quarta-feira, abril 13, 2005

NEM TODAS AS NOTÍCIAS SÃO MÁS


Poliomielite quase erradicada, vinte anos depois da vacina.
Houve 1263 casos em 2004 e 68 registados este ano –
dá-nos conta Ricardo Garcia, a partir de Lyon, na sua reportagem de hoje, no Público

LIDO E ANOTADO

«Falluja é (era?) uma cidade do centro do Iraque situada no "triângulo sunita", considerada um dos principais bastiões da insurreição armada contra a ocupação americana do país. Por essa razão foi alvo de duas ofensivas militares das tropas dos EUA com a colaboração de forças do exército iraquiano ao serviço dos ocupantes. (…)
O drama de Falluja torna presente a injustiça, a barbárie, mas também o tremendo fiasco da invasão e ocupação do Iraque pelos EUA. O Iraque "libertado" por Bush é um cemitério de dezenas de Fallujas, é uma manta de retalhos ingovernável, é uma guerra de guerrilhas e de atentados desgastando interminavelmente os ocupantes, é a inequívoca oposição à ocupação da grande maioria da sociedade iraquiana na sua diversidade étnica, política e religiosa - mesmo de alguns sectores próximos dos EUA ou com eles colaborantes -, como o evidenciaram as recentes e maciças manifestações exigindo a retirada dos exércitos da coligação. E é também a fome, a destruição, a doença, a regressão civilizacional; são milhares de presos políticos sujeitos às torturas, execuções sumárias e humilhações que comprovadamente lhes foram e são infligidas pelas forças de ocupação e os seus cipaios locais. E, apesar disso e, por sobre tudo isso, é a expressão da incapacidade do império em alterar a correlação de forças na região. A não ser, claro está, pelo recurso a nova guerra de agressão, sempre na forja. O império é a guerra e depende dela para fazer das suas fraquezas estruturais a sua força.»

Fernando Rosas (Público, QA 13 ABR 05)

«Quando o presidente citou o cantor e poeta anarquista que melhor do que ninguém soube dizer o espírito inconformista e de revolta deste povo – “com Brassens visitámos o mercado de Brive la Gaillarde onde decerto iríamos encontrar alguns “gendarmes mal inspires” – os deputados renderam-se em aplausos.»
Ana Navarro Pedro, referindo-se a uma passagem do discurso, de ontem, de Jorge Sampaio na Assembleia Nacional Francesa, (id, id)

«Embalados pela crise no Iraque e emparedados entre interesses, os governantes portugueses optaram por estar ao lado de Bush e Blair. Grande parte da Europa, sobretudo dos países que mais zelaram pela grande utopia da construção europeia, estava do outro lado da barricada, mas a opção atlantista de Aznar, doentiamente subordinada aos Estados Unidos, foi a justificação perfeita para a decisão do governo português.»
Luís Osório (A Capital, QA 13 ABR 05)

«O primeiro-ministro, com a sorte de ter como aliado um novo presidente em Espanha, como ele europeísta e contrário à posição americana no Iraque, fez então questão de afirmar que o futuro de Portugal está na Europa e que aí, num mercado alargado e com cada vez mais obstáculos no caminho, o apoio e a aliança com os espanhóis são nucleares para a nossa sobrevivência e soberania.»
Id (id, id)

«A política faz-se de compromissos e de respeito pelos aliados, e deveremos zelar para que os Estados Unidos o continuem a ser. Mas os compromissos e a amizade, com todo o pragmatismo que a diplomacia exige, não pode estar à frente dos princípios e da identidade que escolhemos para o nosso futuro.
Deveremos ser autónomos na escolha dos princípios da nossa política externa, até pela nossa ligação a África e ao Atlântico, mas a construção europeia deveria ser um desígnio nacional. E uma boa e salutar relação com Espanha também.»

Id (id, id)

«Numa entrevista a um jornal espanhol e no quadro de uma visita oficial a Espanha - a primeira do seu mandato -, José Sócrates elegeu três prioridades para a política externa portuguesa Espanha, Espanha e Espanha.
Uma vez Espanha seria uma manifestação de bom senso; duas vezes poderia ser lido como uma cortesia; três vezes é, convenhamos, um manifesto exagero. (…)
As diferenças de escala e de poder económico entre os dois países aconselham prudência na aproximação entre duas realidades que têm pontos de partida diferentes. Não se trata, sublinhe-se, de acolher aqui uma lógica proteccionista - ridícula e indefensável - mas, tão-só, de compreender o risco que comporta o entendimento de Espanha como escala obrigatória para internacionalizar a nossa economia e as nossas empresas. Dizer que além da Espanha existem outros mercados naturais - da Inglaterra à França, dos Estados Unidos ao Brasil e aos PALOP - poderá parecer um lugar-comum, mas é também de senso comum.»

Miguel Coutinho (DN, QA 13 ABR 05)

«A perda de popularidade da UE não se limita a França. Há mil motivos, muito deles puras ficções e alguns contraditórios entre si, para as pessoas se desinteressarem da construção europeia, à esquerda e à direita e consoante os países. Ora este alheamento não se combate com campanhas de marketing, de que Bruxelas e as empresas do sector tanto gostam. Combate-se com política.
Os actuais políticos europeus, tirando talvez Blair (agora enfraquecido), não mostram vontade nem capacidade para mobilizarem os cidadãos em torno das vantagens da integração.»

Francisco Sarsfield Cabral (id, id)

«Mas que marca deixa João Paulo II do seu pontificado? Papa de paradoxos, deixa uma marca conservadora no plano teológico e moral e uma marca inovadora no plano político e social. Ambas, com reflexo evidente na sua presença internacional.»
Nuno Severiano Teixeira (id, id)

INTERMEZZO

Um exercício curioso.

Quem é que conhece bem a Europa?

Mas conhece mesmo?

Ora veja lá. Faça o teste (Creio que não é de ter medo… clique em OK)

PERGUNTA PERTINENTE (NADA INOCENTE): E DURÃO BARROSO, POR QUE LADO ENTRA?


Bartoon de Luís Afonso, do Público de hoje: 13 ABR 2005

NOTA:

O BARTOON tem sempre o mesmo endereço informático, embora cada dia com um diferente conteúdo.
Assim, o cartoon só corresponde ao título que o antecede
na data desse “post”.
Passado esse dia, tem que se procurar, no próprio BARTOON, a data a que um outro título e “post” respeitem, através da seta da esquerda, nele bem visível, ao lado do calendário.

terça-feira, abril 12, 2005

MEMÓRIA DO TEMPO QUE PASSA

Foi há 801 anos (1204), uma SG: conquista da cidade bizantina de Constantinopla pelos soldados da quarta cruzada dirigidos pelo Doge de Veneza. Aconteceu quando em Portugal reinava D. Sancho I (2º rei na sucessão) e no Vaticano pontificava Inocêncio III (176º papa, a contar com S. Pedro).
Constantinopla: antes, Bizâncio; hoje Istambul. Única cidade do mundo situada em dois continentes: Europa e Ásia, dum e doutro lado do estreito do Bósforo, entre o pequeno Mar da Mármara e o imenso Mar Negro. Capital do Império Bizantino, durante 10 séculos, foi depois capital do Império Otomano, durante 5 séculos. Kemal Ataturk, fundador da moderna Turquia, transferiu a capital de Istambul (a maior cidade do país, com cerca de 6 milhões de habitantes) para Ankara, na Ásia Menor, a cerca de 350 Km para leste. Em Istambul são imperdíveis monumentos de rara grandiosidade e beleza, como, entre outros, a Basílica de Santa Sofia (que primeiro foi catedral, depois mesquita e hoje é um museu), a Mesquita Azul e a Mesquita de Salomão, o Magnífico, além do interessantíssimo Palácio TopKapi. Ankara, de algum interesse, tem apenas o memorial (mausoléu) de Ataturk; mas de assinalável valor tem o Museu das Civilizações da Anatólia.

Foi há 144 anos (1861), uma SX: início da guerra civil americana: as tropas da Confederação do Sul disparam sobre a guarnição da União Federal no forte Sumter. Isto, quando era rei de Portugal D. Pedro V (31º). Pontificava Pio IX (255º).

Foi há 111 anos (1894), numa QI: nasceu Francisco Craveiro Lopes, presidente da República Portuguesa entre 1951 e 1958. Reinava D. Carlos (33º). Pontificava Leão XIII (256º).

Foi há 81 anos (1924), um SB: nasce Raymond Barre, economista e político francês. Em Portugal decorria o mandato presidencial de Manuel Teixeira Gomes. O romano pontífice era Pio XI (259º).
Raymond Barre foi ministro da economia e das finanças entre 1976 e 1978, e foi primeiro-ministro de 1976 a 1981. Concorreu com Mitterrand às presidenciais de 1988, mas foi derrotado.

Foi há 73 anos (1932), uma TR: nasceu José Tengarrinha (José Manuel Marques do Carmo Mendes Tengarrinha), professor universitário. Decorriam o longo mandato de Carmona e o longo consulado de Salazar. Pio XI (259º) era o papa reinante.
O Professor José Tengarrinha é docente da Faculdade de Letras de Lisboa, coordenador de projectos de investigação sobre o ensino da História em Portugal e no Brasil e Professor convidado da Universidade S. Paulo. Fundou e dirigiu os Cursos Internacionais de Cascais e é Presidente do Instituto de Cultura e Estudos Sociais. Tem vasta obra publicada no domínio da História e das Ciências Sociais em Portugal, Brasil, Espanha, França, Itália e Rússia. Em 1962 recebeu o prémio da Associação dos Homens de Letras do Porto. (Fonte: Associação de Professores de História).

Foi há 72 anos (1933), QA: nasce em Barcelona a catalã Montserrat Caballé, soprano. Continuava o mandato do general Carmona. E o pontificado de Pio XI.
A sua voz é extremamente adequada às heroínas puccinianas (designadamente Tosca, Butterfly, La Bohème) e outras que interpretou admiravelmente.
Escute e maravilhe-se com este trecho de Vincenzo Bellini, onde bem se destaca a força e a técnica da sua belíssima voz,
Casta Diva"

Foi há 60 anos (1945), : morre, com cerca de 63 anos, na Geórgia, Franklin Delano Roosevelt, 32º presidente dos EUA. Era ainda Carmona o PR de Portugal. Prosseguia o pontificado de Pio XII (260º).
Foi governador do estado de Nova Iorque (em cuja cidade, do mesmo nome, nasceu em 1882), de 1929 a 1932. Em 1933 é candidato do Partido Democrático às presidenciais, que vence. Rodeia-se de intelectuais e economistas (grupo que ficou conhecido como Brain Trust) e lança o New Deal, conjunto de medidas destinadas a ultrapassar a crise económica que se vivia, substituindo uma “economia livre” por uma “economia dirigida”. É reeleito em 1936. O ataque dos japoneses a Pearl Harbour (Dezembro de 1941) precipita a sua entrada na Segunda Grande Guerra. Reeleito, de novo, em 1944, morre no ano seguinte com uma crise cardíaca.

Foi há 44 anos (1961), uma QA: Iuri Gagarine, cosmonauta soviético, é a primeira pessoa em órbita terrestre. Em Portugal tínhamos Américo Tomás na PR. O papa era, então, o “Bom Papa João”, João XXIII (261º).

Foi há 30 anos (1975), um SB: morreu Josephine Baker, cantora e bailarina francesa de origem norte-americana. O Presidente da República português era o general Costa Gomes. Soberano pontífice era Paulo VI (262º).

Foi há 28 anos (1977), uma TR: é estabelecido um acordo entre a República Portuguesa e a República de Cabo Verde. Decorria o mandato do general Ramalho Eanes. Pontificava Paulo VI (262º).

Foi há 24 anos (1981), um DM: o vaivém espacial norte-americano Columbia é lançado de cabo Canaveral. Em Portugal era Ramalho Eanes o PR. No Vaticano continuava o pontificado de João Paulo II (264º).

O CUSCAS


A actriz espanhola Penélope Cruz, a nova diva dos cinéfilos, referiu, em recente entrevista, “a dificuldade que as actrizes têm em encontrar papéis que combinem a beleza com a inteligência”.

Esta clivagem entre a beleza e a inteligência já vem de muito longe.

Na actualidade, basta recordar as inúmeras anedotas que correm sobre as louras – supostamente modelos de idolatrada beleza (salvo seja relativamente a tantas e tantas…).

Mas isto faz-me lembrar um dito, também já muito antigo, que corria nos meus tempos de jovem. É que as miúdas giras geralmente eram destinadas à aprendizagem do ofício de estremosas esposas, boas mães, exemplares donas de casa. Era um destino quase inelutável: tão assediadas que eram, e idolatradas, e mimoseadas com piropos e galanteios, que não curavam de mais que da imagem. Em termos de aprendizagem escolar, quedavam-se, regra geral, pelo quinto ano, no máximo. E só com uma das secções. E, e !!!…

Assim, viam-se poucas “brasas” nas faculdades. Em Letras e em Direito sempre havia uma ou outra. Mas na Faculdade de Ciências, mais raras eram ainda. No Técnico, então, em centenas de jovens viam-se, dois ou três, vá lá, meia dúzia de palminhos de cara que valessem a pena.

Tal era a raridade que se contava que Nosso Senhor, quando nascia uma rapariga, perguntava-lhe: ouve lá, minha filha: quando fores grande queres ser gira ou ir para o Técnico?

Claro que era maldade. Que as havia – raras, era um facto.


NINO VIEIRA OU O OUSADO FORAGIDO À JUSTIÇA


É de facto muito grave o que acaba de se passar na Guiné-Bissau.

Nino Vieira, qual Bocassa dos tempos que correm, “foragido à justiça do seu próprio país, meteu-se há dias numa aeronave militar, rodeado de tropas estrangeiras, não pediu licença para sobrevoar o espaço aéreo guineense e aterrou onde quis”, no seu pátrio território.

Kumba Ialá, que tivera a ousadia de - antes do levantamento militar que, em 1998, levou Nino Vieira a abandonar o seu país, protegido por tropas portuguesas - o denunciar de corrupto e assassino – “quando isso era praticamente impossível na Guiné sem pagar um preço elevadíssimo – recebe-o agora de braços abertos, numa confraternização degradante e chocante.

Como foi possível que Portugal conferisse o estatuto de exilado político a um tão execrável indivíduo e político?

Como é possível manter esse estatuto a tão hedionda criatura?

Que lobby poderoso, que convergência de forças e interesses tornam possível que Portugal e a comunidade internacional acolham e protejam um déspota deste jaez?

Como pode o governo português – se é conhecedor da ocorrência, como se presume que seja – silenciar este acontecimento?

Acerca do assunto, veja, antes de mais, o editorial do subdirector do Público, Eduardo Dâmaso – um jornalista sereno mas contundente – na edição de hoje que, por não estar acessível electronicamente, se transcreve na íntegra. Depois

Uma nota sobre uma declaração do primeiro-ministro da Guiné-Bissau e líder do PAIGC, Carlos Gomes Júnior.

Veja-se, pois, primeiro o editorial:

« A nova tragédia guineense

O Governo legítimo da Guiné-Bissau não foi tido nem achado neste regresso meteórico de Nino Vieira

O ex-Presidente da Guiné-Bissau Nino Vieira, que abandonou o território guineense em 1998, protegido por tropas portuguesas, na sequência de um levantamento militar contra si, conseguiu um feito notável para um foragido à justiça do seu próprio país: meteu-se há dias numa aeronave militar, rodeado de tropas estrangeiras, não pediu licença para sobrevoar o espaço aéreo guineense e aterrou onde quis. Foi fotografado em amena cavaqueira com Kumba Ialá, o homem que teve a ousadia de lhe chamar assassino e corrupto muito antes de 1998, quando isso era praticamente impossível na Guiné sem pagar um preço elevadíssimo. Nino Vieira conseguiu fazer tudo isto sem ser preso ou sequer incomodado por algum episódio mais desagradável.
A indecorosa festa que Kumba e Nino fizeram um ao outro não podia ser mais representativa da nova tragédia que se avizinha para a Guiné-Bissau, traduzida na aparente reconciliação de dois déspotas que parecem ter acordado entre si a divisão do país em zonas de influência para cada um, numa altura em que têm inimigos comuns. Só esse combate lhes interessa, porque o país e o povo há muito deixaram de ser prioridades para estes dois.
O Governo legítimo da Guiné-Bissau não foi tido nem achado neste regresso meteórico de Nino Vieira, mas suspeita-se que tal só terá sido possível com a conivência das mesmas estruturas militares que o desalojaram à força do poder. Mais: tal viagem só terá sido possível com o conhecimento do Governo português, responsável pela concessão do estatuto de exilado político que Nino Vieira tem em Portugal. A confirmar-se que o Governo de José Sócrates teve conhecimento desta viagem desestabilizadora do processo democrático da Guiné-Bissau, que sentido faz manter o estatuto de exilado político a este senhor? Este será daqueles silêncios que vão queimar no futuro próximo, caso o Governo socialista não produza esclarecimentos sobre o episódio.
Nino Vieira não só tem de responder na justiça do seu país num processo por suspeitas de tráfico de armas, que esteve na origem do levantamento militar de 7 de Junho de 1998 e que conduziu à sua deposição, como certamente terá de esclarecer como é que permitiu a entrada de militares estrangeiros no país, pelas mortes de pessoas nesse conflito, e pela perda de bens de muitos guineenses. Isto para não recuar muito no tempo, porque se fossem abertas as feridas do passado, sobretudo as dos anos de repressão da segunda metade da década de 80, marcados por mortes bárbaras, entre as quais as de Paulo Correia e Viriato Pã, respectivamente, primeiro-ministro e procurador-geral da República, então Nino Vieira teria muito para contar. Quem se deve lembrar bem destes tempos é Mário Soares, Presidente da República à época dos factos, que se envolveu numa campanha internacional por um gesto de clemência em relação àqueles dois prisioneiros políticos mas não foi escutado. Ninguém era escutado em Bissau nesses tempos de barbárie em que o poder era a mais implacável e mortal das armas ao serviço de Nino Vieira. E é também com isso que o Estado português está a ser cúmplice. Eduardo Dâmaso»

De seguida a referida nota sobre a declaração de Carlos Gomes Júnior:

"Alertámos Portugal" para o "foco de instabilidade"

Depois de uma passagem por Dacar, no Senegal, o secretário de Estado português dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação, João Gomes Cravinho, é hoje esperado em Bissau para contactos políticos. Carlos Gomes Júnior escusa-se a dizer o que espera do Governo de Lisboa, deixando entender que os pedidos feitos até aqui não foram atendidos, como o de tentar desincentivar o ex-Presidente a regressar à Guiné: "Agora veremos o desenrolar dos acontecimentos." Questionado sobre se Portugal devia ou podia ter evitado o regresso de Nino Vieira, o primeiro-ministro guineense diz: "Nós sempre alertámos que ele era um foco de instabilidade e nunca um promotor da paz. Alertámos Portugal e toda a comunidade internacional. Ninguém levou em conta a nossa chamada de atenção."

"DIZ-SE"

Das citações do Público de hoje destaco:

"Luís Marques Mendes (...) não consegue afastar a imagem de chefe transitório, que servirá apenas para os tempos difíceis que se avizinham."
Miguel Romão
A Capital, 11-04-05

"No fundo das consciências dos militantes de Pombal existiu a certeza de que Marques Mendes é um segundo, jamais entusiasmará quem quer que seja. Ganhou, porque os primeiros não se apresentaram."
Daniel Sampaio
A Capital, 11-04-05

"Santana e Jardim bem podem "andar por aí". Politicamente, estão mortos para as grandes batalhas eleitorais, aquelas que verdadeiramente contam. (...) Santana e Jardim são passado."
Nicolau Santos
Expresso online, 11-04-05

"Decididamente, o vírus "anda por aí". Vai ser um caminho longo e ventoso aquele que Marques Mendes começou agora a trilhar, e não é certo que consiga chegar ao fim."
David Pontes
Jornal de Notícias, 11-04-05

MIGUEL VEIGA


Miguel Veiga é um homem de firmes convicções, de talento, de ideias escorreitas, de verbo fluente, de discurso elegante mas sumarento.

Do conhecido e insigne advogado do Porto e do destacado social-democrata, recorda Prado Coelho:

«Há tempos, [Miguel Veiga] publicou uma intervenção extremamente interessante intitulada A consciência entre o lícito e o ilícito, no âmbito da conferência O Cérebro entre o Bem e o Mal. E começa com estas palavras: "Declaro-me humanista personalista, heterodoxo, sujeito de razões e emoções, de convicções, de sentidos, de valores ético-sociais, pautado por referências normativas, embora desamparado de deuses e avesso às gramáticas de obediência e às cartilhas dogmáticas, sejam as das verdades reveladas, sejam as da salvação da história (que procurando instalar o céu na terra sempre dela fizeram um inferno) e reconheço-me por vocação, destino e profissão, advogado e jurista. Venho aqui como advogado, como prático do direito, sim, do direito, esse supremo normativo social."»


LIDO E ANOTADO



«O problema não é apenas dos têxteis. A China está a transformar-se rapidamente na "fábrica do mundo" e as suas exportações, sobretudo para a Europa e EUA, não param de crescer a um ritmo que tem sido muito superior ao das importações. (…) O que há de novo é que agora a Europa tem pela frente um colosso económico cujos mercados ambiciona acima de tudo e que tem as suas próprias armas para jogar no jogo da economia mundial.
A China é rapidamente arvorada em "parceiro estratégico" quando se quer vender Airbus e comboios de alta velocidade ou mesmo armamento sofisticado. Passa a ser um reles violador dos direitos sociais, uma ameaça ao "justo" comércio internacional, quando se trata dos têxteis.
Se fizer as reformas necessárias, a Europa acabará por encontrar o justo equilíbrio que lhe permitirá enfrentar o desafio. Portugal já é outra história. Temo que iremos pagar muito caro o facto de termos andado nos últimos anos cantando e rindo à procura do dinheiro fácil.»

Teresa de Sousa (Público, TR 12 ABR 05)

«Há crónicas de todos os géneros e feitios. Umas são comentários políticos. Outras têm uma dimensão panfletária. Algumas evocam aspectos da vida pessoal. Outras especializam-se, como Vasco Pulido Valente, em dizer mal de tudo e espalhar um ácido corrosivo sobre toda a realidade. (…)Mas há sobretudo as que gostam de pensar: pensar a política, pensar a vida cultural, multiplicar o espaço das ideias, a sua razão de ser. Exemplos notáveis: Pacheco Pereira, Vital Moreira. E, mais recentemente, Miguel Veiga. (…)As crónicas de Miguel Veiga são certamente difíceis e inesperadas. (…)Veja-se a recente e magnífica crónica sobre os intelectuais. Sem polemismos inúteis, evitando o confronto estéril entre Sartre e Aron, Veiga vai buscar a um e a outro o que contribui para desenhar a figura do intelectual nos nossos dias. Um intelectual que cada vez mais é outra coisa. Isto faz parte do que poderemos chamar "a utopia mínima contemporânea".»
Eduardo Prado Coelho (id, id)

«Claro que a minha resposta, sem ambiguidades, é sim à Constituição Europeia, ou melhor dito: ao Tratado europeu que aprovou o projecto de Constituição para uma Europa a 25. (…)Não é perfeita, mas representa o compromisso possível e, a meu ver, bastante amplo e aceitável, entre as diversas forças político-ideológicas que querem fazer avançar a construção europeia, como julgo ser imprescindível para um melhor futuro dos europeus e para um maior equilíbrio no Mundo.»
Mário Soares (A Capital, TR 12 ABR 05)

«Marques Mendes é, como se esperava, o novo presidente do PSD. O ministro de Cavaco e Durão Barroso, e líder parlamentar de Marcelo Rebelo de Sousa, deu o seu grito de Ipiranga e tem agora, tarefa difícil, de provar a si próprio, e depois ao país, que é capaz de despir a pele de número dois e vestir a de líder. De todas as tarefas, é uma das mais difíceis. Depois de anos a cumprir o que os chefes lhe pediam, e todos lhe gabaram a fidelidade, tem agora de convencer que não é apenas um mensageiro mas a própria mensagem.»
Luís Osório (id, id)

«Apesar da sua imagem de modernidade, [João Paulo II] foi um dos Papas mais conservadores de que há memória. Nomeadamente, na temática da contracepção, onde foi um entrave à qualidade de vida de milhões de seres humanos. Como homem de poder que era, a sua personalidade era ambígua. Estava particularmente interessado no combate à pobreza em África e, apesar de milhões de habitantes desse continente estarem infectados pelo VIH, continuou a condenar o uso do preservativo.»
Tiago Rodrigues (id, id)

«Luís Filipe Menezes é um flibusteiro. Vejo-o no sec. XVII, qual pirata do mar das Antilhas, a saquear quem ousasse aproximar-se. Louvo-lhe a coragem, uma virtude rara em muitos políticos. Inquieta-me o seu olhar, quase sempre de través, num topa-tudo ameaçador. Interrogo-me por que razão, há muitos anos, abandonou a Medicina, para aumentar o número de dependentes da política. (…) Menezes sabe que Mendes nunca levará o partido a grandes vitórias e está na sua natureza, como flibusteiro, não ficar parado a assistir. Com o excelente resultado que obteve no congresso, tudo fica em aberto: a candidatura ao Porto, a continuidade em Gaia, um qualquer lugar apetecível. E sempre pode invocar que nunca desertou, mesmo quando tudo corria mal.»
Daniel Sampaio (id, id)

«É verdade que o PSD está assombrado por fantasmas que andam por aí, uns há mais tempo que outros. Marcelo sabe do que fala há anos que se diverte a assombrar os líderes que lhe sucederam no partido. E aqueles que o precederam.
Mas não é só no PSD que isso acontece. Portugal é uma terra de fantasmas desde que a mediocridade nacional resolveu instituir, e ensinar aos mais novos, a fábula de um Rei que se perdeu na sua ambição sem deixar rasto.
Desde então, a história perdura nas brumas da insignificância de um dia de nevoeiro que, naturalmente, jamais resolverá os verdadeiros problemas.»

Raul Vaz (DN, TR 12 ABR 05)

«A leitura do estatuto editorial da Atlântico aponta um caminho difícil e controverso, começando pelo próprio grafismo, em que se encontram leitura e autores de qualidade, insatisfeitos de seguidismo partidário ou qualquer outro.
É um sinal forte que vai ser posto no mercado das ideias e do risco empresarial. Tem, de facto, uma identidade forte e polémica. Única. Ainda bem.
A direita que nele se revê é aquela que contem os germens com que se pode assegurar a liberdade política e económica.
É a direita do forte combate ideológico.
É a direita que confronta o pensamento dominante.
É a direita liberal que reuniu faz 20 anos em Ofir, com Francisco Lucas Pires.
É a direita que aceita as regras da democracia, mas combate, ideologicamente, a Constituição da República.»
É a direita que um país moderno tem que ter, se quiser ser reconhecido como tal.

J M M Cabral (id, id)


segunda-feira, abril 11, 2005

MEMÓRIA DO TEMPO QUE PASSA

Foi há 648 anos (1357), uma TR: nasce o futuro D. João I, filho bastardo de D. Pedro I, logo, irmão (consanguíneo) de D. Fernando, o último rei da primeira dinastia (afonsina). Reinava D. Afonso IV (7º). Pontificava Inocêncio VI (199º). D. João I, como Mestre de Avis, virá a liderar o movimento popular pró-independência e a ser aclamado rei nas Cortes de Coimbra de 1385, no dia 6 de Abril. Virá, também, a dar início à segunda dinastia (joanina ou de Avis) que presidiu aos destinos do nosso país durante quase dois séculos. D. João I reinou durante 48 anos, de 1385 a 1433.

Foi há 491 anos (1514), uma TR: morre Donato Bramante, arquitecto italiano que iniciou a construção da basílica de São Pedro, em Roma. Em Portugal reinava D. Manuel I (14º). O romano pontífice era Leão X (217º)

Foi há 481 anos (1524), uma SG: início da conferência de Badajoz entre representantes de D. João III, rei de Portugal, e de Carlos III, rei de Espanha, a fim de encontrar uma solução para a Questão das Molucas. O arquipélago das Molucas ou Ilhas das Especiarias foi descoberto em 1511 pelos navegadores portugueses comandados por António de Abreu e Francisco Serrão.
Durante o reinado de Carlos I, de Espanha (que era Carlos V da Alemanha) agudizou-se a questão das Molucas, sobre qual dos países ibéricos detinha verdadeiro e legítimo domínio sobre o arquipélago já que, segundo os castelhanos, as ilhas se situavam no hemisfério que lhes cabia, de acordo com o Tratado de Tordesilhas. Para dirimir amigavelmente essa pendência, houve a referida conferência. Mas sem que se tenha chegado a definitivos resultados. Estes só pelo tratado de Saragoça foram atingidos, com nítida desvantagem para os portugueses.
A dominação portuguesa enfraqueceu no início do séc XVII por mor dos ataques holandeses. A Holanda anexou mesmo, então, o arquipélago, colonizando-o até 1949.

Foi há anos 292 anos (1713), uma TR: no âmbito do tratado de Utreque (Holanda) que pôs termo à guerra da sucessão (de Espanha), D. João V (24º) assina a paz com a França, reconhecendo os direitos de Filipe de Anjou ao trono de Espanha, assim o aclamando. (Guerra absolutamente inglória para Portugal, rezam os historiadores). Decorria o pontificado de Clemente XI (243º).

Na mesma data: Minorca e Gibraltar são cedidos à Inglaterra.

Foi há 250 anos (1755), uma SX: nasceu James Parkinson, médico inglês que descobriu a doença de Parkinson. Em Portugal decorria o reinado de D. José (25º). No Vaticano pontificava Bento XIV (247º).

Foi há 191 anos (1814), uma SG: Napoleão abdica do trono e é exilado na ilha de Elba. Em Portugal decorria a regência de D. João (VI). Pontificava Pio VII (251º).

Na mesma data Luís XVIII é coroado rei de França.

Foi há 95 anos (1910), uma SG: nasce António de Spínola, presidente da República Portuguesa entre 15 MAI e 30 SET 1974. Ainda Reinava D. Manuel II. O soberano pontífice era o papa Pio X (257º), que viria a ser canonizado.

Foi há 72 anos (1933), num TR: entra em vigor a nova Constituição, que vigoraria até 25ABR1974. Decorrem o longo mandato de Carmona e o longo consulado de Salazar. Pio XI (259º) é o papa reinante.

Foi há 44 anos (1961), uma TR: movimento Abrilada: Botelho Moniz, ministro português da Defesa, tenta substituir Oliveira Salazar, o presidente do Conselho de Ministros. Américo Tomás era o PR. O Bom Papa João, João XXIII (261º), o papa reinante.

Na mesma data Adolf Eichmann, criminoso de guerra nazi, é julgado em Jerusalém após ter sido raptado da Argentina, onde se encontrava fugido desde a II Guerra Mundial.

Foi há 18 anos (1987), um SB: Cavaco Silva, primeiro-ministro português, inicia uma visita oficial a Pequim, durante a qual assinará o acordo luso-chinês que estabelece a transferência da administração de Macau para a China em Dezembro de 1999. Estávamos no segundo ano do primeiro mandato da presidência de Mário Soares. João Paulo II (264º) era o pontífice reinante.

Na mesma data morre Erskine Caldwell, aos 84 anos, escritor norte-americano, nascido na Geórgia/EUA, em 1903. Produzia extensa obra, de vivo realismo, sempre atento aos problemas e injustiças da sociedade sulista do seu país. Vários dos seus títulos tiveram tradução em português. Escreveu, entre outros, A Estrada do Tabaco (1923), O Pequeno Rincão de Deus (1932) e um Rapaz da Geórgia (1943).

Foi há 10 anos (1995), uma TR: em Portugal, no Europarque, concerto com José Carreras e Iliana Cotrubas, entre outros. Estávamos no último ano do segundo mandato de Mário Soares. O papa continuava a ser João Paulo II.

QUEM ENTRA PAPA…


Não, nem desta vez se trata da nossa habitual tacanhez, do nosso costumado provincianismo patrioteiro.

A edição de hoje do The Guardian insiste, mesmo, na tecla de que D. José Policarpo é apontado como um dos principais favoritos na sucessão de João Paulo II.

E na sua leitura dessa notícia, o Público Online refere mesmo que o patriarca de Lisboa “é o candidato em melhor posição para unir os cristãos europeus e latino-americanos”…

Primeiro, não estou a ver os, geralmente, conservadores (muitos, ultra-conservadores) cardeais a escolherem para romano pontífice um cardeal sabidamente inveterado fumador!...

Pese embora o seu restante perfil, as suas altas qualidades, a sua indiscutivelmente superior inteligência, o seu muito saber… Tudo. Mas esse pecadilho… seria o suficiente para tolher os eminentíssimos cardeais.

Depois… Todos esquecem que, geralmente, não é nenhum dos muito badalados cardeais que é eleito… Tem sido quase sempre uma surpresa a escolha do conclave.

Por fim, e ainda relacionada com a anterior, há também uma outra expressão dessa surpresa, dessa incerteza, dessa eventual (quase certa) contrariedade: a já proverbial expressão: “quem entra papa, sai cardeal”.

Esperemos, pois, pelo regresso de sua Eminência, e que ele vele pela sua diocese com uma inteligência esclarecida.

“VOU ANDAR POR AÍ”


«A ele [Santana Lopes] se deve a grande frase deste congresso: "Não estou aqui, mas vou andar por aí". Como é habitual, a frase não significa coisa nenhuma, é apenas uma ameaça vaga, mas é precisamente por isso que se revela tremendamente eficaz. Tem o mérito das grandes frases publicitárias: toda a gente a vai repetir sem saber o que com ela quer dizer» - escrevia, hoje, no Público, Prado Coelho

A expressão (embora só com dois dias) tem sido muito recorrente, basto glosada. E muito gozada.

E logo que a ouvi, ou li, pela primeira vez, me lembrei de José Gil.

Este filósofo que tão bem conhece a nossa realidade e que tão bem “topa” (passo a ligeireza do termo, mas acho-o tão expressivo!) Santana Lopes


“o governo de Santana Lopes, leviano, um pouco [?!] extravagante,
incompetente, mas de boa vontade [?!], que age impunemente mas,
por isso mesmo inocente (um pouco como uma criança
que faz mal sem intenção)” [imaturo, esclareço eu]


analisa, no capítulo em que descreve os nossos medos, a santanista expressão (ao mesmo tempo um aviso e uma ameaça), que classifica deexpressão típica do viver desta estranha pseudocontingência do deambular lusitano” : “O «por aí» refere-se a um pequeno território de deambulação (física e mental), ao mesmo tempo invisivelmente enclausurado e internamente livre. Nesse espaço reduzido, o sujeito vai passear ao acaso, cheirar o ar, deixar vir a si as coisas visíveis, sentar-se num café a ler o jornal, provocar sem dúvida calmos encontros esperadamente inesperados com outros que também andam «por aí» (cf “Portugal, Hoje: O Medo de Existir”, Relógio D’Água/Argumentos, págs 128 e 74).


“DIZ-SE”


Das citações do Público de hoje, transcrevo:

"O novo líder do PSD vai precisar de muito engenho e arte para resistir aos que, por agora na defensiva, espreitam a sua oportunidade de serem úteis."
António José Teixeira
Jornal de Notícias,10-04-05

"Marques Mendes é uma formiguinha e um partido tão debilitado como o PSD precisa agora de um workaolic da política."
Judite de Sousa
Jornal de notícias, 09-04-05

“A CLASSE OPERÁRIA MORREU. VIVA A CLASSE OPERÁRIA!”


Recomendo a leitura do trabalho de António Vilarigues, no Público de hoje, com o título acima reproduzido.

Nesse trabalho, e em jeito de posfácio, diz o autor: “Este texto é retirado, com ligeiras adaptações, da Resolução Política do XVII Congresso do PCP. A tal que a comunicação social raramente leu na sua totalidade, quando não ignorou pura e simplesmente. A tal, dizem, que não tem nada de novo...”

Pois é: é preciso ler tudo para se saber do que se fala…


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