terça-feira, outubro 30, 2007

MEMÓRIA DO TEMPO QUE PASSA

O ano 2007 [MMVII] do calendário gregoriano corresponde ao:
. ano 1428/1429 dH do calendário islâmico (Hégira)
. ano 2760 Ab urbe condita (da fundação de Roma)
. ano 4703/4704 do calendário chinês
. ano 5767/5768 do calendário hebraico




DE ACORDO COM A TRADIÇÃO, COM O CALENDÁRIO DA ONU OU COM A AGENDA DA UNESCO:

2001/2010 - Década para Redução Gradual da Malária nos Países em Desenvolvimento, especialmente na África.
2001/2010 - Segunda Década Internacional para a Erradicação do Colonialismo.
2001/2010 - Década Internacional para a Cultura da Paz e não Violência para com as Crianças do Mundo.
2003/2012 - Década da Alfabetização: Educação para Todos.
2005/2014 - Década das Nações Unidas para a Educação do Desenvolvimento Sustentável.
2005/2015 - Década Internacional "Água para a Vida".
2007 Ano Internacional da Heliofísica


24Out a 31 Out - Semana do Desarmamento/Semana Mundial da Paz

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The Last Emperor/O Último Imperador
Bernardo Bertolucci, 1987


Aconteceu há 96 anos, na SG 30.10.1911: Pu-Yi, imperador da China com 5 anos de idade, jura uma nova Constituição, terminando oficialmente três séculos de domínio Manchu na China.
Nos EU decorria o mandato do 27º presidente William Howard Taft, do Partido Republicano. No trono do Reino Unido encontrava-se o avô da rainha Isabel II, Jorge V; e ao governo de SM presidia H. H. Asquith, do Partido Liberal. Na Rússia reinava o czar Nicolau II. Na Prússia reinava Guilherme II. Em França decorria a Terceira República, com Armand Fallières na chefia do Estado e Joseph Caillaux na liderança do governo. Em Portugal fora implantada a República, um ano antes, e era presidente Manuel de Arriaga – aliás, Manuel José de Arriaga Brum da Silveira e Peyrelongue (1840-1917) – do Partido Republicano (depois Partido Democrático), que foi o primeiro presidente da República Portuguesa constitucionalmente eleito, sendo o governo liderado por Pinheiro Chagas, do Partido Republicano, que foi o primeiro primeiro-ministro (designava-se então por presidente do Ministério) dum governo constitucional, da primeira República. À igreja romana presidia Pio X (257º).

Puyi ou Pu-Yi - Aising-Gioro Pu Yi - (Pequim, 1906 - Pequim, 1967), nascido na dinastia Qing, foi imperador da China de 1908 a 1911, quando foi forçado a abdicar. Isto é, dos 2 aos 5 anos.
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O rigor dos protocolos... A inflexibilidade de certas tradições...
Uma criança de 5 anos a jurar uma nova constituição!....
E é o gesto estudado (imposto), mecânico, inconsciente da criancinha
que acaba, assim, com séculos doutro domínio?
Tantas as crianças
– sobretudo de outros estratos sociais, onde, aí, sim, um verdadeiro drama –
que nunca tiveram “tempo” de ser crianças!
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Neste caso: os poderosos e os seus títeres pondo e dispondo a seu bel-prazer...
Mas uma criança, senhores!...

Veja-se uma sinopse do filme biográfico co-escrito e dirigido por Bertolucci
“Pequim 1908 - Um menino de três anos torna-se o Imperador do China. Seu nome é Pu Yi. Apenas três anos depois, a China passa a ser uma República. A dinastia Qing é forçada a abdicar e mais de três mil anos de domínio imperial chegam ao fim. A única pessoa que parece não compreender é o imperador do três anos de idade. À medida que cresce, Pu Yi é tratado como um deus. Mas aos dezoito anos é expulso da Cidade Proibida por um guerreiro republicano. Ajudado por seu amigo e preceptor, [Flemming Johnson] (Peter O`Toole) ele foge e abriga-se na legação japonesa. Depois de viver um bom período de boa vida, ele é convidado pelos japoneses a ser o Imperador da Manchúria. Pu Yi [John Lone] permanece no trono até ser capturado pelos russos, sendo então extraditado e entregue com prisioneiro à República Popular da China, permanecendo encarcerado por 10 anos. A história do último imperador da China é um conto de intriga, traição, guerra e desastre nacional. É também a história pessoal de um dos mais extraordinários antigos heróis dos tempos modernos.”

No filme, o papel de Wang Jung, sua primeira mulher, é desempenhado por Joan Chen.

Tendo como pano de fundo as transformações políticas e sociais que atingiram a China entre o final do século XIX e a instituição do governo socialista de Mao Tse Tung em 1949, O Último Imperador foi o primeiro filme que recebeu autorização do governo chinês para filmar na Cidade Proibida. Ganhou os Óscares de todas as categorias às quais foi indicado, nove. Pertence à terceira ordem de filmes mais premiados com as célebres estatuetas douradas da Academia (houve três filmes com 11 óscares, dois com 10 e três com 9).

quarta-feira, outubro 17, 2007

MEMÓRIA DO TEMPO QUE PASSA

O ano 2007 [MMVII] do calendário gregoriano corresponde ao:
. ano 1428/1429 dH do calendário islâmico (Hégira)
. ano 2760 Ab urbe condita (da fundação de Roma)
. ano 4703/4704 do calendário chinês
. ano 5767/5768 do calendário hebraico

DE ACORDO COM A TRADIÇÃO, COM O CALENDÁRIO DA ONU OU COM A AGENDA DA UNESCO:

2001/2010 - Década para Redução Gradual da Malária nos Países em Desenvolvimento, especialmente na África.
2001/2010 - Segunda Década Internacional para a Erradicação do Colonialismo.
2001/2010 - Década Internacional para a Cultura da Paz e não Violência para com as Crianças do Mundo.
2003/2012 - Década da Alfabetização: Educação para Todos.
2005/2014 - Década das Nações Unidas para a Educação do Desenvolvimento Sustentável.
2005/2015 - Década Internacional "Água para a Vida".
2007 Ano Internacional da Heliofísica

Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza


imagem Wikipédia

"O meu maior sonho é ser pobre um dia!
Porque ser todos os dias, é terrível”

(Anónimo)



Aconteceu há vinte anos, no SB 17 de Outubro de 1987: milhares e milhares de cidadãos reuniram-se na Praça do Trocadéro, em Paris, para comemorar a assinatura da Declaração Universal dos Direitos Humanos e para proclamar que a pobreza extrema é uma violação desses direitos fundamentais. A mensagem que, então, passaram, em essência, foi a seguinte: "Onde os Homens estão condenados a viver na miséria, aí os Direitos Humanos são violados. Unir-se para os fazer respeitar é um dever sagrado"

Acontecera, realmente, que na SX 10 de dezembro de 1948 a Declaração Universal dos Direitos Humanos foi adoptada e proclamada pela Assembleia Geral das Nações Unidas na sua Resolução 217 A (III), como resposta às atrocidades da Segunda Guerra Mundial.

Aí, naquela manifestação de Paris, de há vinte anos, a origem da criação do dia internacional que hoje passa.
Numa perspectiva mais abrangente, alguns designam-no por
Dia Mundial contra a Pobreza e Exclusão Social.


Uma das consequências da pobreza é a fome. E, acerca da fome, já em 1946 um nome enorme nestas matérias, Josué de Castro, escrevia a sua impressionante, mais constatatória que premonitória, “Geografia da Fome”.

É da recordação desse nome e dessa obra que se ocupa o seguinte excerto:
“No Portugal dos anos 60, quando da Guinness mal conhecíamos a cerveja, quanto mais os recordes, um livro de capa vermelha chamou a atenção de muitos. Chamava-se Geografia da Fome e era assinado por Josué de Castro. Lido num repente, tornou-se peça essencial na formação de muitos espíritos e muitas mentes. Dizia assim, no prefácio (a primeira edição era de 1946): "O assunto deste livro é bastante delicado e perigoso. A tal ponto delicado e perigoso que se constituiu num dos tabus de nossa civilização. É realmente estranho, chocante o fato de que, num mundo como o nosso, caracterizado por tão excessiva capacidade de escrever-se e publicar-se, haja até hoje tão pouca coisa escrita acerca do fenómeno da fome, em suas diferentes manifestações." Josué era brasileiro, pernambucano (o centenário do seu nascimento há-de comemorar-se em 2008, a 5 de Setembro) e as suas palavras punham o mundo de alerta.”
(Crónica de hoje, de Nuno Pacheco, no Público)

Traduzidas em números essas realidades (pobreza, fome, exclusão), tais valores são esmagadores. Impresionantes.

“50 mil pessoas morrem diariamente devido a causas relacionadas com a pobreza e 854 milhões de pessoas passam fome, apesar de a produção alimentar mundial ser suficiente” –
confirma Sofia Branco no trabalho abaixo mencionado.

Actualmente, cerca de 19% da população portuguesa (dois milhões e cem mil) é pobre. E 740 mil têm menos de seis euros por dia!
Confirmam os noticiários.

“São oito os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio (ODM) que as Nações Unidas declararam em 2000 que queriam ver cumpridos até 2015. A erradicação da pobreza não é só o primeiro enunciado, é também o único que, se não for atingido, impede a realização de todos os outros.Porque ser pobre não é só não ter dinheiro suficiente para comer ou não dispor de um abrigo. É também não ter possibilidades para estudar. Não ter emprego e não saber o que vai ser o dia seguinte. É estar doente e não poder pagar uma consulta no médico nem tratamentos. Ou perder uma criança no parto por falta de cuidados de saúde.”
(Reporta Sofia Branco, hoje, também no Público)


imagem Público

Tirânicas são as sociedades que fiscalizam, pedem, exigem, obtêm, legalizam, legislam, puncionam, retêm, subtraem, impõem, taxam, quando não perseguem, param, constrangem e prendem para, depois, se declararem incapazes de oferecer o mínimo ao cidadão que terão despojado, roubado, despido, desnudado.
Michel Onfray
(Texto transcrito do blogue “antologia do esquecimento” que todos conhecem por “Insónia”, post de 17.10.2005)



O cidadão médio de um país desenvolvido goza de uma riqueza superior aos sonhos mais loucos de 1000 milhões de pessoas que vivem em países com um rendimento per capita inferior a 200 dólares. São estes, portanto, os países e os indivíduos que têm uma riqueza tal que podiam, sem ameaçar o seu próprio bem-estar, transferir uma parte para os pobres absolutos.
Robert McNamara
(Id)


O HORROR DE SER POBRE
Risco c’um traço
(um traço fino, sem azedume)
todos os que conheço, eu mesmo incluído.
Para todos estes não me verão
Nunca mais
Olhar com azedume.
O horror de ser pobre!
Muitos gabavam-se que aguentariam, mas era ver-
-lhes as caras alguns anos depois!
Cheiros de latrina e papéis de parede podres
Atiravam abaixo homens de peitaça larga como toiros.
As couves aguadas
Destroem planos que fazem forte um povo.
Sem água de banho, solidão e tabaco
Nada há que exigir.
O desprezo do público
Arruína o espinhaço.
O pobre
Nunca está sozinho. Estão todos sempre
A espreitar-lhe pra o quarto. Abrem-lhe buracos
No prato da comida. Não sabe pra onde há-de ir.
O céu é o seu teto, e chove-lhe lá pra dentro.
A Terra enxota-o. O vento
Não o conhece. A noite faz dele um aleijado. O dia
Deixa-o nu. Nada é o dinheiro que se tem. Não salva ninguém.
Mas nada ajuda
Quem dinheiro não tem.
Bertolt Brecht, in Poemas e Canções, selecção e versão portuguesa de Paulo Quintela, Livraria Almedina, Coimbra, Outubro e 1975.
(Id)

Se o autor de qualquer dos excertos acabados de passar dispensa apresentações, parece-me que o de Bertolt Brecht menos as exige.
Michel Onfray, nascido em 1 de Janeiro de 1959, é um filósofo francês. Afirmam muitos que é, mesmo, o filósofo francês mais lido da actualidade e o mais popular.
Robert McNamara foi secretário de defesa dos Estados Unidos de 1961 a 1968, dos presidentes Kennedy e Lyndon Johnson.


segunda-feira, outubro 08, 2007

MEMÓRIA DO TEMPO QUE PASSA



O ano 2007 [MMVII] do calendário gregoriano corresponde ao:
. ano 1428/1429 dH do calendário islâmico (Hégira)
. ano 2760 Ab urbe condita (da fundação de Roma)
. ano 4703/4704 do calendário chinês
. ano 5767/5768 do calendário hebraico



DE ACORDO COM A TRADIÇÃO, COM O CALENDÁRIO DA ONU OU COM A AGENDA DA UNESCO:

2001/2010 - Década para Redução Gradual da Malária nos Países em Desenvolvimento, especialmente na África.
2001/2010 - Segunda Década Internacional para a Erradicação do Colonialismo.
2001/2010 - Década Internacional para a Cultura da Paz e não Violência para com as Crianças do Mundo.
2003/2012 - Década da Alfabetização: Educação para Todos.
2005/2014 - Década das Nações Unidas para a Educação do Desenvolvimento Sustentável.
2005/2015 - Década Internacional "Água para a Vida".
2007 Ano Internacional da Heliofísica

Semana Mundial do Espaço Sideral



Aconteceu há 62 anos, nessa SG 08OUT1945: foi criado o Movimento de Unidade Democrática/MUD, de oposição ao regime salazarista.

Perpetuava-se, em Portugal, a dupla Salazar/Carmona.
Em França era presidente, provisoriamente, Charles de Gaulle, entre a Terceira e Quarta República.
No Reino Unido reinava Jorge VI, pai da actual soberana.
Na Alemanha vivia-se o post nazismo, uma época em que o país era presa dos aliados, na sequência da sua recente vitória e partilha. Só em 1949 encontraríamos a Alemanha dividida entre RFA e RDA.
Nos EUA era presidente (33º) Harry Truman, do partido democrata.
Em Espanha vigorava o “franquismo - regime político baseado no fascismo aplicado em Espanha entre 1939 e 1975, durante a ditadura de Francisco Franco”.
No Vaticano pontificava o diplomata Pio XII (260º), cujo papel na Segunda Guerra foi considerado, pelo menos, controverso.

Tanto quanto o feroz regime salazarista ia permitindo, ou por muito que estrebuchasse, a oposição nunca se conteve nem se calou. Bem vistas as coisas, não era a ditadura que ia permitindo coisa nenhuma. Não conseguia era controlar tudo, embora tudo fizesse por isso.
A oposição movia-se sempre sobre brasas e cinzas incandescentes: o risco da prisão, do degredo, da tortura, da despromoção ou irradiação do emprego, da perseguição impiedosa e do mais desumano tratamento. Mas agia.

Desde os alvores da ditadura que se verificaram acções de protesto e de exigência de reposição da legalidade democrática.


A da criação do MUD foi uma de muitas.

Claro que os comunistas de Portugal eram os oposicionistas (clandestinos) mais fortes, uma vez que a sua existência, como partido organizado é de data anterior à instauração da ditadura do Estado Novo.
Qual de nós, de esquerda, com idade superior a 50 anos, não esteve algum dia no PC ou por aí muito perto?

O regime salazarista nunca escondeu ser autoritário, anti-liberal, anti-democrático e repressivo. Mesmo em momentos de maior pressão exterior (quando o isolamento de Portugal mais se acentuava). O que por vezes aconteceu foi que, na sequência dessa pressão, o regime simulava uma certa abertura. Mas durante escassíssimo tempo.

Estávamos, então (nesses primórdios da ditadura), no que alguns classificam de primeira fase da oposição: fraca, desorganizada e violenta.
Esta fase durou até 1943, altura em que, já próximo do final da Segunda Grande Guerra, Portugal era severamente apontado como um péssimo exemplo em matéria de direitos, liberdades e garantias, e de deficit democrático.
No princípio da ditadura, a oposição era desorganizada, como se disse acima, e dominada por concepções anarquistas que privilegiavam a acção violenta, radical e armada. Mas os opositores democráticos organizaram e comandaram várias revoltas como as de 1927, 1928 e 1931. Todas fracassadas, contudo.
E outras se seguiram, em 1934 e 1935. Até que, em 1938, um grupo anarco-sindicalista tentou assassinar Salazar, quando ele se dirigia para a missa. Mas o ditador escapou ileso.

Um país apontado como opressor e usurpador dos direitos dos seus cidadãos, Portugal afrouxa (?), ou finge abrandar a sua tenaz perseguição aos democratas. E é então, mas ainda clandestinamente, que surge o MUNAF, “Movimento de Unidade Nacional Anti-Fascista. Organização clandestina presidida por Norton de Matos, surgida em Dezembro de 1943.”
Com ele se propunha “a constituição da unidade nacional de todas as organizações, grupos e individualidades antifascistas e patrióticas, visando o derrube do governo de Salazar e a instauração de um Governo Democrático de Unidade Nacional.
Dotado de um conselho nacional, de uma comissão executiva e de Comissões de Unidade Nacional (CUN). Os membros da comissão executiva são Piteira Santos, Bento de Jesus Caraça, Jacinto Simões, José Magalhães Godinho, Moreira de Campos, Francisco Ramos da Costa e Manuel Serra. No conselho nacional, está Álvaro Cunhal, Dias Amado e Bento de Jesus Caraça. No Comité Regional de Lisboa, José Magalhães Godinho, Manuel Mendes e Inácio Fiadeiro. No Comité Regional do Porto, Mário Cal Brandão, Azeredo Antas, António Veloso, Veiga Pires e Jorge Delgado. Cria em 1944 os GAC, Grupos de Acção e Combate. Nesse mesmo ano, em Junho, fiado que a vitória dos Aliados derrubaria automaticamente o salazarismo, cria um Programa de Emergência do Governo Provisório” – cfr José Adelino Maltez e a sua página profissional: http://maltez.info.

No MUNAF estava o germe do MUD.

“O MUD (Movimento de Unidade Democrática) foi uma organização política que surgiu em oposição ao Estado Novo, no contexto do final da Segunda Guerra Mundial. Com a vitória dos Aliados e a consequente democratização de toda a Europa Ocidental, o regime fascista de Salazar ficou numa posição isolada e bastante incómoda a nível internacional, o que o levou a "simular" uma política de abertura.
A oposição organiza-se e a 8 de Outubro de 1945 nasce, com autorização do Governo, numa reunião efectuada no Centro Escolar Republicano Almirante Reis, em Lisboa, o MUD.
"A orgânica interna do MUD passava a ser a seguinte: para além da comissão central existia também uma assembleia de delegados (com poder deliberativo), uma junta consultiva (...), comissões distritais, concelhias, de bairro, de freguesia, profissionais e outras comissões de auxiliares e de técnicos."(Fernando Costa, 1996) Havia portanto uma estrutura bem montada e credível” – segundo o CITI-Centro de Investigação para Tecnologias Interactivas da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.




Comissão Central do MUD
da esquerda para a direita: Maria Isabel Aboim Inglês, Mário Soares (em representação da juventude), Mário de Azevedo Gomes, Gustavo Soromenho, Manuel Mendes e, sentado, Fernando Mayer Garção(Bento de Jesus Caraça não estava presente, por doença)

Como, porém, muito rapidamente o movimento se sente credor de uma muito apreciável adesão popular (a ansiedade era enorme), da mesma forma se tornou uma ameaça para o regime. Assim, Salazar (para quem, quem não fosse por ele era contra ele e comunista), pouco mais de três anos depois, em Janeiro de 1948, ilegaliza-o, sob o pretexto de ligações ao PCP. (Argumento que hoje também colheria a simpatia de alguns “democratas”)
No entanto, ainda viria a apoiar a candidatura de Norton de Matos, às presidenciais, em 1949.

A par do MUD existia o MUDJ, entre os quais militavam Salgado Zenha, João Sá da Costa, Júlio Pomar, Maria Fernanda Silva, Mário Sacramento, Mário Soares, Fidelino Figueiredo e Rui Grácio.
E o MUD Juvenil era exactamente um alfobre democratas, onde se cruzavam e conviviam várias ideologias e tendências, que de comum tinham o serem oposicionistas à Ditadura e ao Estado Novo – escrevi nestas páginas, uma vez.

Qualquer acontecimento que tivesse a marca da oposição, como as crises académicas, era um dos pretextos para que a polícia política fizesse umas “purgas”. O regime não desistia de se impor... Mas as adesões, ao mesmo, eram cada vez mais escassas e a oposição cada vez maior e mais coesa – recordo também uma vez mais.

sexta-feira, setembro 14, 2007

nota


incluí, hoje, para ser visto a qualquer hora de qualquer dia, o chamado RELÓGIO DO MUNDO


é o primeiro dos links permanentes do blogue, portanto, colocado na coluna da direita, em cima, com o título A ESTA HORA, ASSIM VAI O MUNDO


não sou masoquista, mas penso que não podemos esquecer certas REALIDADES

quinta-feira, setembro 06, 2007

“NO PASSADO 6 DE SETEMBRO DE 1968”





Há vilezas que nem a morte consegue branquear.
A um monstro ou a um tirano ou a um déspota ou a um ditador não pode bastar que se lhe lavem os pés para se colocar no altar dos bem-lembrados! Claro que não.
Quando, faz hoje 39 anos, Salazar foi operado na sequência da queda da mais badalada cadeira, em 03 de Agosto anterior, e ficou irremediavelmente perdido para a função que desempenhava, não se converteu num santo, nem passou a merecer a veneração que alguns, tanto ou mais que antes, lhe dispensavam. Tal como não passou a merecê-la 22 meses depois, ao sucumbir definitivamente (27JUL1970).
De forma nenhuma para muitos de nós.
A bicentenária tartaruga da historieta, afinal, sobreviveria mesmo. E longamente.
E ele, por mais eterno que, como qualquer ditador, se tenha imaginado, por mais benditamente imortal que alguns lhe tenham acenado ser a sua imagem e a sua memória, ele aí está, como todos, finito e pasto de vermes.
De nada serve, aos tiranos e ditadores, a vã glória de tanto terem despoticamente dominado. O sangue que fizeram correr, inocente e injustamente, o sofrimento que provocaram a tantas e tantas das suas vítimas, não lhes darão nunca o descanso que imaginaram ter garantido.




... pensava que ocupava ainda a cadeira do poder
Mas melhor que eu recorda, em curto espaço, o jornalista do Público, hoje, na rubrica diária “no passado” e que deu o título a esta memória, os factos. Texto que, curiosamente, é acompanhado, na edição impressa pela imagem que se segue. (Imagem recuperada através do próprio Público, em 10.09.07, e que substitui a anterior, que não estava em condições)


a cadeira
a habitual, não a da efeméride
(O texto que acompanhava a imagem anterior)
“SALAZAR OPERADO DE URGÊNCIA
Uma testemunha ocular, citada pelo Diário de Notícias, viu-o chegar ao Hospital da Cruz Vermelha, em Lisboa, pelas 23h15 deste dia 6 de setembro de há 39 anos. António de Oliveira Salazar saía do automóvel, “pelo seu pé, sem gravata”. Acompanhavam-no os médicos Vasconcelos Marques e Bissaia Barreto e o director da PIDE/DGS, major Silva Pais. No átrio, aguarda-o uma cadeira de rodas, “que só assentiu em utilizar a rogo do dr Vasconcelos Marques”.
Menos de quatro horas depois, o ainda então Presidente do Conselho – vítima da queda de uma cadeira, cinco semanas antes, na sua residência de Verão, no Estoril – era submetido a uma operação cirúrgica, que consistiu na aspiração e remoção de um hematoma intracraniano subdural, praticada “sob anestesia local, por implicações de ordem técnica”.
Contará o jornal, no estilo untuoso da imprensa oficial ou oficiosa da época, que o doente, “que suportou toda a operação sem um gemido, concitou por isso mesmo toda a admiração de todos quantos participaram na intervenção ou a ela assistiram”.
“Com o profundo afecto de sempre”, o ditador Franco telegrafou, de bordo do iate Açor, os seus “ardentes votos” de “rápido e feliz restabelecimento”.
Ainda antes de os portugueses tomarem conhecimento da “inesperada e algo dramática” notícia, às 9 horas da manhã, “pela voz timbrada do locutor Pedro Moutinho”.
Sublinha o jornal: “o optimismo é comum a toda a equipa cirúrgica e clínica”. Em 16 deste mesmo mês porém, entra em estado de coma e dez dias depois é substituído por Marcelo Caetano.
Em estado semivegetativo, Salazar continuará, durante meses, a dar audiências, a presidir a reuniões, a conceder entrevistas. Como se ocupasse ainda a cadeira do poder. Numa espantosa encenação, sem precedentes na História de Portugal. A.G.”


Mas mais curioso ainda é que, na edição online do jornal, e só nessa, além daquela imagem, uma outra está disponível: a que se segue, que deixa transparecer a perplexidade em que os boys de então se encontravam...






chocados e perplexos, os boys...







quarta-feira, setembro 05, 2007

VIAJANDO NO PORTUGAL PROFUNDO

CATRIBANA E SAMARRA







fotos da Agenda Cultural de Sintra online (nº 31/ABR05)




Em Catribana – localidade da freguesia de S. João das Lampas (concelho de Sintra) não muito longe da Cortesia e da Assafora (outras aldeias da mesma freguesia), existem dois vestígios de vias romanas: um resto de uma calçada e uma pequena ponte. Ambas do séc. III da nossa era.

Os três slides seguintes mostram
duas perspectivas da ponte romana e uma da calçada.

A ponte atravessa a ribeira de Bolelas (que, segundo alguns, naquele ponto já se chama da Samarra, nome da praia que lhe serve de foz, um pouco adiante).
Catribana é povoação velha de séculos, como se calcula. Bastante provavelmente a palavra será de etimologia árabe, talvez significando ponte.
Nessa aldeia, melhor dito, no seu termo, ainda que um pouco afastado do povoado, consta terem sido realizadas sondagens arqueológicas que revelaram a existência de restos de pavimentos em mosaico e alguns fragmentos de cerâmica.
Até por se ter tratado de meras sondagens, nenhuma dessas preciosidades se encontra, por aí, patente ao público.
Não obstante as pesquisas arqueológicas, em meados do séc passado, e, mesmo, a classificação legal do conjunto (calçada-ponte) como imóveis de interesse público (IIP), já nos anos 90 do mesmo século, a verdade é que são património que continua ao mais completo abandono.
A calçada romana, a escassa centena de metros da povoação, quando muito, apresenta-se em fragmentos intermitentes por uma extensão máxima de cerca de uns 50 metros, se tanto. A sua identificação é óbvia para alguém minimamente sensibilizado para estas matérias.
Não se vislumbra porque motivo (embora seja imaginável), mas a calçada denomina-se, hoje, “caminho do castelo”. Na verdade, não se lobriga, por ali, qualquer vestígio de construção castrense.
A ponte encontra-se ao fundo de uma ladeira, em caminho estreito de terra batida, umas largas centenas de metros também fora da povoação. É de arco único e tem parapeito.

De salientar, ainda, que, pela mesma altura (em 1948), foram descobertos, muito próximo de Catribana, vestígios de materiais de um eventual povoado neolítico (Pedranta, aventam, alguns, a hipótese de que se tenha assim chamado), de cerca de 4 000 anos a. C. Tratava-se de recolhas feitas à superfície, mas também é referida a descoberta de uma jazida, no topo Norte da praia, com ossadas de mais de cem pessoas.

Mas, melhor que eu, fala disto tudo Carlos Pinheiro, no site Malha Atlântica. Assim, veja, deste autor:
texto e fotos sobre os vestígios romanos; mais fotos sobre os mesmos vestígios.

De notar que hoje não se pode admirar uma tão grande extensão seguida de calçada, como a que se acaba de ver na foto anterior.

Ver ainda, no site do IPPAR/MC, a importante nota histórico-artística:
calçada e ponte romanas e azenhas na Catribana.

Falamos de Catribana. E, como foi referido de raspão, ali, a dois passos, fica uma praia de pescadores, de muito difícil acesso por terra, já que a costa, de altas escarpas, só mesmo por tormentosos e íngremes carreiros permite chegar lá. É a praia da Samarra.
Vê-se, por vezes, uma ou outra pessoa – de certa idade, sobretudo – de cadeirinha de lona, fechada, na mão, a caminho desta zona, onde se sentam horas a fio em baldio sobranceiro ao mar, no alto das arribas alcantiladas, beneficiando de um rico ar iodado...
Ultimamente vêem-se, também, muitos jovens demandando esta praia levados, inclusive, pelo exercício propiciado pelo respectivo acesso.

Veja-se esta
sequência de slides sobre a praia da Samarra.

A praia, em si, é uma pequena enseada, de areal pouco extenso, não muito abrigada e com aspecto pouco acolhedor, em virtude do “corredor” aberto pelo sulco da antiga ribeira, na convergência dos dois cabeços que se elevam de cada lado. De todo o modo, de ares muito saudáveis, já que rica em iodo e despoluída...

Mas, e chegar lá por terra?!...



Há tanto mundo para ver!
Até mesmo aqui dentro dos nossos muros...
Quase à nossa porta!




quarta-feira, agosto 01, 2007

OUTRO MONSTRO DO CINEMA EUROPEU QUE DESAPARECE: ANTONIONI (1912-2007)

Michelangelo Antonioni


Outro mago, outra figura cimeira do cinema desaparecida anteontem, na trágica (chamemos-lhe assim) SG 30JUL07: Michelangelo Antonioni.
Antonioni, é quanto basta para o identificar.
E vejam-se os tantos pontos comuns que existiam entre estas duas figuras maiores do cinema, antes d’ontem desaparecidas do mundo dos vivos.

Antonioni e Bergman – dois gigantes, duas figuras ímpares do cinema.
Já, desde há bastante, dois mitos da Sétima Arte.

É o que muito adequadamente se poderá chamar o crepúsculo dos deuses.
Nem mais.

Não será o apocalipse, mas é uma perda irreparável no cinema mundial. Particularmente no europeu. Duas das suas maiores referências apagam-se, no mesmo dia, com escassas horas de intervalo uma da outra.

Hoje, o corpo de Antonioni está em câmara ardente na Câmara Municipal de Roma, realizando-se, amanhã, o seu funeral na cidade que o viu nascer, Ferrara.
«Com Antonioni morre não só um dos maiores realizadores, mas também um mestre da modernidade», declarava ontem Walter Veltroni, exactamente o presidente do município de Roma, num comunicado.

O primeiro nome (de filme) que logo me assalta, ao falar de Antonioni, é O Deserto Vermelho, porque ele me traz à memória um outro talento, o de Mónica Vitti.

O autor de alguns dos mais influentes filmes do neo-realismo italiano, e da estética do cinema, em geral, nasceu em Ferrara, aos 29 de Setembro de 1912. Ou seja, Antonioni deixou-nos aos 94 anos, a cerca de dois meses de completar os 95.
Foi em Roma que viveu o seu ocaso.

Provavelmente porque, nesses idos, a actividade cinematográfica não era considerada uma actividade tão nobre, ou porque a família o influenciasse noutro sentido, ou porque ele próprio sentisse maior segurança com essa opção, fez uma licenciatura em economia na Universidade de Bolonha.
Pouco se sabe da sua actividade na área da profissão que primeiro escolhera. O que se sabe é que, poucos anos depois, em 1940, ele estudava cinema na Cinecittà, onde conheceu e conviveu com conhecidas personagens do mundo do cinema, artistas – que mais tarde viriam a integrar os seus castings – e realizadores, como Roberto Rossellini, outro monstro cinema europeu, como ele neo-realista, também já desaparecido.

«Cineasta da incomunicabilidade ou da dificuldade de viver e amar, dirigiu duas dezenas de filmes, entre os quais «Escândalo de Amor» (1950) e «O Grito» (1957), a trilogia constituída por «A Aventura» (1960), «A Noite» (1961) e «O Eclipse» (1962), e ainda «O Grito» (1957), «O Deserto Vermelho» (1964), «Blow-up» (1966), ou «Identificação de uma Mulher» (1982).
Consagrado internacionalmente, ganhou o Leão de Ouro da Bienal de Veneza em 1964, com «O Deserto Vermelho», a Palma de Ouro do Festival de Cannes em 1967 com «Blow-up», o Prémio Especial do Júri de Cannes com «Identificação de uma Mulher» em 1982, um Óscar de Hollywood pelo conjunto da sua carreira em 1955 e também um Leão de Ouro pela carreira em Veneza, em 1997.
Tinha dificuldade em deslocar-se e em falar devido a um acidente vascular cerebral que sofreu em 1985
» - informava, ontem, um comunicado Diário Digital / Lusa

Foi na década de 60 – sem dúvida a década de ouro, a era esplendorosa do séc. XX (salvo, em muitos aspectos, para Portugal), que Antonioni ganhou maior prestígio e consagração.


O realizador em acção, nos anos 1960 (Foto: AFP)

«Cineasta da incomunicabilidade ou da dificuldade de viver e amar» … Na verdade, o tema da ruptura nas relações humanas, o rompimento com determinados valores e conceitos, a alienação da sociedade moderna, estão entre os temas e os assuntos preferidos do realizador.

A sua consagração, como nome maior do cinema, começou logo no ano de 1961, quando, com o filme A NOITE, ganhou o Urso de Ouro do Festival de Berlim. E em 1967, no Festival de Cannes, o seu primeiro filme em língua inglesa, BLOW-UP, foi premiado com a Palma de Ouro.

Outro dos seus “monumentos” – para muitos o maior – foi O DESERTO VERMELHO, filme que, designadamente, costuma ser especialmente mencionado por nele Antonioni ter utilizado, originalmente e com artístico intento, a cor.

Mas a sua projecção começou antes: em 1955 tem o seu primeiro sucesso com LE AMICHE. E em 1959 realizou a sua primeira obra-prima: L’ AVVENTURA (apresentado em 1960), que seria o primeiro da sua conhecida "trilogia da incomunicabilidade".
A NOITE (1961), que é igualmente por muitos considerado um dos marcos do cinema moderno, foi a segunda obra daquela trilogia, sendo a terceira O ECLIPSE.

Destaca o blogger Bruno Sá, um entendido na matéria, ao que me parece: “um pormenor marcante é o de que em praticamente todas as sequências, se não todas, de L’avventura, estas demoram no filme exactamente o mesmo tempo que demorariam na realidade o que, em conjunto com o uso de uma focagem profunda, de modo a ligar as personagens ao opressivo meio ambiente, fazem com que facilmente nos identifiquemos nas situações apresentadas”.

Entre suas estrelas e seus estros inspiradores, destaca-se Mónica Vitti (Maria Luísa Ceciarelli, de seu nome verdadeiro), "mocinha" que anda hoje nos 75 anos (76 em 3NOV) e que nessa época rondava os trinta, trinta e poucos anos. Um dos ídolos da moçarada do meu tempo, a par de outras nada menos sensuais e brilhantes constelações que nos empolgavam.

Foram, sobretudo, exactamente os filmes de Antonioni que lhe valeram os seus tempos de justo glamour.

Mónica Vitti fez parte do elenco de “A AVENTURA” (1960), “A NOITE” (1961) e “O ECLIPSE” (1962) e O DESERTO VERMELHO” (1964) – a tetralogia da alienação de que alguns também falam.

Mónica Vitti (em A Aventura, como Cláudia)

Em “O ECLIPSE” contracenou com um dos ídolos das moças de então, Alain Delon.

A artista entrou em cerca de 55 produções, incluindo aquela por ela própria escrita e dirigida, em 1989 (perto dos 60 anos): “Scandalo Segreto”

Voltemos a Antonioni.
No seu período americano, depois de “BLOW UP”, (1966), Antonioni fez ZABRISKIE POINT (1970), de cuja banda sonora fazem parte, entre outros, os Pink Floyd; e ainda “PROFISSÃO: REPÓRTER” (1974).
De realçar que BLOW UP “trouxe ao mundo a primeira cena de nudez frontal feminina (Jane Birkin) num filme não-erótico e dirigido ao grande público.”

Uma das principais características das realizações do “poeta do tédio” – como alguém lhe chamou - é a frequente utilização de planos muito longos e fixos. O que se pode constatar neste plano-sequência, de 6 minutos, tirado de “Profissão: Repórter”

Acerca deste filme, e de outros de Antonioni, é de grande proveito a leitura dos comentários de Luiz Carlos Oliveira Jr, aqui

“O cineasta, que descobriu a incomunicabilidade e influenciou toda uma geração”, foi crítico, assistente de realização de Carné e Enrico Fulchignoni e guionista de Fellini.
Porque de índole anticomercial, teve um começo difícil. Porém, claro que Antonioni acabou por ser alvo de muitas homenagens e de muitos troféus.
Recebeu, entre outros prémios, o Leão de Prata em Veneza, com ''Amigas''; o dos críticos em Locarno, com ''O Grito''; especial do júri em Cannes, com ''Aventura''; Urso de Ouro em Berlim, com ''Noite''; especial do júri em Cannes, com ''Eclipse''; Leão de Ouro em Veneza, com ''Deserto Vermelho''; Palma de Ouro em Cannes, com ''Blow-up''.

Morreram os homens (Bergman e Antonioni). Ficaram os nomes, as obras e as respectivas memórias. Que durarão o tempo que o mundo durar, estou em crer.




segunda-feira, julho 30, 2007

O PASSAMENTO DE INGMAR BERGMAN (1918-2007)

imagem wikipédia
Ingmar Bergman durante as filmagens de Morangos Silvestres (1957)
“Fazer filmes é mergulhar até às mais profundas raízes, até o mundo da infância”.
- Bergman

Com 89 anos, feitos há dias – 14 deste mês – faleceu hoje, no país que o viu nascer, um mago e um guru do cinema: Ingmar Bergman.

Não há ninguém da minha geração – e próximas – de mediana cultura, que não se recorde de Bergman.

Nos anos 50/60 ia-se ver um filme de Ingmar Bergman como quem ia a uma conferência, a uma aula, a uma sessão cultural cujo tema fosse A Infância, A Morte, A Vida, O Amor, O Insondável, A Religião, Deus, A Alegria, A Solidão, A Dor…
Na verdade, os seus filmes abordam geralmente questões existenciais, como a mortalidade e a solidão, e esotéricas, como a fé.

Não se tratava, pois, de um momento de lazer aquele que se passava (sempre, ou quase) no Estúdio do Império (para falar no meu caso, no meu tempo) ou noutra qualquer sala de cinema para ver um filme do cineasta sueco.

Aliás, Bergman não era um realizador. Era um mestre.
Não era um homem de espectáculo, era um didacta muito respeitado

Julgo que muito longe de qualquer ousada classificação, muitos viram em Bergman o maior realizador da história do cinema.
Como não sou expert na matéria, nem sobre ela tenho bagagem suficiente para entrar em comparações, direi que sim, que dos que me é dado conhecer (e enquanto fui frequentador assíduo das manifestações da sétima arte), ele, se não for o maior, será dos maiores.
(Claro que para os versados, dizer que Bergman foi um dos maiores realizadores de todos os tempos – dentro da ainda curta história do cinema – soa a expressão meio lapalisseana… Não obstante isso - e o lugar comum – essa é a verdade)

Bergman foi distinguido com os mais diversos e valiosos prémios que são atribuídos ao cinema.

E não era apenas o trabalho de rara qualidade do realizador que nos atraía, era também o desempenho extraordinário do elenco, de superior craveira, que reunia para interpretar as suas obras.
Por todos, bastará recordar a brilhante performance de uma Liv Ullmann, que o cineasta dirigiu em 10 filmes, e com quem teve um romance, de que nasceu uma filha.

Kathleen Gomes (PÚBLICO) escreveu um dia:
“escolham um rosto de entre os muitos rostos que povoaram o cinema de Ingmar Bergman - o de Liv Ullmann estará sempre no alto, acima de todos”.


Ernst Ingmar Bergman, que nasceu em Uppsala, Suécia, na referida data, em 1918, fez a sua iniciação profissional com “um dos patriarcas do cinema sueco, Victor Sjostrom, homenageado em Morangos Silvestres, em que Sjostrom interpreta o protagonista que perde a noção da memória face à iminência da morte” – pode ler-se em ZAZ, no site brasileiro terra.

Conquanto o mundo o reconheça melhor como cineasta de renome e consagração internacional, foi ainda dramaturgo e argumentista de mérito.

Filho de um espartano pastor sectário de Lutero, teve uma infância muito difícil, vivida com uma rígida disciplina, marcada por coacções psicológicas e castigos corporais, temas frequentes na sua obra.

Bergman fez mais de 50 filmes, e mais de 150 produções teatrais (incluindo guiões), “onde seus temas principais eram Deus, a morte, a vida, o amor, a solidão, o universo feminino e a incomunicabilidade entre casais, tema onde foi pioneiro no cinema. Tornou-se autor completo de seus filmes e renovou a linguagem cinematográfica. Seus primeiros filmes trazem com frequência influências do naturalismo e do romantismo do cinema francês dos anos 30. Alguns chegaram a ser repelidos por causa do erotismo e expressionismo” – descreve Cibele Carvalho Quinelo, da Universidade Federal de São Carlos, Estado de S. Paulo, Brasil.

Da sua filmografia destacam-se, entre vários, «O Sétimo Selo» (de 1956), «Morangos Silvestres» (de 1957) e, o mais recente, «Saraband», (de 2003), em versão digital.

Morangos Silvestres, de que se falou já mais acima, é uma das suas obras máximas, uma homenagem, como se disse, ao seu mestre Victor Sjöstrom, onde este interpreta a figura do Prof de medicina Isak Borg, aposentado, que relembra as passagens mais marcantes da sua vida, numa dramática perspectiva de morte iminente.
O momento alto do filme é o pesadelo do professor na noite que antecede a sua deslocação a Lund, para aí ser homenageado.
A sequência da correria veloz de uma carruagem que transporta um caixão, pelas ruas desertas e vazias da cidade, a perda de uma roda da carruagem, a consequente queda do caixão e o respectivo estrondo, o braço e a mão que dele emergem (e que Borg reconhecem serem dele mesmo), além do enorme relógio sem ponteiros… Tudo são as alegorias bergmanianas duma memória que se esgotou, dum fim que se aproxima, dum tempo incomensurável.
Creio ser esta a passagem mais impressiva, cujo registo se manterá na memória de todos quantos viram o filme. Filme este, aliás, que parece sintetizar toda a
“problemática bergmaniana. Desde o problema da infância, do amor e da história, até o de Deus” – comenta Lincoln Secco.
Aliás, este mesmo historiador sustenta: “A filmografia de Ingmar Bergman pode ser vista a partir de três dilemas: a infância, o amor e a história. Dos três elementos, o terceiro é o menos visível. O primeiro foi o mais explorado de maneira consciente. O segundo poderia ser definido mais como a falta de amor ou as sucessivas tentativas de conquistá-lo”
(site mnemocine).

“O Sétimo Selo” foi o filme que projectou I. Bergaman internacionalmente. O filme ”foi dedicado a Bibi Andersson e ela, assim como Max Von Sydon, Erland Josephson, Ingrid Thulin, Liv Ullman, Harriet Anderson e Gunnar Bjosrnstrand, que começaram com ele no teatro, se tornaram para sempre "atores Bergmanianos" e seguiram carreiras internacionais” – (cit Cibele Carvalho Quinelo, id).
“O título é uma referência ao capítulo oito do livro das revelações”
, explica, ainda, a mesma citada autora. Trata-se de uma história simples, mas carregada daquele esoterismo que caracteriza não só brasileiros como outros povos. E o próprio Bergman, com logo se deixa ver. Um cavaleiro e seu escudeiro voltam das Cruzadas e encontram o seu país, a Suécia, assolado pela peste. Eles encontram-se com a morte e o cavaleiro faz um acordo com ela: só por ela serão arrastados (ele e o seu povo) se, num jogo de xadrez que lhe propôs jogar, ela o vencesse.
“Acredito que Bergman está presente no filme na angústia do cavaleiro que vê sua vida destituída de sentido, e também no ateísmo de seu fiel amigo Escudeiro”, acrescenta a mesma autora. ”O Filme, assim como toda a obra do director no seu início, é considerado neo-expressionista. Os cenários são muito rústicos e simples, a maquiagem é impressionante, e muitas vezes os actores aparecem machucados, ou com dentes podres, desprovidos de qualquer regra de higiene actuais, o que dá mais realismo ao filme”
– são ainda palavras de Cibele Quinelo.
(…)
“Em matéria de fé, o filme articulou perguntas que [Bergman] não se atrevia fazer: quais eram os sinais verdadeiros de que existia um Deus? Onde estava o testemunho coerente de qualquer benevolência divina? Qual era o propósito da oração? (…)"
“A natureza religiosa da obra de Bergman se manifesta de imediato no filme. Em uma entrevista declarou que utilizava seus filmes para encarar seus temores pessoais. Disse ele: "Tenho medo da maior parte das coisas dessa vida" e "Depois daquele filme ainda penso na morte, mas não é mais uma obsessão", e em O Sétimo Selo ele enfrentou o seu medo da morte. "A Morte está presente todo o tempo, e cada um reage de maneira diferente a ela. Deus e a Morte são os grandes pilares do filme, e em grau menor, mas essencial, mostra seus sentimentos sobre o Amor e a Arte” – escreve ainda, e uma vez mais Cibele C. Quinelo.

Saraband. Depois do seu filme "Cenas da Vida Conjugal", (1973) Ingmar Bergman volta a encontrar as personagens que Liv Ullman e Erland Josephson então personificaram, num filme que ele descreve como "um concerto para uma orquestra sinfónica, com quatro solistas"
. Trinta anos passaram desde que Marianne e Johan se separaram. Marianne pressente que Johan precisa dela, e não resiste ao impulso de o visitar na sua velha casa de campo.
Relembram, então, a sua vida conjugal, o amor que os uniu, as memórias do que os afastou.
Apesar de todos estes anos sem se verem, é bem patente que a cumplicidade que os caracterizou não havia esmorecido. Marianne conhece, nessa altura, o filho de Johan, Henrik, e a filha deste, Karin. E muito rapidamente compreende que Henrik tem um amor possessivo pela filha e que Johan só sente ódio e desprezo pelo filho. É aí que Marianne se interroga sobre se a sua presença poderá, ou não, atenuar a ansiedade que atormenta Johan.
Trata-se, a um tempo, do filme mais intenso e mais suave, de que falou essa grande surpresa do filme que foi Julia Dufvenius (Karin).

Após uma despedida várias vezes anunciada, este foi, de facto, o último trabalho de Bergman, quando ele já contava 85 primaveras.


Mas doutros filmes temos (os do meu tempo) memória. Todos nos recordamos de “A Fonte da Virgem” (1959), de “Mónica e o Desejo” (1952). Mais recentemente, de “Fanny e Alexandre” (1982).

Quanto à “Fonte da Virgem”, a história desenrola-se na Idade Média. Um casal profundamente religioso tem uma filha (Karin) que encanta toda a gente “com o seu cabelo dourado, olhos azuis e pureza de alma”. Na época era costume as velas serem transportadas para a igreja por uma virgem. Daí que, num Domingo, na sua aldeia, de tal tarefa tenha sido incumbida Karin. Só que, no caminho, ela é assaltada e violada por três homens que ela, à partida, pensara tratar-se de pastores.
A trama desenvolve-se com a tentativa de venda, por parte dos meliantes, das roupas da pobre moça, por acaso e terrível coincidência, aos seus próprios pais. Desencantado e incrédulo com o que Deus lhe reservara para a filha, o pai jurou vingança e não descansou enquanto não a encontrou. E ao consegui-lo presenciou um milagre.
Esta lacónica descrição não permite bem avaliar toda a qualidade técnica do realizador e dos actores. Na verdade, o filme foi o vencedor do melhor filme estrangeiro, ganhando o respectivo Óscar em 1961. Além de ter sido também um dos vencedores do Festival de Cannes, com menção honrosa, no ano anterior.

De “Mónica e o Desejo” escreveu um crítico brasileiro: “onde o verão inunda a trama de sensualidade”.
É a história de uma garota sexy e do seu desejo de evasão. Desejo de uma vida diferente. E com a inevitável moralidade contemporânea: o preço a pagar pelas ilusões…

“Fanny e Alexandre” é a narração da saga de uma família sueca no virar do séc. XIX para o séc. XX.
Segundo os críticos, este trabalho é como que uma síntese de toda a grande obra de Bergman, que lhe valeu, entre outras distinções, três Óscares.
E aí temos a temática habitual de Bergman: a alegria, a dor, a vida, a religião, o sobrenatural…


sexta-feira, julho 27, 2007

RETRATO

imagem: jornal Torrejano/JT574


Tem sido objecto de muitas citações. Como tem sido transcrito em muitos posts e mails.
É, de facto, um texto paradigmático quanto a um sentir, na época que vivemos.
Daí o merecer integrar o APOSTILA.

É um artigo de António Barreto, na sua coluna periódica do Público, em matéria de opinião, “Retrato da Semana”, na edição de 27 de Maio do ano que corre, intitulado Enfim, só!
É uma análise serena, tão mordaz como impiedosa e tão impiedosa como merecida.
É o indivíduo e o político por uma pena. Um retrato soberbo pela grande qualidade do observador-autor.



A objectiva foca o engº Pinto de Sousa, que o vulgo conhece por José Sócrates.
Não sabemos ao certo é se a imagem respeita a um objecto ou à sua sombra.
Serão uma realidade o engº, o Pinto de Sousa, o José?

Sócrates, não é.
O engº, será, parece, uma excrescência, um arremedo, uma pluma inventada. Uma ênfase imaginada.
Pinto de Sousa, este, creio tratar-se de um mito, a representação tardia de algo que se pretende esquecer.
José?
Josés são tantos como as Marias: comuns. São tão reais como banais. De entre eles, só alguns são eleitos pelo vulgo, porque, este, a memória lhes quer perpetuar.
Não é o caso do presente… Que o povo quer esquecer.

De Cavaco adquiriu a maneira autoritária e o espírito distante. A indiferença e a “soberana” superioridade relativamente aos partidos. Começando por aquele que o acolheu e alcandorou.
De Guterres copiou o jeito de um “socialista” bem heterodoxo.
De Soares, a empáfia, o discurso fácil adequado à circunstância e ao opositor.
De Salazar herdou o militante desprezo pela democracia, o modo de pactuar com a delação, o autismo perante o país real, a postura do político para quem, quem não é por ele, é antipatriota, herege, “comunista”, objecto de perseguição, merecedor de todos os anátemas.

Leia, no APOSTILA,
Enfim, só!




segunda-feira, julho 09, 2007

HÁ ALGUM PS NO GOVERNO?






“Há pouco PS no governo”, desabafou Manuel Alegre.

(Estranho, até, que ainda lá consiga vislumbrar algum...)

Não é, porém, e por enquanto, o grito de guerra que se aguarda. Esse... Não se sabe para quando.

O editorial do director adjunto do Público, na edição de ontem, é um texto exemplar, revelador como outros recentes, do estado d’alma dos portugueses, da sanha persecutória de um governo que se diz do PS. Dos tempos complicados que se vivem neste cantinho da Europa, e dos mais difíceis, ainda, que se adivinham.

São palavras necessárias. Uma tempestiva chamada de atenção.

URGENTE.

A “poluição” política DESTE PS abafa-nos as consciências. Impede-nos a “respiração”.

Quando será que os velhos bombeiros DO PS (Alegre, Sampaio, Cravinho, entre outros) lançam o alarme e põem termo ao contumaz uso e abuso da designação?

Transcrevi o aludido editorial no Apostila. Não resisti, mesmo a, para além do destaque feito pela edição, fazer os meus próprios sublinhados.

Leia, pois OS BUFOS E O APARELHO DOS PARTIDOS.

domingo, julho 08, 2007

PARTIDO SOCIALISTA? ISTO?





A desconfiança está instalada.

Nalguns sectores, o medo é uma realidade. Que coíbe, efectivamente.

A coacção, não é, já, uma mera ameaça. É uma prática. Não, meramente, tacteada. Antes em franca expansão. Quase generalizada.

Das (sempre) ultra-secretas reuniões do grupo Bilderberg têm emergido as mais ignoradas e desconhecidas figuras que, num repente, se transformaram em mediáticas e, ultimamente, dominadoras figuras dos palcos da política, tais como, desde uma Angela Merkl ou um Nicolas Sarkozy a um Durão Barroso, um Santana Lopes ou um José Sócrates.

Eles aí estão, os grandes patrões do mundo dos negócios - o tal grupo que secretamente se reúne, de quando em quando, para avaliar o “trabalho” dos seus peões e para lhes ditar novas regras – a manusear os seus robertos.

Os portugueses, aparvalhados, nem acreditam que, neste limiar do séc XXI, estejam a ser governados por um partido socialista.

O corrupio e o desaforo são tamanhos, que a repugnância, de tanta que é, nem admite atender ao pudor. Miríades e miríades de bytes – os antes designados “rios de tinta” – têm sido usados pelas mais variadas vias dos media, numa atitude de repulsa e de frontal condenação pelo que se está a passar.

E o que mais nos assusta, a alguns, e o que mais nos pesa, é que nos vemos a integrar um coro que não é o nosso... Nem por sombras!

Dramático!

Porque se trata de um texto exemplar, que define e descreve a situação actual, é que recomendo a leitura da coluna A Semana Política, da jornalista São José Almeida, da edição de ontem do Público, que transcrevo no Apostila: Um Sono Profundo

segunda-feira, julho 02, 2007

AINDA À VOLTA DA FLEXIBILIDADE - 2

flexibilização






Um exemplo de equipa de lil’ flexibilizadores





«A protecção social tem que ser compatibilizada com a precariedade gerada pelas tecnologias e pela globalização»

Não inventei a frase. Que não é de nenhum perigoso esquerdista. Nem de nenhum ousado anti-capitalista.

É o destaque de um artigo de Sarsfield Cabral, hoje, no Público. A propósito da flexi-segurança. Verdade que a frase nem sai, em absoluto rigor, contrariamente ao que geralmente acontece, do texto do autor. É antes uma síntese de uma das suas passagens.

Verdade, também, que a frase em destaque (que eu não sei se é “arranjada” pelo autor do artigo, se pela redacção do jornal) é um dos tais casos em que a letra nem sequer diz bem com a careta...

Não estarei em absoluto acordo com Sarsfield Cabral na análise desta questão, em particular, mas estou em total consonância com o espírito que – quer se goste ou não, parafraseando o autor – da referida frase ressalta à mais clara evidência.

Acontece: às vezes a língua foge...

domingo, julho 01, 2007

REINO DE DEUS. OU: “REINO DE DEUS”

Gazing intently: by Katosu








“Portugal é um país maioritariamente católico” – rezam as crónicas.


Mas, claro que é um rumor.


Segundo o censo de 2001, na verdade, 84% da população total “inscreve-se numa tradição católica”. Porém, segundo um estudo da própria Igreja Católica (também de 2001) são católicos praticantes apenas 1.933.677 portugueses (18.7% da população total), sendo que o número de mais efectivos participantes (“comungantes”) é de 1.065.036 (10.3% da população total).
(Fonte: wikipédia)


A realidade é diferente do rumor.


Mas aceitemos os números como verdadeiros.


Sempre nos poderemos questionar acerca do seguinte: pegando nas palavras, de hoje (*), de Frei Bento Domingues, quantos se sentirão atraídos e constituindo um reino de Deus, “onde não há separação entre judeu e grego, escravo e livre, homem e mulher”? Mais: quem se sentirá imerso n’”o movimento de Jesus” (que ) só conhece uma categoria de seres humanos: a categoria de irmão, que inclui os próprios inimigos”? – para utilizar ainda as prudentes palavras do dominicano.



Não aponto para o julgamento de ninguém. Tão, apenas, para uma reflexão de todos. E quanto a uma maneira de estar, sendo-se crente ou não crente. Constituindo o “reino de Deus” uma realidade como tal, para os crentes, ou uma miragem, um mundo virtual de paz e justiça, um mundo ideal, (talvez) relizável (mas por que valerá a pena lutar), para os mais.


Porque, quanto ao resto – guerra de religiões –, o próprio frade nos recorda a velha anedota: “Qual a diferença entre um liturgista e um terrorista? Com um terrorista, é possível negociar...”



(*) DM 01.07.07, PÚBLICO/OPINIÃO/PRECISAMOS DE CONVERSAR (III)

sábado, junho 30, 2007

AINDA À VOLTA DA FLEXIBILIDADE

Um flexibilizado







1. No Fio do Horizonte de ontem, o Prof E Prado Coelho escrevia sobre flexissegurança.


Já vi registos de flexi-segurança, flexissegurança e até de flexisegurança. O Prof opta (e talvez bem) por flexissegurança. Tudo sintetizado (?) no neologismo flexigurança.


No tratamento da matéria, porém, deixa-me algumas dúvidas quanto ao seu pendor.


Num ponto está nitidamente com Carrapatoso, mas sobre as tomadas de posição de “Jerónimo de Sousa e os seus acompanhantes” lança o mais que politicamente correcto anátema: “o problema do PCP é que se repete tanto que se torna inaudível”.
De pessoa tão sensata e inteligente, esperava argumento mais substancial, mais consistente, não tão plebeísticamente sonoro, mas vazio.


Bom, mas dá voz a João Proença e a Carvalho da Silva, para os quais a segurança fica reduzida a zero. Aliás, e bem explicitamente, é o que afirma o dirigente da CGTP-IN, que o Prof cita: "em Portugal, só há uma discussão: a flexibilidade, porque a segurança é coisa nenhuma". O que não é propriamente uma tomada de posição amarela.


Depois o Prof alude Antonio Negri, que apresenta como radical de extrema-esquerda (meu Deus! Radical, e ainda por cima da EXTREMA-esquerda, o sujeito deve estar a meio centímetro do “nazofascismo”) para quem – não esquecendo que “entre esquerda e direita nem tudo é linear”, lembra, no seu alto voo filosófico, EPC – “a esquerda tradicional está presa a uma visão do século passado e apenas se interessa pelos trabalhadores que têm trabalho”.

“E acaba por ser uma força retrógada” – aqui, fica-se na dúvida se o afirma o felino e feroz radical extremo-esquerdista AN ou o centro-esquerdista PC... Ou (quem sabe!) o “comprometido lusitano” Carrapatoso...


Como também não é fácil apurar se o remate da coluna é da responsabilidade do ultra AN ou do avisado Prof, quando a propósito dos neo-tecnólogos e dos arrasantes e erosivos efeitos da globalização se recomenda que eles aceitem a flexibilidade para atingir a segurança!
Mas não deve ser de EPC o conselho, pois que, ao confrontar flexissegurança e flexigurança, conclui: «mais "segurança" ou mais "gurança", no fundo tanto faz».


Aí, e finalmente, estamos de acordo.



2. Do editorial de ontem do subdirector do Público, Paulo Ferreira, que intitulou APLAUSOS E AVISOS DO FMI A UM ANO E MEIO DE ELEIÇÕES, transcrevo:


« Não admira que o FMI goste do que vai vendo em Portugal. Afinal, a receita que este Governo está a seguir é a que está na cartilha da instituição há muito tempo: redução do peso da despesa pública, flexibilização das regras de funcionamento do Estado, redução das pensões de reforma e dos encargos da Segurança Social, abertura dos mercados. Até a flexibilização do mercado de trabalho, há muito aconselhada, tem agora um contributo à medida do grupo de trabalho que o Governo criou para fazer propostas de mudança das regras laborais.
Tudo isto junto, não admira que quem se preocupa com essas classificações tenha muita dificuldade em colocar este Governo na gaveta da esquerda.»


Claro que não vou estragar a transcrição com nenhum comentário.
Fica aí para reflexão.

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