segunda-feira, abril 11, 2005

QUEREM MELHOR EXEMPLO DE FIDELIDADE?



E o indizível Luís Delgado não desarmou. A sua lealdade inexcedível, a sua fidelidade inultrapassável (canina, só pode ser a comparação – e o boby que me perdoe!) está retratada nestes excertos do seu artigo de hoje no Diário de Notícias:


“Marques Mendes teve a infelicidade, inesperada, num homem experiente, de atacar Santana Lopes, no seu primeiro discurso. Saiu-se mal, e percebeu que o PSD não esquece a injustiça praticada ao líder «executado» por Belém. Se alguém «levantou» o Congresso foi Santana Lopes, o que não deixa de ser sintomático e extraordinário. O PSD é nobre, agradecido, e irrita-se com deslealdades.”


“Pedro Santana Lopes vai «andar por aí». Viu-se, num congresso onde não tinha delegados, que mantém o carisma e uma simpatia imbatível. O PSD percebe o que aconteceu, reconhece que é necessário que o tempo cure as feridas, as desilusões, mas continua a ver no ex-líder uma força que nenhum outro tem, uma coragem que poucos demonstraram, e uma capacidade de «viver» que está destinada a poucos. Deus não dorme, e Santana sabe isso, como poucos.”


LIDO E ANOTADO

«[A propósito do congresso do PSD] embora a referência a Portugal esteja sempre presente, existe uma espécie de nacionalismo partidário que não deixa de impressionar. Acima de tudo, existe o partido. A força do partido é algo que tem uma importância absoluta. Não é Portugal que está primeiro, é o partido que está ao serviço de Portugal. Se, em determinadas circunstâncias, se põe em causa o partido, é porque devemos pensar na realidade complexa do partido, porque é este que conta.»
Eduardo Prado Coelho (Público, SG 11 ABR 05)

«O povo que pela televisão, pela rádio e pela imprensa globais vimos unido em pensamento e coração com o passamento de João Paulo II, excedeu o que se podia imaginar. Na homenagem que livre e espontaneamente tantos e tão diversos homens e mulheres, poderosos e anónimos, velhos e jovens, crentes de tantas religiões e não crentes, lhe quiseram prestar, em Roma e por toda a parte, reuniu-se, como nunca dantes, o mundo todo!
Perante isto, não é possível passar honestamente adiante sem nos sentirmos fortemente interpelados pelo essencial do fenómeno.»

Mário Pinto (id, id)

«Compreendo mais facilmente porque este Papa foi humilde e forte; caloroso e sem respeitos humanos contra o erro; foi corajoso e fez a confissão inteira e pública dos pecados da Igreja, perante o mundo e as outras religiões; foi um homem de oração e de acção; sem receio de mostrar o seu discernimento místico na fé. (…)
Foi conservador porque conservou o que é bom e deve ser conservado, pense o mundo o que quiser. Mas não reteve nada que tivesse que ver com o conservadorismo dos orgulhos ou poderes do passado, os velhos privilégios de poder ou de influência, com a submissão à hegemonia dos países mais fortes. A sua última grande encíclica social, Centesimus annus, contém uma intrépida recapitulação sobre a doutrina do destino universal dos bens, e, como nunca se escreveu antes, a mais extensa, dura e directa crítica ao capitalismo materialista da era pós-comunista»

Id (id, id)

«Todos os partidos têm um lado tribal. E o PSD mais do que todos os outros. Os congressos social-democratas são, de resto, exercícios únicos onde se misturam rituais tribais de amor ao partido - mesmo quando se diz que o maior amor é Portugal... - com aquilo que é próprio dos terrenos onde se confrontam as diferentes famílias que integram as tribos. Com uma particularidade: no PSD muda-se de família muitas vezes, ao sabor das conveniências e sem coerência perceptível.»
José Manuel Fernandes (id, id)

«A herança da mais desastrada e trágica de todas as suas lideranças, a de Santana Lopes, é pesada. O partido revelou-se mais tribalizado do que nunca, com grupos e grupinhos a federarem-se para conseguirem migalhas de poder interno. (…)A prova disso é a permanência da pulsão populista, indisfarçável quando um candidato como Luís Filipe Menezes recebe quase 44 por cento dos votos dos delegados.»
Id (id, id)

«Marques Mendes venceu o Congresso do PSD, em Pombal. Uma vitória anunciada, mas bem menor do que a que a maioria previa. O populismo nas hostes do PSD ainda vai vingando. Foi uma vitória de Pirro. Que fazer com esta vitória que lhe não dá forças para a ruptura e lhe exige muita força para a negociação? Marques Mendes sempre foi considerado um hábil negociador, sobretudo na sua vertente parlamentar. Sendo um homem mais lógico do que emotivo, vai ter de estabelecer equilíbrios no Conselho Nacional, onde tem 19 votos, contra 11 de Menezes e 22 das outras listas. Vai ser um exercício de diplomacia, de corredor e de cedências. Uma estratégia para fazer oposição ao Governo será talvez possível. Não parece é ser possível uma estratégia para alterar o PSD, regenerá-lo, desejo expresso por tantas vozes.»
Rogério Rodrigues (A Capital, SG 11 ABR 05)

«O PSD tem uma característica muito própria não gosta de dizer mal dos seus líderes partidários, mesmo que estes tenham conduzido o partido a uma catástrofe eleitoral. Fiel à tradição, o Congresso de Pombal não só não discutiu a deriva populista recente, como deu quase metade dos votos ao candidato à liderança que só se perfilou por, nas suas palavras, Santana Lopes não querer continuar à frente do partido. Como se tudo isto não bastasse, conhecida a votação, verificou-se que boa parte dos 56 por cento que deram a vitória a Marques Mendes apoiou a moção de António Borges, que não deixara de frisar ser o novo líder uma segunda escolha para os subscritores dessa moção.»
António Perez Metelo (DN, SG 11 ABR 05)

«Como todas as leis, esta [limitação dos mandatos políticos] também não terá efeitos retroactivos, pelo que os dinossauros do poder – central, regional e local – vão chegar até ao final dos respectivos mandatos, mesmo que tenham manifestamente dado provas de ter ultrapassado os prazos de validade. O que não quer dizer que não vão estrebuchar numa derradeira tentativa de sobrevivência.
Os verdadeiros dinossauros também teriam resistido se os astros lhes tivessem dado tal oportunidade.
Mas a lei, do que já se conhece, não vai constituir um cataclismo semelhante ao que varreu da face do planeta os portentosos sáurios. Portugal é um país civilizado, de brandos costumes e hábitos contemporizadores. (…)

A lei valerá daqui para o futuro mas o passado fica a zeros. O que daria, por exemplo, para que Alberto João Jardim ou Carlos César não pudessem habilitar-se a mais de três novos mandatos, não entrando nas contas os que já cumpriram. No caso do governador da Madeira, isto significaria que Alberto João Jardim se poderia, na prática, abalançar a disputar o recorde de permanência no poder ainda detido pelo Dr. Salazar.»
João Paulo Guerra (Diário Económico, SG 11 ABR 05)

«Depois de se ter transformado num Peter Pan político, devido à acção Ideológica de Santana Lopes, o PSD quer passar à fase adulta. É sensato e é útil para o país. Sem oposição, qualquer Governo torna-se escravo das guloseimas do poder e sabe-se como tudo isso termina: com a degradação do Império e dos costumes espartanos. Mas, cortando de alguma maneira com o passado, o PSD ainda parece estar perdido no meio de um deserto. (…)O PSD continua à espera de um beduíno que lhe dê boleia. Tendo apagado o passado recente e construído um presente carregado de interrogações, o PSD ainda está à espera de um nevoeiro cheio de cores laranjas.» Fernando Sobral (Jornal de Negócios On Line, SG 11 ABR 05)

MARQUES MENDES ELEITO SEM SURPRESA


Era consabido. Para usar a expressão popular: eram favas contadas.

Muito se tem escrito sobre a eventualidade – antes; sobre a realidade – agora, depois.

Mas e o “povão”? Que dirá, que pensará ele?

Então, não é que o Sr Felisberto – lá bem nesse meio do ignoto povo - tem uma opinião, e, quanto a mim, nada desprezível?

Ora “oiça”!


OUVIDO, ANOTADO: PARA REFLECTIR


Ouvi esta manhã na TSF: Em Portugal há 300 mil pessoas com fome. E existem 2 milhões de pobres!!!

Dá que pensar…

domingo, abril 10, 2005

MEMÓRIA DO TEMPO QUE PASSA

Foi há 141 anos (1864), um DM: o arquiduque da Áustria, Maximiliano, é coroado imperador do México. Em Portugal reinava D. Luís (32º). E em Roma pontificava Pio IX (255º).

Foi há 129 anos (1876), uma SG: publicação da carta que permite a criação da Caixa Geral de Depósitos, em substituição do antigo Depósito Público. Reinava D. Luís (32º). O sumo pontífice era Pio IX (255º)

Foi há 86 anos (1919), uma QI: Emiliano Zapata, líder revolucionário mexicano, é assassinado, no seu país. Canto e Castro era, na altura, o PR de Portugal. No Vaticano pontificava Bento XV (258º).

Foi há 81 anos (1924), uma QI: nasceu Sebastião A. Cardoso da Gama, poeta português. Em Portugal era presidente da República Manuel Teixeira Gomes. Em Roma pontificava Pio XI (259º).

Foi há 73 anos (1932), um DM: nasceu Omar Sharif, actor egípcio. Em Portugal decorria o mandato presidencial do general Carmona. No Vaticano pontificava Pio XI (259º).

Foi há 51 anos (1954), um SB: morreu Auguste Lumière, pioneiro do cinema, químico e biólogo francês. Em Portugal decorria o mandato presidencial do general Craveiro Lopes. Pontificava Pio XII (260º).

Foi há 35 anos (1970), uma Acabam os Beatles. Um último disco do conjunto, “Let it be”, será editado já depois da dissolução. Em Portugal decorria o mandato presidencial do almirante Américo Tomás. Pontificava Paulo VI (262º).

Foi há 28 anos (1977), um DM: Jorge de Sena, poeta, dramaturgo e ensaísta, é feito comendador da Ordem do Infante D. Henrique pelo presidente da República, general Ramalho Eanes. Pontificava Paulo VI (262º).

Foi há 22 anos (1983), um DM: Issam Sartawi, representante da OLP nos trabalhos do XVI Congresso da Internacional Socialista, é assassinado no átrio do Hotel Montechoro, Albufeira, Algarve. Era presidente da República, então, o general Ramalho Eanes. A Igreja era dirigida pelo papa João Paulo II (264º).

Foi há 20 anos (1985), uma QA: o cantor Zeca Afonso (José Afonso) é homenageadoe agraciado num grande espectáculo, em Amesterdão, que engloba a actuação de diversos músicos e a exibição de filmes. O PR era, nessa altura, Ramalho Eanes, e continuava, então, o pontificado do papa João Paulo II.

Foi há 8 anos (1997), uma QI: o campeão russo de xadrez, Kasporov, é derrotado pelo computador Deep Blue, da IBM. Era presidente da República o Dr Jorge Sampaio. Decorria, ainda, o pontificado de João Paulo II.

Foi há 7 anos (1998), uma SX: os Partidos Políticos da Irlanda do Norte e os Governos da Irlanda e da Grã-Bretanha chegam a um acordo de paz. Em Portugal prosseguia o mandato de Jorge Sampaio e no Vaticano continuava o longo pontificado de João Paulo II.

Foi há 4 anos (2001), uma TR: a Holanda, como sempre palco das mais ousadas reformas e das mais arrojadas iniciativas, é o primeiro país do mundo a legalizar a eutanásia. Em Portugal continuava o mandato presidencial de Jorge Sampaio. Em Roma prosseguia o pontificado de João Paulo II.

AS CITAÇÕES DO PÚBLICO DE HOJE


Da sua coluna de citações de hoje, do Público [“Diz-se”], destaco:

"António Borges vai a Pombal [ao congresso do psd] marcar o ponto. Não vai fazer a rodagem do carro. Vai sentir o grau de adesão a um hipotético sebastianismo económico."
Judite de Sousa
"Jornal de Notícias", 09-04-05

"Sempre que o País está prestes a esquecer a existência de Santana Lopes, ele aparece."
Paula Baldaia
Diário de Notícias, 09-04-05

"Santana Lopes, que já incendiou congressos, sai agora pela porta baixa. Todavia ninguém pode garantir que ele está politicamente morto."
Emídio Rangel
Correio da manhã, 09-04-05

"Neste tempo de névoa, com uma maioria absoluta do PS de José Sócrates, os sociais-democratas mais não são do que fantasmas."
Paulo Baldaia
Diário de Notícias, 09-04-05

"O país, mais do que um "choque fiscal" ou um "choque tecnológico", precisa de um "choque cultural", que, naturalmente, só pode partir das elites que se exprimem na opinião pública."
Daniel Proença de Carvalho
Diário de Notícias, 09-04-05



"João Paulo II conquistou o mundo, mas deixou uma Igreja em crise."
Vicente Jorge Silva
ibidem

CARTA A SANTANA LOPES, DE “UMA ADMIRADORA (OU ALGO MAIS)”


“Pedro, vemo-nos por aí”, é uma carta de “uma admiradora (ou algo mais)” de Santana Lopes. Uma deliciosa prenda, de hoje, da coluna “Pão & Rosas”, do Público, escrita pela pena de Ana Sá Lopes.

ESTATÍSTICAS


Em certas circunstâncias, como as que rodeiam alguns grandes acontecimentos, as pequenas notas estatísticas picam-me. Acho-lhes piada. Atento nelas.

É o caso, desta vez, da duração dos conclaves, ao longo dos séculos.

A minha fonte é a última edição do Expresso. E assim, temos:

PAPA

ANO

Nº DE DIAS

Gregório X

1271

1095 (3 anos)

Nicolau V

1288

365 (1 ano)

Pio VII

1799

106

Gregório XVI

1831

54

Pio VIII

1829

30

Leão XII

1823

26

Pio X

1903

4

Pio XI

1922

4

Benedito X

1914

3

João XXIII

1958

3

João Paulo II

1978

3

Pio IX

1846

2

Paulo VI

1963

2

Leão XIII

1878

1,5

Pio XII

1939

1

João Paulo I

1978

1

Júlio II

1503

algumas horas

AS MINHAS TRANSCRIÇÕES DE HOJE

«O domingo é o dia consagrado à descoberta do método cristão para resistir à morte da esperança.»
Frei Bento Domingues (Público, DM 10 ABR 05)

«Insiste-se na participação frequente na missa e no culto eucarístico. Mas não se anota nenhum caminho para que um grande número de comunidades católicas, por falta de padres, possa ter acesso à mesa do "pão da vida". Por razões de carácter disciplinar, encobertas por motivos pseudoteológicos, não se chamam, não se preparam nem se ordenam homens casados e mulheres para presidirem à eucaristia.»
Id (id, id)

«O espectáculo do sofrimento do Papa agonizante transfigurou-se na celebração globalizada pela televisão, reunindo, numa multidão imensa, as elites políticas e religiosas e o chamado "povo anónimo", crentes e não-crentes, amigos e adversários.»
Mário Mesquita (id, id)

«A fuga de Guterres, o abandono de Barroso e o destempero de Santana tinham deixado tudo, mais ou menos, de pantanas.»
António Barreto (id, id)

«Onde ele [Santana Lopes] aparece há circo e, desta vez, como se esperava, também houve. O PSD e, suponho, o grande público iletrado gostam daquele número: a vítima, a traição, o morto-vivo, a vingança. Que tudo isto seja um pouco indigno nunca preocupou ninguém. O resto do espectáculo é uma maçada sem alívio, com gente que se leva a sério a debitar inanidades sobre a pátria. Santana, ao menos, traz sempre a faca e o alguidar. Vai fazer falta.»
Vasco Pulido Valente (id, id)

«O próprio Congresso do PSD é de transição. Todos intuem que terão de esperar quatro anos. Pelo menos para uma liderança mais duradoura e sustentável. Até lá, vão tendo três motivos de preocupação e também de esperança: o papel errante de Santana Lopes, as autárquicas e as presidenciais. Santana Lopes é a incomodidade; as autárquicas, a grande dúvida, e as presidenciais, a esperança.»
Rogério Rodrigues (A Capital, DM 10 ABR 05)

«Quando Santana Lopes afirma em pleno Congresso: «eu vou andar por aí», faz o seu retrato mais profundo e verdadeiro, mesmo que ele não tenha tido consciência disso. Andar por aí significa não ter lugar. Representa a ausência. A ausência de lugar, numa perspectiva etimológica do grego, significaria utopia. Não é o caso de Santana Lopes, que, desde a campanha eleitoral, usa a metáfora já gasta e sem grande criatividade, diga-se, da faca, em detrimento do assassinato. Acontece que Santana Lopes preferiu o suicídio. Santana Lopes, já sabíamos que não entendia a realidade, ficamos a saber agora que não se entende a ele mesmo. E a um lugar prefere a errância. É o único sinal de coerência que se lhe conhece.»
Id (id, id)

«Quando cheira a uma possibilidade de vitória, o PSD une-se com toda a força.»
Id (id, id)

«A moção de António Borges é um fracasso quando o próprio diz que não quer nada, nem sequer Poder. Assim, não passa de uma terceira via que ainda não começou. Além das banalidades proferidas, abusou do desconhecimento da realidade do país e da realidade do seu partido.»
Id (id, id)

«Este Congresso não passa de um Congresso Extraordinário para sarar feridas, recuperar da descrença e anunciar às bases que a paciência é uma virtude. Que o Poder não está à porta. E que é necessário não desistir entre a impulsividade da caça e a serenidade da pesca.»
Id (id, id)

«O 25 de Abril é mais novo que a maioria dos portugueses. É preciso ter nascido no mínimo nos anos 50 para conhecer o tédio político. Era sempre a mesma merda; tudo previsível. Não havia notícias nem novidades. O cinzentismo era um clima. Todos os dias eram cinzentos; "solenes" e carregados; sem cor nem interesse. O tédio das ditaduras é um veneno mortífero que, graças a Deus, leva uns poucos iluminados a descobrir o antídoto. A maioria adormece e fica quieta. Na pasmaceira, esquecem-se expectativas e desejos. Tornamo-nos todos membros do regime instalados e conformados mas, por efeito apático, colaboradores e culpados. Não sou historiador mas parece-me que os portugueses nunca conheceram o tédio saudável que é o democrático. É um tédio que resulta da preguiça e do cinismo, duas qualidades menosprezadas mas louváveis. Não se vai votar porque "já se sabe" quem vai ganhar - ou que "um voto não é nada. Não nos damos - mesmo os abstencionistas - ao trabalho de passar cinco minutos a escolher se, mal por mal, é pior o PS ou o PSD. Logo se vê E vê-se. Com claridade e um mínimo de esforço. É a certeza errada (mas reconfortante) que "tudo vai dar ao mesmo". Seja qual for a vontade do povo - acaso a tenha -, quem ganha é sempre o Governo. Está certo. Estas últimas eleições foram diferentes. A abstenção deu um passo atrás. Os eleitores enervaram-se. Houve hesitações. Tomaram-se decisões.»
Miguel Esteves Cardoso (DN, DM 10 ABR 05)

«Há e sempre houve, para o bem e para o mal, uma vertigem messiânica no PSD. Ao contrário dos outros partidos, os congressos dos sociais-democratas não existem apenas para discutir política e escolher um líder - comportam uma dimensão de sonho que envolve as suas bases num plano que ambiciona tocar o transcendente.
O PSD organiza verdadeiros conclaves que não se limitam a votar um presidente há, nesta escolha, um ritual em que pequenos sinais - como uma banal rodagem de um carro - se transformam numa partilha que preenche o imaginário colectivo.
O PSD não sabe, por regra, viver com homens comuns. Daí a perplexidade generalizada neste congresso de Pombal o PSD que elegeu Francisco Sá Carneiro e Aníbal Cavaco Silva não compreende que tudo se limite a uma escolha entre dois políticos normais, Luís Marques Mendes e Luís Filipe Menezes.
O PSD que se rendeu à inteligência superior de Marcelo Rebelo de Sousa, à imbatível frieza de Durão Barroso e aos arrebatamentos de Pedro Santana Lopes olha hoje para os candidatos à liderança do partido e sente um vazio. Falta - sejamos objectivos - em Mendes e Menezes um je ne sais quoi

Miguel Coutinho (id, id)

«D. José Policarpo é sportinguista, fumador compulsivo e detentor de uma ironia fina. Destes traços de personalidade, dificilmente se adivinharia um candidato ao lugar de Papa. Ainda mais quando se trata de um dos poucos apontados como “provável” nos complexos bastidores do Vaticano.»
Rosa Pedroso Lima (Expresso, SB 09 ABR 05)

«O endeusamento que se tem feito dos dois Antónios [Vitorino e Borges], vendo-os como santos milagreiros sempre que um lugar aparece vago, não tem sido bom para eles: já circulam anedotas sobre António Vitorino e, de António Borges, diz-se que é “o António Vitorino do PSD”.
E esse endeusamento também não é dignificante para o país.
Revela uma sociedade frágil, carente e ansiosa, pronta a correr atrás da primeira ilusão.»

José António Saraiva (id, id)

sábado, abril 09, 2005

MEMÓRIA DO TEMPO QUE PASSA

Foi há 513 anos (1492), uma SG: morreu Lourenço de Médicis, o Magnífico, filósofo, poeta, mecenas e diplomata italiano. Em Portugal reinava D. João II (13º). Pontificava Inocêncio VIII (213º).
Médicis é o nome da mais célebre família ducal da república florentina. Foi principalmente Giovanni de Médicis (falecido em 1420) – o banqueiro mais rico da Itália - o iniciador da grandeza da família, que deixou aos seus dois filhos (Cósimo e Lourenço) uma herança de riqueza e honrarias nunca até então igualadas.

Com Cosme de Médicis (Cósimo de Medici: 1389-1464), a quem chamaram “Pai da Pátria”, começou a época gloriosa dos Médicis. E com o neto deste, Lourenço, o Magnífico (1449-1492), Florença atinge o apogeu, quer no poder político, como nas realizações artísticas, nas letras, nas artes plásticas.
Na verdade, Lourenço reúne na sua corte uma notável plêiade de artistas, filósofos, humanistas, homens de letras e de ciências, tornando-se o mais generoso dos mecenas.
Os Médicis deram à Igreja 3 papas: Leão X (217º), Giovanni de Medici, filho de Lourenço, o Magnífico, foi papa de 1513 a 1521 – quando em Portugal reinava D. Manuel I; Clemente VII (219º), Júlio de Médicis, contemporâneo do nosso rei D. João III, cujo pontificado decorreu de 1523 a 1534; por fim Leão XI (232º), cujo pontificado – no tempo em que reinava em Portugal Filipe II – apenas durou 26 dias, de 1 a 27 de Abril de 1605.

Além disso, os Médicis deram também duas rainhas à França: Catarina de Médicis que casou com Henrique II, em 1533, exactamente quando pontificava um Médicis, Clemente VII, e em Portugal reinava D. João III; e Maria de Médicis, que casou com Henrique IV e foi rainha de 1600 a 1610 – quando em Portugal reinava Filipe II e em Roma se seguiram os pontificados de Clemente VIII (231º), do Médicis Leão XI (232º) e de Paulo V (233º).

Foi há 379 anos (1626), uma QI: morreu Francis Bacon, político e filósofo inglês. Em Portugal reinava Filipe III (20º). Na cadeira de Pedro estava Urbano VIII (235º).
Francis Bacon é considerado o autor de um método técnico de análise científica (não do método experimental na sua complexidade, por não ter conhecimentos matemáticos).
A sua obra principal, Instauratio Magna, é composta de duas partes: Da dignidade e Desenvolvimento das Ciências e Novum Organum.

Foi há 235 anos (1770), uma SG: James Cook, explorador britânico, o primeiro europeu a alcançar a costa oriental da Austrália. Reinava em Portugal D. José (25º). Ocupava o trono de Pedro Cemente XIV (249º).

Foi há 184 anos (1821), uma SG: nasceu Charles Baudelaire, poeta francês. Em Portugal reinava D. João VI (27º). Em Roma pontificava Pio VII (251º).
Uma das obras que mais o notabilizou intitula-se Les Fleurs du Mal, pelo enorme escândalo que causou, sobretudo pela sua carga erótica. Aliás, esta obra está mesmo na base do processo de atentado à moral pública que foi instaurado a Baudelaire.

Foi há 140 anos (1865), um DM: nasceu Francisco Manuel Alves, que a história registou como o Abade de Baçal (por ter sido pároco de Baçal, freguesia do concelho e diocese de Bragança), historiador e arqueólogo português. Recolheu abundante material e deixou valiosos estudos de arqueologia regional – daí que o Museu Regional de Bragança, de que foi director, tenha hoje o seu nome.
Quando o Abade de Baçal nasceu, reinava D. Luís (32º). E os destinos da Igreja eram dirigidos por Pio IX (255º).

Na mesma data: final da guerra civil americana: o general Robert E. Lee rende-se ao general Ulisses S. Grant, em Appomatox, Virgínia.

Foi há 87 anos (1918), uma TR: as tropas portuguesas sofrem uma pesada derrota na batalha de La Lys,.na I Grande Guerra, travada na Flandres, pelo 6º exército alemão sob o comando de Von Quast, contra as tropas inglesas e portuguesas. O Corpo Expedicionário Português, integrando o I Exército britânico do general Horn, era comandado pelo general Tamagnini de Abreu, e tinha à frente das 1ª e 2ª divisões, respectivamente, os generais Gomes da Costa e Simas Machado. Para a Presidência da República fora designado na véspera o major Sidónio Pais. Em Roma pontificava Bento XV (258º).

Foi há 72 anos (1933), num DM: é promulgada e entra em vigor a nova Constituição. E com ela inicia-se o regime do Estado Novo, que vigoraria até 25ABR1974. Decorrem o longo mandato de Carmona e o longo consulado de Salazar. Pio XI (259º) é o papa reinante.

Na mesma data é legalizada a censura, um dos pilares que sustinha o novo edifício estatal.

Foi há 63 anos (1942), uma QI: nasceu em Avintes Adriano Correia de Oliveira, intérprete de música popular e compositor português. Carmona. Pio XII (260º).

A canção (para que a seguir se remete) A trova do vento que passa (letra de Manuel Alegre e música sua) faz parte de um conjunto de melodias que encantaram e prevaleceram como baluartes da canção de intervenção, e testemunho do seu profundo amor à causa da Liberdade.
Adriano Correia de Oliveira empenhou-se no combate político e cultural, antes e depois do 25 de Abril,até à sua morte, aos 40 anos, também em Avintes, a 16MAI1982.

Foi há 46 anos (1959), uma QI: morreu aos 92 anos, no Estado do Arizona, Frank Lloyd Wright, arquitecto norte-americano. Em Portugal decorria o mandato presidencial de Américo Tomás. Pontificava em Roma o “Bom Papa João”, João XXIII (261º).
Frank Lloyd Wright nasceu no Estado de Wisconsin, em 1867. Começou por estudar engenharia civil, mas cedo partiu para os domínios da arquitectura – tendo mesmo sido chamado “o pai da arquitectura moderna”.
Em 1887 partiu para Chicago (deixando para trás a Universidade de Wisconsin e o curso de engenharia), onde colaborou com o arquitecto Louis Sullivan, que muito o influenciou.
«Os seus edifícios harmonizam-se com a paisagem, sem que exista uma barreira discriminatória entre o exterior e o interior. É célebre a residência de Bear Run (Pensilvânia), audaciosamente suspensa sobre uma cascata. (…) A Unity Church (Oat Park, Illinois, 1906), primeiro edifício em betão armado, revelou aos arquitectos europeus o nascimento de uma nova arquitectura. O Hotel Imperial de Tóquio (1916-1922) tornou-o internacionalmente conhecido ao resistir ao terramoto de 1923, graças a uma surpreendente construção de contrapeso, combinada com alicerces superficiais e “flutuantes”».

Foi há 11 anos (1994), um SB: No São Carlos, em Lisboa, é apresentada a única ópera de Beethoven, Fidélio, espectáculo inserido no programa de Lisboa 94 — Capital Europeia de Cultura. Decorria o mandato presidencial do dr Mário Soares. Prosseguia o longo pontificado de João Paulo II (264º).

O TÁXI

Faço sinal. Pára.

Entro. Digo o meu destino.

O táxi arranca.

- “Ora bem… Por onde? Por aqui… Por acolá” – vai o motorista pensando em voz alta.

- “Olhe, talvez assim” – e dou uma sugestão.

O Sr Feliciano ergue o polegar direito: “Certo. Nem mais!”

- “Experimente ver o trajecto ao contrário: de lá para cá. Às vezes ajuda” – sugiro também.

Pensa uns segundos. Reage, como quem descobre uma solução:

- “Essa é boa: nunca tinha pensado em tal…” – reflecte mais uns segundos: “Atão não é que tem razão? Ajuda mesmo. Não vou esquecer o seu conselho”…

E continuámos a falar.

E falámos de muita coisa. Até do tempo: da chuva que teimava em não chegar. Do frio que ainda se fazia sentir.

A propósito dos polícias, da polícia. Acerca da política, do governo que acabava de chegar. Da esperança. De tanta coisa.

Por falar em esperança falou nos netos. Confessou gostar de ser avô. À pergunta dele respondi: “não, não tenho netos, mas gostava de ter. E talvez venha a ter um dia.”

A propósito do trânsito, do problema que é viver hoje numa cidade como esta: sem tempo para nada; sem horas para coisa nenhuma; num frenesim constante; numa pressa sem sentido.

E mais se não disse porque a viagem chegou ao fim.

Corrida terminada. E paga.

Desejámo-nos , mutuamente, um Bom Dia.

Conversar é bom, mesmo com conhecidos ocasionais: desintoxica e arrefece a moleira (escaldante que por vezes anda com os casos e problemas do dia-a-dia). Acalma.

Deslocar-me, hoje, no meu carro, por essa cidade?

Que calvário! Nem pensar: é o inferno do trânsito, é a constante surpresa dos sentidos únicos e proibidos, é o desespero de encontrar um lugar para estacionar!!!

O táxi resolve tudo.

Por vezes também o metro.

O meu carro? Só em horas mais sossegadas e quando sei, antecipadamente, que no destino encontro lugar para estacionar regularmente.

Há alturas em que com mais frequência utilizo o táxi: como agora que andei a fazer a minha revisão dos 67, durante vários dias seguidos.

O INDEPENDENTE


Não tenho qualquer preconceito nem complexo relativamente ao semanário O Independente.

Acontece é que não está nos meus hábitos de leitura. O que talvez venha do tempo em que o tempo era mais escasso e as leituras tinham de ser, obviamente, mais seleccionadas.

Mas a verdade é essa: tropeço, todos os dias, ou com frequência, em vários títulos – Público, A Capital, Diário de Notícias, Expresso, Visão… Mas não n’O Independente. E em poucos mais.

E ocorreu-me esta observação porque, nas citações do Público, de hoje (“Diz-se” – chama-se a coluna), vêm dois apontamentos, duas citações de Inês Serra Lopes, no último número do seu semanário:

“Dez anos passados sobre a saída de cena do cavaquismo, o PSD ainda não recuperou de Cavaco Silva.”

E logo a seguir: “Por muito que custe aos candidatos Menezes e Mendes, o partido está à procura de um líder com o perfil de António Borges”.

Quanto à primeira frase, trata-se de matéria basto glosada, desde há muito. Mas oportuna. Acertada.

Quanto à segunda, tratou-se de pôr no papel aquilo que de algum tempo vem a ser observado mesmo pelo observador mais desatento.

A ideia pode não ser original, mas a frase, essa creio ser inédita.

O INEFÁVEL DINOSSAURO A J JARDIM

Bartoon de Luís Afonso, do Público de hoje: 09 ABR 2005

NOTA:

O BARTOON tem sempre o mesmo endereço informático, embora cada dia com um diferente conteúdo.
Assim, o cartoon só corresponde ao título que o antecede
na data desse “post”.
Passado esse dia, tem que se procurar, no próprio BARTOON, a data a que um outro título e “post” respeitem, através da seta da esquerda, nele bem visível, ao lado do calendário.

TRANSCRIÇÕES

«Nada há mais difícil do que apurar a verdade. Ou, para ser exacta, a Verdade, com maiúscula, tal como é entendida na tradição jurídica nacional. Guardiães do processo, os juízes portugueses tendem a pensar que há algo superior, vivendo numa zona etérea a que só eles (e não os advogados, muito menos os jurados) podem ter acesso. Ao negar, na prática, a existência da falibilidade humana, esta ideia tem consequências devastadoras. Ao contrário da concepção anglo-saxónica, baseada na apreciação da prova por jurados, a quem não é pedido que encontrem a Verdade, mas tão-só que determinem se um arguido é culpado "para além da dúvida razoável", em Portugal presume-se que a inteligência humana, materializada no colectivo de juízes, é capaz de chegar à Verdade. Uma vez acusado, compete ao arguido provar a sua inocência. O mundo fica de pernas para o ar.»
Maria Filomena Mónica (Público, SB 09 ABR 05)

«O "intelectual", mesmo o de esquerda, já desapareceu de cena, com a falência pública do marxismo e a pobreza ideológica do "politicamente correcto". De qualquer maneira, era mesmo assim de esperar que da Igreja, no sentido lato da palavra, saísse alguém [durante a doença e a morte do Papa]com uma opinião nova e pertinente. Não saiu ninguém.»
Vasco Pulido Valente (id, id)

«Nunca como agora seria razoável que se ouvisse a voz do "intelectual católico", num mundo em que se discute com paixão (e com violência) o direito de morrer e a eutanásia, o aborto e o papel da mulher na sociedade e na Igreja.
Só que o "intelectual católico", abafado pela autoridade e rigorismo que o último pontificado impôs, não pode falar. E, não podendo falar, desapareceu pouco a pouco de cena. Os velhos desistiram e os novos nem quiseram começar. Ficou o vazio. E, claro, João Bénard da Costa, que resiste a tudo.»

Id (id, id)

«[Marques Mendes] herda um partido falido após a passagem devastadora de Pedro Santana Lopes, o maior predador do PSD de que há memória.»
Luís Osório (A Capital, SB 09 ABR 05)

« Só um grande golpe de asa, um gesto entre o suicidário e o heróico poderia fazer regressar o PSD aos seus antigos tempos, de agitação de bandeiras, de apetite voraz pelo Poder. Mas não é todos os dias que surge um homem obstinado e com o sentido de missão como Sá Carneiro; nem todos os dias um homem, um tecnocrata que despreza as mundanidades e o tempo mundano, como Cavaco Silva. Pombal fica no único distrito do País continental que, nas últimas eleições, votou maioritariamente PSD. Se é um símbolo não é uma consequência. O PSD escolheu o único feudo que lhe resta. Foi também um lugar de exílio do Marquês. De um longo exílio. Pombal, um espaço revisitado, noutro tempo e noutro contexto, e mais a precisar de um Marquês do que de um D. Sebastião.»
Id (id, id)

«Nunca as ruas de Roma viram afluir tanta gente para dizer adeus a um Papa e, no entanto, ao longo do pontificado de João Paulo II os templos católicos continuaram a esvaziar-se de fiéis um pouco por todo o mundo. Nunca um Papa conquistou uma dimensão equiparável à escala universal e, todavia, isso não impediu que a Igreja registasse uma tão profunda crise de vocações e participação nos actos litúrgicos. Nunca um chefe religioso recebeu homenagens tão fervorosas dos não crentes ou dos crentes de outros credos, celebrando a sua paixão humanitária, o seu empenho nas causas da paz e da justiça social, o papel decisivo que teve na queda do comunismo ou ainda esse espírito ecuménico que, entre outras coisas relevantes, conduziu a Igreja Católica a uma reconciliação histórica com o judaísmo. Mas nunca também um Papa moderno terá suscitado tantas perplexidades, dramas e divisões dentro da Igreja, com o intransigente dogmatismo que o levou, por exemplo, a impedir as mulheres de aceder ao sacerdócio, os padres de casarem ou os fiéis de recorrer à contracepção.»
Vicente Jorge Silva (DN, SB 09 ABR 05)

«Vasco Pulido Valente não é, consabidamente, um comentador excessivamente convencional zangadíssimo a título permanente com a esquerda, a verdade é que não manifesta especial simpatia pela direita ou, para sermos mais exactos, pela direita que temos. Mas a sua generalizada antipatia pelo que nos rodeia, à esquerda e à direita, faz dele inquestionavelmente um homem de direita.»
Ruben de Carvalho (id, id)

MODAS


As carecas completamente rapadas, cuidadosamente escanhoadas, que cada vez mais se vêem por aí, são um artifício ou uma realidade?

Parece que só podem ser uma realidade. Mas de difícil e complicada manutenção, estou em crer!

E são tantas…

Cada vez mais.

… Modas!...

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