendes Cabeçadas e Óscar Carmona.
Continuação…


O golpe de Estado de 28.05.1926 determinou uma ditadura militar que se prolongou por sete anos. Ministro das Finanças nesse ínterim, e desde a eleição de Carmona para a presidência da República em 1928, era Oliveira Salazar, que aí começou a sua ascensão ao poder no qual se manteve em regime de ditadura até 1968, quando, por doença grave e incapacitante, foi substituído por Marcelo Caetano que prolongou o regime autoritário até à “Revolução dos Cravos”, em 25.04.1974, o golpe de Estado dirigido e levado a efeito pelo MFA/Movimento das Forças Armadas.

Com este golpe encerrava-se novo capítulo da República, que fora precedido de outro, o golpe de 05.12.1917, em que Sidónio Pais intentou substituir o regime parlamentar por um presidencialista, autoritário e corporativo. Para tanto, demitiu o presidente (Bernardino Machado), o Governo (da União Sagrada, liderado por Afonso Costa) e o Congresso, e proclama uma Junta revolucionária de que ele é presidente, fazendo-se eleger directamente em plebiscito, ao arrepio do disposto na Constituição (de 1911).
A Junta nomeia o Governo (de que fazem parte elementos da mesma junta, como Sidónio Pais e Machado dos Santos).

“Nesta nova arquitectura do sistema político, que os seus apoiantes designavam por República Nova, o Chefe de Estado era colocado numa posição de poder que não tinha paralelo na história portuguesa desde o fim do absolutismo monárquico. Daí o epíteto de Presidente-Rei que lhe foi aposto. Nos seus objectivos e em muitas das suas formas, a República Nova foi precursora do Estado Novo de António de Oliveira Salazar.” [Wiki: Sidónio]


“O Ministério da União Sagrada, ou simplesmente União Sagrada, foi um projecto político surgido em 16 de Março de 1916, uma semana após a declaração de guerra a Portugal pela Alemanha. Este projecto tinha por base a união de todos os partidos políticos, como resposta à nova conjuntura imposta pelos alemães.
Na prática, apenas dois partidos se uniram: o Partido Democrático, liderado por Afonso Costa, e o Partido Republicano Evolucionista, de António José de Almeida.
[Wiki: União]


O Governo da União Sagrada liderado por António José de Almeida foi um dos mais duradouros da Primeira República, vigorando de 16.03.1916 a 25.04.1917. Seguiu-se-lhe outro Governo da União, mas com Afonso Costa a dirigi-lo. Foi este que caiu com o golpe de Sidónio.

Em Setembro de 1918, porém, os regimes que se discutiam já eram outros: esgrimiam-se os defensores do instalado modelo presidencialista e os da restauração monárquica. Estes instituíram, mesmo, a “Monarquia do Norte”, em Janeiro de 1919, com sede no Porto.

É entretanto, em 14.12.1918, que Sidónio é assassinado na estação do Rossio pelos seus adversários políticos. “Este acto trouxe de volta a instabilidade política, desencadeou a fragmentação partidária e a insurreição popular que proporcionou a intervenção do exército contra a política republicana e, a prazo, a instauração de uma ditadura militar (1926).” [Info: Instauração]

Nos anos 20 manteve-se o sistema dito de “multipartidarismo imperfeito”, de partido dominante e o clima político era cada vez mais instável, enquanto a qualidade dos dirigentes e servidores do Estado se degradava a olhos vistos.

A consequência da instabilidade e da degradação foi a multiplicação dos movimentos revolucionários nos círculos militares, acontecendo as intentonas de 05.03, de 18.04 e de 19.06.1921, de menor importância, que se foram agudizando até que em Novembro de 1921 se começa a desenhar a conjuntura que conduziria ao 28.05.1926.

É assim que o liberalismo republicano é derrubado pelo golpe do 28 de Maio, “perpetrado por um exército politizado, sobretudo a partir da entrada de Portugal na Grande Guerra, mas pouco coeso porque se encontrava dividido em várias facções organizadas” (desde os republicanos conservadores, passando pelos chamados católicos sociais, que marcaram o século XIX, preparando o surgimento da primeira encíclica papal sobre a questão operária até aos fascistas). [Info: Instauração]

O regime que se havia de chamar salazarista consolidou-se, portanto, a partir da Ditadura Militar. Mas a ampla facção conservadora que a legitimava não era constituída por uma massa homogénea, donde que durante a Ditadura, e dentro dela, tivessem surgido conspirações e convulsões várias que se traduziram em golpes, palacianos, uns, outros revolucionários.
Estes os golpes e movimentos internos da Ditadura, porque os houve também, é claro, contra ela: vulgo "reviralhismo". O “reviralho” alimentou “uma guerra civil latente entre 1926 e 1933, que teve os seus momentos chave na revolta do Porto de 1927 (Fevereiro) liderada pelo General Sousa Dias e em 1931 nas revoltas da Madeira e de Lisboa. Contudo, estes actos serviram para mostrar que a resistência era um fenómeno urbano minoritário.”
[id]

Salazar, logo que escolhido para a Pasta das Finanças, em Abril de 1928, instituiu uma autêntica "ditadura financeira" (na expressão de António Costa Pinto), sobre o restante executivo, até assumir a presidência do Conselho (Julho de 1932).
No ano de 1930 foi instituída, por decreto de lei, a União Nacional, o partido único que congregava os movimentos civis que estavam na base de apoio do novo regime. E passados 3 anos foi plebiscitada a nova Constituição (1933), que transformava o país (colónias inclusas) numa República Unitária e Corporativa.
Portugal vivia então sob uma ditadura do "Presidente do Conselho". A Assembleia Nacional encontrava-se dominada pela União Nacional e na Presidência da República mantinha-se o general Carmona que defendia os interesses da classe militar. A Censura cortava ou manipulava as mensagens da oposição ou “calava-a”, a Polícia Política perseguia-a e os tribunais especiais - Tribunais Plenários - deportavam ou encarceravam os seus membros.


a Censura cortava ou manipulava as mensagens da oposição ou “calava-a”
(faça zoom e veja os textos, inclusive o provoca tório da Alfaiataria Moderna)

a PIDE perseguia-a
(cartoon não identificado mas que me parece ter o traço de Abel Manta)



… e os Tribunais Plenários deportavam ou encarceravam os seus membros 
(repare na mordaça do arguido)

Os cadernos eleitorais eram manipulados sem que se procurasse esconder esse facto e os “resultados esmagadores” de 99%.

O golpe de 1926 teve causas mais próximas, como o movimento de 18.04.1925: “um crescente descontentamento dos portugueses com a política do Partido Democrático que, desprovido da sua ala radical, se tornou num partido conservador e corrupto, alheio às causas da justiça social dos trabalhadores.” [Info: 1926]

Iniciado como mais um levantamento no seio da Primeira República Portuguesa em derrocada, o golpe de 28 de Maio de 1926, protagonizado por militares da 8ª Divisão, cujos 15 000 homens marcharam sobre Lisboa, veio originar o Estado Novo, formalizado com a aprovação da Constituição de 33, “um sistema político autoritário, antidemoliberal e anticomunista, nacionalista e corporativista, no contexto de uma lógica formalmente republicana que era concretizada, no dizer do manifesto da União Nacional de 1930, na ideia de uma República Nacional e Corporativa.” [Wiki: 1926]

Porém, em 9 de Julho do mesmo ano de 1926, Gomes da Costa foi deposto e a chefia ficou entregue aos generais Carmona e Sinel de Cordes. Com Carmona no Governo, é então que ele se torna a figura agregadora e de equilíbrio entre as duas facções que se confrontavam no interior do aparelho do Estado: uma que considerava a ditadura como uma instituição provisória que se encerrava com o saneamento que dela se esperava; outra: a que pretendia instaurar um regime autoritário definitivo.

Além disso, o Parlamento foi dissolvido e a Constituição suspensa. Instaurou-se então uma ditadura militar, na qual o Governo ficou com os poderes do Congresso e do Ministério, tendo exclusividade em matéria legislativa. “Foi na sequência deste golpe que chegou a presidente da República o general António Carmona e que se criaram os alicerces políticos e institucionais da ditadura que governou Portugal até aos inícios dos anos 70.” [Info: 1926]







Fontes: Diversas. Entre elas:
- [BU]: Biblioteca/Enciclopédia/Universal, da Texto Editores. Entrada: Ditadura
- [Info: 1926]: Infopédia, A Enciclopédia da Porto Editora. Entrada: Vinte e Oito de Maio de 1926]
- [Info: Instauração]: Infopédia, A Enciclopédia da Porto Editora. Entrada: Instauração do Regime Ditatorial
- [Maltez]: Leis Eleitorais, José Adelino Maltez, ISCSP/ Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, Universidade Técnica de Lisboa
- [Público]: Público de Domingo, 28 de Maio de 2006
- [Wiki: entre-guerras]: Wikipédia a enciclopédia livre. Entrada: Período entre-guerras
- [Wiki: Franco]: Wikipédia, a enciclopédia livre. Entrada: João Franco]
- [Wiki: progressista]: Wikipédia, a enciclopédia livre. Entrada: partido progressista
- [Wiki: Sidónio]: Wikipédia, a enciclopédia livre. Entrada: Sidónio Pais
- [Wiki: União]: Wikipédia, a enciclopédia livre. Entrada: União Sagrada





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