sábado, abril 09, 2005

CRIANÇAS POETAS


Que talentos ignorados. (Felizmente ainda não explorados.)

Que cabeças tão pequeninas, mas já com tamanhos conteúdos!

Que ternura!

Que delícia!

Quanta poesia!


"Silêncio é o barulho baixinho!..."
Sara Peixoto, 3 anos

"Um livro tem palavras que fazem sonhos."
Joana Cruz, 3 anos

"Poesia é uma coisa que não é a mesma coisa mas é igual"
Beatriz Bruno Antunes, 4 anos

"Este gelado até inverna as mãos."
Gonçalo Gonçalves, 4 anos

"Estou com tosse. Engoli frio um dia."
Inês Fernandes, 4 anos

"Eu faço magia quando abraço o meu pai."
Cláudio Almeida, 4 anos

"Quando o ar cheira bem é porque os astronautas no espaço estão a comer rebuçados."
Gustavo Almeida, 5 anos

"O céu à noite é um lençol com estrelas."
Gustavo Almeida, 5 anos

"Os namorados são amigos de casamento"
Ariana Semedo, 6 anos

"O Amor é o dobro."
Pedro Martins, 5 anos

E há mais… Só que ainda não os descobrimos.

Há quem discorde – e eu próprio nem sempre estou de acordo comigo: mas há crianças que é pena que se tornem adultas.

Não é o perderem a inocência (ou também?).

É o adquirirem os vícios, as deformações, “os esquemas” e a falta de transparência que o crescimento traz consigo.

É por isso que há adultos fenomenais (raríssimos): não perderam tudo das crianças poetas que foram um dia!

sexta-feira, abril 08, 2005

MEMÓRIA DO TEMPO QUE PASSA

Foi há 1788 anos (217), uma TR: morre Caracala (aliás, Marco Aurélio Antonino Basiano) imperador romano. Era papa Zeferino I (15º pontífice a contar com Pedro).

Foi há 685 anos (1320), uma TR: nasce D. Pedro I, rei de Portugal entre 1357 e 1367, filho de D. Afonso IV, o Bravo, e de D. Brites. Reinava D. Dinis (6º). Pontificava João XXII (196º).

Foi há 400 anos (1605), uma SX: nasce Filipe III (Felipe IV de Espanha), rei de Portugal entre 1621 e 1640. Reinava em Portugal, seu pai, Filipe II (19º). Em Roma pontificava Leão XI (232º).

Foi há 157 anos (1848), um SB: morre, na sua cidade natal, Gaetano Donizetti, compositor italiano, nascido em Bérgamo aos 29NOV1797. Foi um dos maiores expoentes dos compositores de ópera italiana dos começos do romantismo. Compôs cerca de 70 óperas, sendo a sua obra-prima Lúcia de Lammermoor (1835). Curiosamente foi também autor duma ópera intitulada Don Sebastiano, re di Portugallo, apresentada em Paris em 1843. Quando Donizetti faleceu reinava em Portugal D. Maria II (30º). Romano pontífice era, então, Pio IX (255º).

Foi há 110 anos (1895), uma SG: morre aos 52 anos, em Lisboa, onde tinha nascido em 13NOV1842, Manuel Pinheiro Chagas, escritor, jornalista, político, dramaturgo e grande orador. Foi vastíssima e variada a sua obra saída a lume. Enquanto escritor esteve na base da famosa Questão Coimbrã, que tanto agitou os meios literários e políticos: o seu Poema da Mocidade, editado em 1865, integrava uma carta intitulada Crítica Literária, assinada por António Feliciano de Castilho. Foi a acha final para atear a fogueira: a escola ultra-romântica, liderada por Feliciano Castilho – e onde militava Pinheiro Chagas (além, por exemplo, de Mendes Leal, Gomes de Amorim e Soares de Passos) – entrou em polémico confronto com a escola filosófica orientada por Antero do Quental. Dessas duras polémicas resultaram várias publicações que tomaram o nome genérico de Bom senso e Bom Gosto. Aquando do seu passamento, reinava D. Carlos (33º). Dirigia os destinos da Igreja o papa Leão XIII (256º).

Foi há 97 anos (1908), uma QA: em Lisboa, na Praça dos Restauradores, é inaugurado o Salão Central, moderna sala de cinema que já dispõe de projector e que exibe filmes da Pathé, fornecidos pela empresa cinematográfica portuguesa. Reinava D. Manuel (34º). Pontificava Pio X (257º).

Foi há 76 anos (1929), uma SG: nasceu Jaques Brel, cantor francês de origem belga. Em Portugal decorria já o longo mandato de Carmona. Em Roma pontificava Pio XI (259º).

Foi há 67 anos (1938), numa SX: nasceu em Kumasi, no Gana, Kofi Annan. Estudou na Universidade da sua cidade natal; fez um bacharelato em Economia numa Universidade do Minnesota, EUA; licenciou-se em Economia, em Genebra e fez um Mestrado em Gestão no Massachusetts Institute of Technology. Começou a trabalhar na organização da s Nações Unidas em 1962, com 24 anos.
É o sétimo Secretário-Geral das Nações Unidas, mas foi o primeiro Secretário-Geral eleito dentre os funcionários das Nações Unidas, iniciando o seu mandato a 1 de Janeiro de 1997. Quando, no Gana, nasceu Kofi Annan, em Portugal as chefias do Estado e do governo cabiam, desde há longos anos (por sucessivos mandatos) a Carmona e a Salazar. A Igreja era dirigida por Pio XI (259º).

Foi há 32 anos (1973), um DM: morre com 91 anos em Mougins, Cannes, Pablo Ruiz Picasso, pintor, escultor, ceramista e gravador espanhol, que nascera em Málaga em 25OUT1881. Estudou na Academia de Belas-Artes de Barcelona. A sua tela Les Demoiselles de Avignon (1907) é considerada a primeira obra cubista. A pedido dos republicanos espanhóis executa a grande composição Guernica (à memória dos mortos da cidade bombardeada), talvez a sua mais conhecida obra, onde exprime a violência dos seus sentimentos. Quando Picasso morreu, era PR em Portugal Américo Tomás. E pontificava, em Roma, Paulo VI (262º).

Foi há 20 anos (1985): uma SG: estreia, no São Carlos, Cosi Fan Tutte, a ópera mais difícil de Mozart, interpretada pela primeira vez por um elenco de profissionais portugueses. Era PR Ramalho Eanes. O romano pontífice era João Paulo II (264º).

Foi há 16 anos (1989), num SB: no Vaticano, o papa João Paulo II recebe Mário Soares, presidente da República Portuguesa.

Foi há 10 anos (1995), um SB: por força de poderoso lobby, o Governo português adia, sem data prevista, a construção da barragem de Foz-Côa. Era PR o Dr Mário Soares. Pontificava o papa João Paulo II (264º).

O MÊS DE ABRIL DE 2005 E A IGREJA CATÓLICA


Este mês de Abril, já se sabe, é para passar a pente fino a história da direcção e da vida da Igreja.

Assim mesmo: Igreja por antonomásia, como geralmente se aceita e se reconhece entre nós, ocidentais.

Igreja de altos e baixos. De avanços e recuos – para muitos, mais de recuos que de avanços.

Igreja dita ao lado dos pobres e dos mais carenciados. Mas por vezes esquecida dessa missão. Quase sempre contemporizadora com os poderes instituídos – pouco preocupados com tais destinatários da sua política.

“Mas há excepções” – alguns sugerem.

“Que confirmam a regra” – recordo.

“UM BOM TESTE”

Também li e também a mim me causou estranheza a tão inusitada atitude do presidente do STJ.

Estou de acordo com o Prof Vital Moreira quando considera tratar-se de um claro desafio à autoridade do governo, e um verdadeiro teste para a sua firmeza, a crítica e condenação, por parte do Conselheiro Nunes da Cruz, da proposta de redução das férias judicias, qual dirigente sindical da classe da magistratura judicial!

Veja-se pois o post de hoje do professor-bloguista.


TRANSCRIÇÕES

«Todos os portugueses querem "reformas". Todos, sem excepção. Não há um só que recuse as célebres "reformas", das quais esperamos o milagre de nos tornarmos um país próspero e justo, onde o Estado gasta só o que tem e bem gasto, onde todos cumprem os seus deveres para com a comunidade, onde cessaram os privilégios, as situações de favor e as arbitrariedades. Onde o ensino é factor de desenvolvimento, a saúde competente e a justiça eficaz. Todos querem isto. Mas ninguém quer que as ditas reformas comecem por si, pela sua actividade, pelo seu sector. Para serem aceitáveis, as reformas têm sempre de começar pelo vizinho e por aí se quedarem.»
Miguel Sousa Tavares (Público, SX 08 ABR 05)

«Apesar dos milhões que o choram [a João Paulo II], deixa uma Igreja profundamente dividida e frágil. Há primeiro a tendência "progressista", que teve o seu grande momento no Vaticano II e que não esquece, nem desculpa, a restauração monárquica de Wojtyla ou o sistemático esmagamento do ethos conciliar, que ainda prevalecia em 1978. Como não esquece, nem desculpa o rigorismo teológico, disciplinar e moral do pontificado, imposto sem diálogo, por um poder absoluto.»
Vasco Pulido Valente (id, id)

«Este Marcelo Rebelo de Sousa, agora na madureza aprazível que só a idade confere, oferece-me labor de preparação nos assuntos que trata, perspicácia servida com elegância, a clareza e a simplicidade da gente culta e um poder de comunicação que tem tanto de dom como de métier.»
Carlos Pinto Coelho (A Capital, SX 08 ABR 05)

«Hoje, o aparelho do PSD, espalhado por todo o País, como o ovo da serpente, acabou por ser incubado na JSD, num carreirismo e clientelismo sem limites, que criou autênticos funcionários e tornou o aparelho numa espécie de corte pretoriana dos vários líderes. Sem ideologia, vão-se alimentando de alguns poderes e sinecuras. É, na minha perspectiva, o problema maior, neste momento, do PSD. O problema do aparelho. Claro, o problema do Poder e de como se exerce e quem o exerce.»
Rogério Rodrigues (id, id)

«O pontificado de João Paulo II mudou a face do planeta, e a impressionante despedida que milhões de pessoas, de todos os credos e raças, de todos os cantos do planeta, lhe testemunham é disso a prova mais eloquente. O mundo inteiro desagua em Roma, tornada de novo por estes dias no centro de um império, não das legiões romanas da Antiguidade, mas de um império de amor e fraternidade entre todos os homens, o signo do apostolado deste Papa imortal.»
Editorial (DN, SX 08 ABR 05)

«Os sinais que são perceptíveis apontam não para uma refundação da direita, mas antes para um simples reposicionamento dos dois partidos. Há um projecto de direita em Portugal? Este projecto passa já por entendimentos em eleições autárquicas e presidenciais?»
Jorge Coelho (id, id)

«O futuro ocupante do trono de Pedro dará, por certo, continuidade ao legado que recebe em matéria de ecumenismo, de defesa da paz e dos direitos do Homem, em particular dos mais pobres e desprotegidos, e não poderá, obviamente, ignorar, os mecanismos de comunicação da sociedade contemporânea, a nível das tecnologias e do contacto pessoal.
A verdadeira incógnita, que estará esclarecida antes do final do mês, está em saber se teremos um conservador, um reformador ou uma "solução de compromisso" relativamente às grandes questões que alimentam os debates no seio da família católica.»

Mário Bettencourt Resendes (id, id)

COMO DEFINIR JOÃO PAULO II?



Ainda está longe de ser consensual a definição – mediaticamente já quase aceite – de João Paulo II: um papa politicamente progressista e moralmente conservador.

O tempo o dirá. A História o comprovará, ou não.

ULMEIRO


Antigamente era assim: ia-se com muita frequência da tertúlia para a livraria, da livraria para a tertúlia.

A tertúlia era o local do culto: as leituras comentadas, de textos próprios ou alheios; o ponto da situação das últimas novidades literárias, dos vultos que despontam, dos que se afirmam, dos que se confirmam, dos que declinam porque o ocaso se aproxima; os últimos acontecimentos dos meios culturais: a exposições, os concertos, a ópera, o teatro. Na tertúlia se faziam os debates. Se confrontavam as opiniões.

A livraria era o lugar dos encontros certos, nuns casos; fortuitos, noutros. Na livraria se prolongavam as discussões iniciadas nas tertúlias, mas agora entre dois ou três elementos de uma, um ou dois de outra – o livreiro/editor como moderador. Tudo ali perto do livro que se folheava com curiosidade.

Muitas vezes a livraria tinha algo a ver com o pendor ideológico do frequentador. Era o caso da Ulmeiro relativamente a mim e a tantos.

Mas nem todas as livrarias eram necessariamente assim tão cúmplices dos seus clientes. Mesmo dos certos e mais frequentes.

A Ulmeiro era um alfobre de democratas. Um refúgio de desiludidos, de obstinados oposicionistas (todos), de mais arrojados progressistas (alguns).

A Biblioteca-Museu República e Resistência, no espaço Cidade Universitária, organizou um ciclo de conferências, nos meses de Março e Abril, sobre as livrarias de Lisboa.

A da Ulmeiro foi no dia 14 de Março. E quem havia de falar sobre a livraria? Só podia ser o José Ribeiro – a alma e a memória da Ulmeiro.

Foi afinal, para nós, os ulmeirenses, um ponto da situação, uma revisão da matéria. Uma romagem de saudade… Mas também uma análise prospectiva. Que o futuro, na actual conjuntura, é bem pouco acalentador de projectos avançados.

Mas o José Antunes Ribeiro, que anda nisto há mais de quarenta anos, é um resistente: “outros começaram mais tarde, e cedo desistiram. Ele começou cedo, e ainda não desistiu”.

Foi como se decorresse um filme. Revimos tudo.

A Ulmeiro nasce em 1969. (Antes houvera uma livraria na Amadora).

Em matéria de livrarias, de editoras, de distribuidoras, tínhamos, por exemplo, os Cadernos Pragma, a Livrelco, a Afrontamento (Porto), a Centelha (Coimbra) e a Ulmeiro – isto estava tudo ligado.

Em 1972 a Ulmeiro cria a Assírio & Alvim. Que depois se independentiza. De forma menos curial…

Pela Ulmeiro desfilaram nomes como, e por ordem arbitrária: Fernando Assis Pacheco, Alda Espírito Santo (S. Tomé), Lino Carvalho, Mário Pinto de Andrade, Leo Ferré, Francisco Fanhais, Zeca Afonso, David Mourão Ferreira, Agostinho da Silva, Urbano Tavares Rodrigues, Miguel Barbosa, António Lobo Antunes (em cujo “Livro de Crónicas”, a págs 357 e seg, presta uma homenagem ao José Ribeiro), Vanda Ramos, o capitão de Abril Ramiro Correia, José Fanha, Carlos Paredes, Mário Viegas e tantos, tantos outros que nela actuaram ou aí realizaram alguma conferência ou palestra – tudo sempre na cave, qual catacumba da resistência e da clandestinidade.

Lá estavam as fotografias, expostas, às dezenas. Com estes e muitos mais.

Autos de apreensão de livros foram às centenas (muitos deles também expostos numa vitrina). Feitos, geralmente pela PSP, mas muitas vezes pelos próprios pides. Eivados de erros: mas é que a inteligência não era o seu forte, e em termos de cultura eram um desastre; muitos eram mesmo analfabetos… Porém, todos de fibra! Dóceis e fidelíssimos ao seu dono.

Duma vez, por exemplo, foram apreendidos 2500 livros.

Impressionante!

O livro falava de amor, mas sem casamento? Proibido. Apreendido.

Falava-se de Lenine, de Estaline? Logo, proibido. Igualmente apreendido. E se (o livro) não podia falar de Lenine, nem de Estaline… Logo também não de Racine!

Bastam estes dois exemplos dos brilhantes raciocínios dos guardiães da nossa moral e dos nossos brandos costumes.

Espantoso!

Mas a propósito de polícias e de censores, na sua maioria oficiais do exército, já dizia um certo inspector: “é mais fácil militarizar um civil do que civilizar um militar”!

E recordou aquela do Alçada Baptista que um dia lhe diz: sabes, compreendo que um livreiro um dia abra uma livraria, porque gosta de livros. Mas será que um merceeiro abre uma mercearia porque goste de feijão?

Não são, de facto, realidades comparáveis. E penso de mim para mim: na verdade, abrir uma livraria é essencialmente um acto de amor. Abrir uma mercearia é um mero acto de comércio.

E o desfiar de memórias continua.

E o José Ribeiro recorda “essa prestimosa instituição que estava sedeada na António Maria Cardoso (onde hoje – imagine-se – se pretende construir um condomínio de luxo… - Nada mais adequado, convenhamos!!!)”, que ele tantas vezes foi forçado a visitar…

E não esqueceu de recordar os artificiosos esquemas engendrados para esconder os livros clandestinos ou proibidos, como falsas paredes e até uma inocente salamandra – mas esta para alimentar outras fogueiras (confidenciei de novo com os meus botões).

Antes, editora e livraria eram duas entidades numa só – qual mistério da santíssima dualidade.

Mas, por razões várias, sobretudo económicas (presumo eu), em 1979 quebra-se o mistério: a livraria ganha autonomia relativamente à editora. Nasce então a Livrarte. Esta, sob a batuta da Lúcia. Continuando o marido, o José Ribeiro, à frente da editora; essa, a partir de agora, e em bom rigor, sim, a Ulmeiro.

Só que eu – e outros, por certo – quando lá vou, nunca vou à Livrarte. Vou sempre à Ulmeiro. À porta e os recibos dizem Livrarte. Mas eu leio sempre Ulmeiro. Não há nada a fazer. A Lúcia (e até a Teresa, a Manela ou o Agostinho) sabem que é assim. E o Zé Ribeiro acha que, lá por isso, não há crise.

Em 1994, por voto unânime dos quatro partidos nela representados (PS, PSD, PCP e CDS), a Junta de Freguesia de Benfica delibera homenagear a Ulmeiro pelos seus 25 anos em prol da cultura.

Com o andar dos tempos, os grandes grupos (vg Bertrand, Bulhosa ou FNAC) florescem. Os independentes sobrevivem (os que sobrevivem) com dificuldade.

Os grandes açambarcam… Os pequenos, nada. Nem as migalhas.

Açambarcamento é crime… Mas sem castigo. Como vem sendo hábito noutros âmbitos e noutros espaços.

Passaram-se em revista anos difíceis, de luta terrível, em que era preciso ter nervos de aço para não sucumbir nem desistir. Em que mais valia quebrar do que torcer.

Mas também as tremendas e graves dificuldades dos tempos que correm, cuja denúncia não cala, minimamente, nos poderes instituídos ou na tutela adormecida.

Na realidade, ser editor/livreiro, nesse tempo, era uma aventura que se pagava caro.

Hoje, é uma aventura que não tem preço.

E ser leitor, nesse tempo, sem ser da palha que nos queriam dar, era bem complicado.

Hoje, ser leitor é considerado um luxo. Que tem o correspondente preço.

Foi um fim de tarde bem interessante.

Gostei.

Gostámos todos.

Longa existência e o melhor êxito à Ulmeiro (claro que me entendem: incluo a Livrarte) e a quem lhe dá vida!


quinta-feira, abril 07, 2005

MEMÓRIA DO TEMPO QUE PASSA



Foi há 499 anos (1506), uma TR: nasceu São Francisco Xavier, missionário jesuíta, em Navarra, Espanha. Foi co-fundador da Companhia de Jesus, com Santo Inácio de Loiola, que conheceu quando estudava na Universidade de Paris. A pedido de D. João III foi mandado para a Índia, como legado do papa. Chegou a Goa em 1542. Viajou pela Indochina, Ceilão, Insulíndia (hoje Indonésia), Molucas e, em 1549 chegou ao Japão onde fundou comunidades religiosas. Morreu em 1552, a caminho da China, na ilha de Sanchoão, baía de Cantão. O seu corpo encontra-se na igreja que lhe é dedicada, em Goa, mesmo ao lado da catedral. (Só que, catedral e igreja, mal enquadradas: fora da cidade, numa zona incaracterística e desenxabida). Quando nasceu S. Francisco Xavier reinava em Portugal D. Manuel (14º). Pontificava Júlio II (216º).

Foi há 391 anos (1614), uma SG: morreu El Greco, pintor espanhol de origem grega. Nasceu na ilha grega de Creta. Seu verdadeiro nome era Doménicos Theotocópoulos, que em Espanha e na Itália viraria Doménico ou Domínico Theotocópuli. Foi discípulo de Ticiano, em Veneza, e mais tarde fixar-se-ia em Toledo. Além de ter sido um grande pintor de retratos, são assinaláveis as suas decorações no Escorial. O Enterro do Conde de Orgaz é considerada a sua obra-prima. Aquando do seu passamento, em Portugal reinava Filipe II (19º). Era, então, sucessor de Pedro o papa Paulo V (233º).

Foi há 174 anos (1831), uma QI: D. Pedro abdica e parte do Brasil com destino a Portugal, passando, antes, pela França e por Inglaterra onde organizou uma expedição contra D. Miguel. Decorria o breve reinado de D. Miguel. Pontificava Gregório XVI (254º).

Foi há 112 anos (1893), uma SX: nasceu, na ilha de S. Tomé, então colónia portuguesa. José de Almada Negreiros, artista plástico e escritor português. Foi um dos iniciadores do movimento modernista, em Portugal, quer nas artes plásticas quer na literatura. Foi uma sua exposição de caricaturas, em 1913, que provocaria a sua amizade com Fernando Pessoa: juntos participam na criação do Orpheu (1915); juntos se encontram no Portugal Futurista (1917). É também de 1915 o seu tão célebre Manifesto Anti-Dantas. Em 1938 executou trabalhos para a nova igreja, em construção, de Nossa Senhora de Fátima, em Lisboa, projecto de Pardal Monteiro (Porfírio Pardal Monteiro): mosaicos, pinturas e sobretudo vitrais de que se destaca a Pietà da casa mortuária. O ponto mais alto das suas pinturas murais estão patentes nas gares marítimas de Alcântara e da Rocha de Conde de Óbidos (ambas também projectos de Pardal Monteiro). No domínio das belas artes desenvolve inúmeros trabalhos: desenho, pintura (a óleo e frescos), mosaico, vitral, gravura e tapeçaria. Também no domínio das letras desenvolveu Almada Negreiros uma extensa e valiosa obra: foi poeta, romancista, dramaturgo e investigador. A sua obra foi “das mais originais da nossa literatura e das mais significativas e perturbantes da cultura contemporânea”. “A camaradagem com Fernando Pessoa viria a ser extremamente fecunda para o surgimento do futurismo em Portugal e para os destinos do modernismo português”.
Quando Almada Negreiros nasceu, reinava D. Carlos (33º). E pontificava, em Roma,
Leão XIII (256º).

Foi há 99 anos (1906), um SB: na Itália, grande erupção do vulcão Vesúvio, muito próximo de Pompeia e de Nápoles. Em Portugal reinava D. Carlos (33º). Pontificava Pio X (257º).

Foi há 90 anos (1915), uma QA: nasceu Billie Holiday, cantor de jazz norte-americano. Em Portugal era PR Manuel de Arriaga. No Vaticano pontificava Bento XV (258º).

Foi há 84 anos (1921), uma QI: inicia-se a publicação do Diário de Lisboa, um dos dois diários vespertinos de referência na oposição ao regime salazarista (o outro foi o jornal República), cujo último número saiu em 30NOV1990. António José de Almeida era, então, o PR. Pontificava Bento XV (258º).

Foi há 74 anos (1931), numa TR: na ilha da Madeira realiza-se uma sublevação militar contra a ditadura. Já Carmona era o PR e Salazar o chefe do governo. E decorria o pontificado de Pio XI (259º).

Foi há 66 anos (1939), uma SX: a Itália invade a Albânia. Em Portugal Carmona era o PR. Pio XII (260º) era o sumo pontífice.

Foi há 58 anos (1947), uma SG: morreu Henry Ford, industrial norte-americano. Em Portugal decorria o mandato do general Carmona. Pontificava Pio XII.

Foi há 57 anos (1948), uma QA: é fundada a OMS (Organização Mundial de Saúde). Em Portugal era Carmona o PR. Pontificava Pio XII.

AS LÍNGUAS E A PRÁTICA



Nunca fui um ás em línguas. Mas há mais de trinta e cinco anos atrás praticava-as (inglês e francês) com, talvez, um pouco mais que principiante desenvoltura. De há uns vinte e tal anos para cá, porém, deixei de praticá-las. No diálogo. Na intervenção. E fui ficando penco. Cada vez mais. Porque cada vez menos praticante.

Como dizia, há pouco, a um amigo meu,

(Saravá, António Barão!)

isto de saber línguas não é o mesmo que saber andar de bicicleta. Nada disso. Esquece mesmo.

Sobretudo o inglês dos US. É que o inglês dos americanos começou por ser, como se sabe, o inglês das docas. E dos imigrantes iletrados.

Daí que ficasse sempre uma língua engorgulhada, esquisita na pronúncia, na gramática, na entoação.

(Perguntam bem: que é isso de engorgulhada? Também não sei. É uma língua – língua, órgão humano - cheia de gorgulhos, de burgalhaus. Sei lá. É aquela maneira de os americanos falarem. É isso. Pronto).

Mas, lá por isso, nem chega a haver crise. Tudo se resolve. Devagarinho - se speakado. Sem grandes problemas - se lido.

A GÉNESE E A EVOLUÇÃO DO PS E DO PSD


“O problema do PSD é começar a ser mais um partido do Portugal do passado do que do futuro” – é uma das afirmações do bem estruturado artigo sobre a génese e a evolução dos dois maiores partidos portugueses, escrito por Pacheco Pereira, no Público de hoje.

TRANSCRIÇÕES

«É bom que surjam novas revistas - independentemente da orientação que tenham. Porque o mercado parece afunilar-se e tudo depender das mesmas instâncias. (…)
Como encarte do PÚBLICO tivemos a oferta de uma publicação que em princípio deverá tornar-se autónoma: chama-se Atlântico. Segundo Helena Matos, responsável pela direcção, "apostamos clara e conscientemente num projecto inconfundível. Dos tipos de letra usados à opção pela ilustração, a Atlântico é uma revista que tem uma identidade. Forte e polémica. Única. Os textos que publicamos reflectem não apenas a nossa opinião e informação dos seus autores, mas também a nossa determinação em fazer uma revista que rompa com o unanimismo reinante". (…)
Esta marca inicial determina um tom: com algumas excepções que ocorrem como compensações mais ou menos neutras, a maior parte dos colaboradores situa-se na área da direita e na perspectiva politicamente conservadora (embora eu saiba que a excelente jornalista e historiadora que é Helena Matos tem noutras áreas posições avançadas). (…)
Ao mesmo tempo, desta vez no espaço acolhedor do Expresso, temos o Correio Internacional. (…)
A versão portuguesa tem alguns textos de elevada qualidade (incluindo uma crónica de José Gil) e segue um pouco a estratégia do Monde Diplomatique. (…)
Sublinhe-se que estamos perante algo particularmente útil no espaço português. Em primeiro lugar, porque a política internacional não faz parte das preocupações dos portugueses. (…)
Em segundo lugar, porque a multiplicidade internacional de pontos de vista e a atenção a conflitos locais também não está nos nossos hábitos. O Correio Internacional veio preencher uma falta - e desta vez a fórmula não é um mero nariz de cera. A imprensa mundializa-se e esperemos que cada um de nós esteja à altura do desafio.»

Eduardo Prado Coelho (Público, QI 07 ABR 05)

«Nobel da Literatura em 1976, [Saul Bellow] escreveu romances inesquecíveis que marcaram a literatura da América dos anos 50 e 60 do século passado. (…)
"Saul Bellow, com William Faulkner, definiu o caminho da literatura americana no século passado.” - comentou ontem o escritor Philip Roth. (…)
Além de um autor prolífero (mais de uma dezena de romances, novelas, contos, peças de teatro, críticas literárias e ensaios) e de um ávido leitor, Saul Bellow foi, até ao fim da vida, um professor - passou pelas conceituadas universidades de Princeton, Nova Iorque, Minnesota, Boston e durante mais de trinta anos na de Chicago. (…)
"Os professores universitários têm uma maneira muito própria de transformar o texto numa coisa esotérica, impossível de entender sem a ajuda profissional de um académico", censurava Saul Bellow.»

Rita Siza Washington (id, id)

«O mais autobiográfico e o mais inventivo dos escritores norte-americanos teve duas vidas longas: uma, mais comezinha, que se estendeu ao longo de uns gloriosos noventa anos; outra, a literária, que também não fica muito atrás daquela, nem em glória nem em longevidade. (…)
Tinha tudo o que um escritor pode ter: voz individual, capacidade de criar personagens distintas, curiosidade pelo humano, humor, uma inclinação para cruzar o episódio anedótico com as chamadas grandes questões, percepção aguda da passagem do tempo e das contingências da existência e, não menos importante, uma mangueira de comunicação, continuamente aberta, entre a sua vivência pessoal (maila sua capacidade de reflexão) e as histórias que contava. Nada mau, se virmos bem.»

Rui Zink (id, id)

"Tudo o que um escritor tem de fazer para conquistar uma mulher é dizer que é escritor. É um afrodisíaco."
Frases de Saul Bellow (id, id)

"Nunca temos que alterar nada que nos fez levantar a meio da noite para escrever."
Id (id, id)

"Pegue nos nossos políticos: são um monte de yo-yos. A presidência é hoje o cruzamento entre um concurso de popularidade e um debate de liceu, com uma enciclopédia de clichés como primeiro prémio."
Id (id, id)

"Acho que Nova Iorque não é o centro cultural da América, mas o centro administrativo e de negócios da cultura americana."
Id (id, id)

"A discussão aberta de muitas das grandes questões públicas é tabu há já algum tempo. Não podemos abrir a boca sem sermos denunciados como racistas, misóginos, hegemónicos, imperialistas ou fascistas. Quanto aos meios de comunicação, estão preparados para arrasar qualquer pessoa que receba uma destas designações."
Id (id,id)

"A manifestar amor pertencemos aos países subdesenvolvidos."
Id (id, id)

"Quando pedimos um conselho estamos habitualmente à procura de um cúmplice."
Id (id, id)

«O príncipe Rainier morreu ontem. Apesar de tudo, era um homem simpático que representou bem o papel de monarca de todas as ilusões. Talvez com isso se tenha esquecido de viver.»
Luís Osório (A Capital, QI 07 ABR 05)

«Pensa-se muitas vezes que a "morte de Deus" foi para Nietzsche uma constatação libertadora. Muito pelo contrário, tratou-se de uma descoberta desesperante. A sua filosofia pouco mais é do que a tentativa de encontrar um substituto para "Deus".»
Luciano Amaral (DN, QI 07 ABR 05)

quarta-feira, abril 06, 2005

MEMÓRIA DO TEMPO QUE PASSA

Foi há 806 anos (1199), uma TR: morreu Ricardo I, Coração de Leão, rei de Inglaterra. Reinava D. Sancho I (o 2º dos nossos reis). No Vaticano pontificava Inocêncio III (176º).

Foi há 620 anos (1385), uma QI: o Mestre de Avis é aclamado rei de Portugal, nas Cortes de Coimbra, com o nome de D. João I (10º), perto de completar 28 anos de idade (o que aconteceu no dia 11 desse mês). D. João I era filho bastardo de D. Pedro I; portanto irmão (consanguíneo) de D. Fernando, o último rei da primeira dinastia (afonsina). D. João I, que como Mestre de Avis liderara o movimento popular pró-independência, deu início à segunda dinastia (joanina ou de Avis) que presidiu aos destinos do nosso país durante quase dois séculos. Soberano pontífice era Urbano VI (202º).

Foi há 485 anos (1520), uma SX: morreu o pintor italiano Rafael. Em Portugal reinava D. Manuel I (14º). Pontificava Leão X (217º).

Foi há 179 anos (1826), uma QI: nasceu Gustave Moreau, pintor francês. Em Portugal reinava D. Pedro IV (28º). Em Roma pontificava Leão XII (252º).

Foi há 190 anos (1865), numa QI: nasce o general José A. Alves Roçadas. Reinava D. Luís (32º). Pontifica Pio IX (255º).

Foi há 119 anos (1886), uma TR: nasce Amílcar Ramada Curto, dramaturgo e escritor português. Reinava D. Luís (32º). Pontificava Leão XIII (256º).

Foi há 109 anos (1896), uma SG: abertura oficial dos primeiros Jogos Olímpicos da era moderna, em Atenas. Em Portugal reinava D. Carlos (33º). Pontificava Leão XIII (256º).

Foi há 88 anos (1917), uma SX: os EUA declaram guerra à Alemanha. Em Portugal era PR Bernardino Machado. O romano pontífice era Bento XV (258º).

Foi há 43 anos (1962), uma SX: Portugal adere ao GATT (Acordo Geral sobre Tarifas Aduaneiras e Comércio), que vigorava desde 1 de Janeiro de 1948. Era, então, PR o almirante Américo Tomás. João XXIII (261º) era o soberano pontífice.

Foi há 40 anos (1965), uma TR: os EUA lançam o primeiro satélite de comunicações, Early Bird. Em Portugal decorria o mandato presidencial de Américo Tomás. Pontificava Paulo VI (262º).

Foi há 34 anos (1971), uma TR: morreu Igor Stravinsky, compositor russo. Em Portugal era Américo Tomás o PR. Paulo VI era ainda o soberano pontífice.

Foi há 22 anos (1983), uma QA: José Cardoso Pires recebe o Grande Prémio de Romance e Novela pela sua obra Balada da Praia dos Cães. Ramalho Eanes era o PR. João Paulo II (264º) era o Papa reinante.

Foi há 13 anos (1992), uma SG: reconhecimento da Bósnia-Herzgovina e retirada das sanções contra a Sérvia pela CEE. Em Portugal decorria o mandato presidencial de Mário Soares. Continuava o pontificado de João Paulo II.

OFICINA DA PALAVRA

«Esta palavra (refiro-me a "sageza") tem dentro de si uma imensa felicidade. Não é o "saber", que é algo que a gente fixa obsessivamente. Fica mais perto do conhecimento. Mas vai mais longe. É uma palavra onde se inscreve uma sabedoria do corpo e que nos surge densa como um músculo. E ao mesmo tempo é uma palavra que tem a beleza de ser antiga. Como se pertencesse ao chão da Idade Média. Está atravessada de tempo, o tempo trabalhou-a do lado interior da pele e deu-lhe a cor exacta das coisas que aprenderam a ser lentas e que se partilham em silêncio.»
Eduardo Prado Coelho, Coluna diária “O fio do horizonte”, Público, QA 06 ABR 05)

Bonito, não é?

Como uma simples palavra – sageza – é bem burilada!...

Como eu gostava de ter uma oficina destas! Como eu gostava de ser escritor!

TRANSCRIÇÕES

«Líderes políticos irresponsáveis e de uma ambição sem limites, como Laurent Fabius, andam há meses a vender a ideia de que a Europa do tratado é uma Europa ultraliberal, "americanizada" e que abandonará na primeira esquina o seu "modelo social". O que é mentira mas cala fundo num eleitorado onde a simples evocação da palavra "liberal" causa pele de galinha.»
José Manuel Fernandes (Público, QA 06 ABR 05)

«Jacques Chirac, um sobrevivente político a que falta qualquer dimensão de Estado. Político de vistas curtas, sem espinha vertebral, adapta o discurso às circunstâncias e ao que pensa ser mais popular. Por mais de uma vez não hesitou em pôr em causa projectos comuns europeus em nome da tacanhez francesa, de interesses mesquinhos ou por medo da reacção do seu eleitorado.»
Id (id, id)

«[Os dirigentes europeus] têm de engolir o unilateralismo de Paris, já que Chirac continua a fazer diplomacia por conta própria, quer nas relações com a Rússia de Putin, quer na insistência do levantamento do embargo de armas à China para promover as empresas francesas.»
Id (id, id)

«A grande massa do povo divide-se sempre em duas metades. Por exemplo, os ricos e os pobres, os votantes e os abstencionistas, os escolarizados e os analfabetos, as pessoas com e sem colesterol... Neste momento podemos dividir a população nos que já começaram a dizer mal do Governo e nos que lhe concedem o tal período do estado de graça. O actual estado de graça segue-se ao período anterior, que era o do estado com graça: Santana era a anedota e o povo ria, satisfeito. Porque não vivemos só de pão, também é preciso circo. Ainda antes, tinha acontecido o período em que nada era de graça, com um governo dirigido pela mão férrea de Manuela Ferreira Leite. De modo que agora sabe bem um período de estado de graça, e é por isso que decidi fazer parte daquela parte dos portugueses que ainda não começaram a dizer mal do Governo. É sensato, é justo, é politicamente correcto - o que é raro, porque o politicamente correcto poucas vezes é sensato e quase nunca justo.»
Luís Fernandes (id, id)

«"Um estudo feito pelas universidades de Columbia e Yale, nos EUA, revelou que 88 por cento das adolescentes que se dizem virgens têm uma vida sexual activa, embora sem penetração vaginal" (Única/Expresso, 2 de Abril de 2005).
(…) Se estão excomungados todos os métodos anticoncepcionais e protectores, a começar no singelo preservativo, sobra o idílico "regresso à natureza", com a apologia da virgindade e da abstinência sexual - contra a suposta "promiscuidade" de quem ousa (con)viver a sua sexualidade antes de estar casado ou afim.
Neste reino de aparências e hipocrisias, está tudo muito bem quando a menina (no caso) mantém intacto o seu hímen. Pode ter uma vida sexual activíssima, pode praticar sexo oral ou sexo anal, pode experimentar o que muito bem entenda, com um(a) ou mais parceiro(a)s, tudo bem. Só se proíbe a penetração vaginal, pois de outro modo lá se iria a virgindade - quer dizer, o hímen... "Virgens técnicas", é como apetece defini-las, preocupadas que estão (se calhar mais pelos pais e pelos futuros namorados do que por elas próprias...) em manter nada mais do que aparências.»

Joaquim fidalgo (id, id)

«Está por provar que um partido de centro-direita, e claramente liberal, possa ganhar umas eleições legislativas em Portugal.»
Luís Osório (A Capital, QA 06 ABR 05)

«A extinção do partido político UDP marca, simbolicamente, o fim da utopia revolucionária trazida pelo 25 de Abril.»
Daniel Sampaio (id, id)

«Com uma maioria absoluta do PS, com o espectro de António Borges a pairar e com a imagem de que foi uma segunda escolha - para durar apenas o tempo necessário - Marques Mendes terá poucas condições para ser um líder com capacidade de fazer rupturas.»
Pedro Adão e Silva (id, id)

«Ninguém negará, dos que gostam e dos que detestam, que o Bloco de Esquerda representou nos últimos anos a mais importante novidade política.»Leonel Moura (Jornal de Negócios On Line, QA 06 ABR 05)

«A escritora Rosa Montero chamava-lhe ontem, nas páginas do El País, "histeria mortuária". Não é a primeira vez que o mundo se vê submergido numa avalanche mediática em torno da morte. Recorde-se o caso de Lady Di ou, num registo mais doméstico e recente, o do futebolista Fehér. A aldeia global vibra com a alegria, mas é a dor que se presta a manifestações planetárias de maior dimensão e intensidade. É da natureza humana.»
João Morgado Fernandes (DN, QA 06 ABR 05)

JOÃO PAULO, O GRANDE


I. Foi o Cardeal Ângelo Sodano que assim se referiu a João Paulo II, na primeira missa de sufrágio, no passado Domingo.
O mesmo Secretário de Estado do Vaticano já dera o mote, em declarações à televisão, no dia 16 de Outubro de 1994, a propósito da ocorrência, nessa data, do 16º aniversário da eleição de Karol Wojtyla como papa.

A pegar o cognome, este seria o 4º romano pontífice a ficar assim conhecido na História. O primeiro foi Leão I (no séc. V), o segundo foi Gregário I (fins do séc. VI, princípios do VII), finalmente Nicolau I (séc. IX).

Para os atentos a pequenos pormenores, este papa tem contra si (comparando com os antecessores, cognominados de Grandes) o não ter sido o primeiro do nome adoptado como sumo pontífice, ao contrário do que aconteceu com os anteriores.

II. Acerca da eleição do sucessor de João Paulo II, recorda o Cardeal Patriarca de Lisboa que os 117 - aliás, 116, porque um adoeceu - (não 121, como eu antes referira por lapso) cardeais eleitores fazem pela primeira vez a eleição de um papa. Apontamento curioso que decorre, designadamente, do longo pontificado que agora terminou.

III. Nem só encómios e expressões de reconhecimento teve o agora falecido papa a emoldurar o seu nome.
Não falando, já, do exagero de certos radicais (como o da cantora irlandesa Sinéad O’Connor, no programa Saturday Night Live, em 1992, onde se referiu ao Papa como "o verdadeiro inimigo" que era necessário combater – enquanto rasgava uma sua fotografia perante as câmaras da televisão) outras perspectivas existem de desilusão e descontentamento acerca do polémico papa cujo passamento se acompanha agora.

É o caso do suíço Hans Kung, um dos principais teólogos católicos que, em suma, considera o seu pontificado uma “desilusão” e um “desastre”. Vale, pois, a pena ver, no Público de hoje, as “nove contradições” de João Paulo II, apontadas pelo crítico e rebelde teólogo suíço.


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